A antinegritude historicamente construída na Alemanha
O silêncio precisa chegar ao fim
Em uma península estreita que se projeta a partir da Costa dos Esqueletos, no que hoje é a Namíbia, o Império Alemão construiu seu primeiro campo de concentração.
Por Panashe Chigumadzi
Entre 1904 e 1908, o Segundo Reich confinou no campo da morte da Ilha do Tubarão prisioneiros da guerra colonial travada no Sudoeste Africano Alemão, para que trabalhassem na construção da linha ferroviária entre Aus e Lüderitz, tendo exterminado cerca de 100 mil pessoas das etnias Nama e Herero naquele que foi o primeiro genocídio do século 20. A chegada de “cientistas” alemães como Eugen Fischer – que coletou crânios de prisioneiros para seu estudo de “frenologia” e cujos “estudos” de “mendelismo” e “miscigenação” entre os chamados “Rehoboth Basters” da colônia lançaram as bases para as esterilizações forçadas da “Desgraça Negra” da Renânia –, a chamada Ilha da Morte foi o berço de uma nova época de eugenia assassina com o objetivo de eliminar grupos étnicos inteiros.
Tendo perdido suas colônias africanas após a Primeira Guerra Mundial, a Alemanha faria da Europa um cemitério. Mais de um século depois, o país, exemplo mundial de acerto histórico de contas, está apenas começando a sussurrar que um genocídio pode ter ocorrido em sua antiga colônia no Sudoeste da África.
Curando as feridas
Em meados de 2020, a Namíbia rejeitou oficialmente a tardia e insignificante oferta de 12 milhões de dólares por parte da Alemanha. A Namíbia rejeitou a oferta não apenas porque a quantia era um insulto, mas porque, além de a Alemanha pós-nazista ter se recusado a pedir desculpas, o país também se recusou a nomear o genocídio como tal e as reparações como tais, chamando-as, em vez disso, de “cura das feridas”.Em maio de 2021, a Alemanha finalmente reconheceu pela primeira vez como genocídio os crimes que cometeu contra os povos Herero e Nama. Após cinco anos de negociação, o governo alemão ofereceu um programa de reconstrução e desenvolvimento no valor de 1,1 bilhão de euros a ser transferido em 30 anos – expressamente não classificado como pagamento por compensação ou reparação.
O assim chamado acordo é um flagrante desrespeito às nossas legítimas demandas de reparação e restituição”, diz uma petição entregue ao vice-presidente do Parlamento em 21 de setembro, quando líderes da comunidade local e a oposição protestaram contra a votação do acordo na Assembleia Nacional da Namíbia. Especialistas argumentaram que as reparações seriam “impraticáveis”. Como constatou Jürgen Zimmerer, historiador da Universidade de Hamburgo, “os pagamentos de indenização à Namíbia poderiam abrir um precedente para a Bélgica e o Congo, a França e a Argélia, a Grã-Bretanha e a história do comércio de escravizados”. Descendentes dos Herero [e Nama] sabem disso. E o mundo também.
A dimensão da antinegritude
A Alemanha do pós-guerra tem trabalhado duro para estabelecer uma imagem culturalmente progressista no imaginário cultural global. Na África, o Goethe-Institut tem uma longa história que remonta a 1961, quando suas portas se abriram em suas antigas colônias de Togo, Camarões e Gana. No país onde me eduquei, a África do Sul pós-Apartheid, o Instituto é conhecido como um financiador confiável de iniciativas culturais.Em desacordo com sua recusa governamental em pagar reparações coloniais aos países africanos, é sabido que os alemães cumprem suas promessas de pagamento. Como muitos outros autores negros de todo o mundo, recebi muitos convites para eventos bem financiados por organizações tão diversas quanto o Goethe-Institut e o Festival do Livro Africano, com sede em Berlim. A cena cultural de Berlim, longamente subsidiada pelo Estado, estabeleceu a cidade como uma capital cultural do mundo — notadamente aberta a pessoas, ideias e culturas.
E no entanto: já em 1984, a famosa poeta caribenha-estadunidense Audre Lorde tinha uma visão clara sobre a histórica antinegritude da Alemanha, constatada ao longo de oito anos transformadores que passou em Berlim Ocidental. Mesmo que a cena cultural subsidiada pelo Estado festejasse sua presença e desse a ela “um certo montante de espaço para existir”, o espírito de testemunha moveu Lorde a escrever poemas críticos como Berlin Is Hard on Colored Girls (Berlim é dura com garotas não brancas) e East Berlin December 1989 (Berlim Oriental dezembro de 1989) e a colaborar com pessoas como May Ayim, Katharina Oguntoye e Helga Emde para dar à luz o movimento afro-alemão.
A dimensão da antinegritude no mundo liberal e humanista do pós-guerra fica evidente no fato de a Alemanha, apesar de seu passado nazista, ter sido celebrada por sua humildade, embora o país nunca tenha demonstrado arrependimento pelas barbaridades cometidas, como por exemplo a convocação da Conferência de Berlim para a África em 1884-1885, o genocídio dos Nama-Herero e o massacre de mais de 350 mil pessoas na repressão à Revolta Maji Maji. Sem contar sua histórica e muitas vezes assassina exclusão de afro-alemães dentro de suas próprias fronteiras.
Assumindo nossas cores
Talvez a incapacidade nacional, cultural e institucional da Alemanha em reparar os pecados de seu passado sombrio tenha suas raízes na antinegritude da própria história. Afinal, meio século antes de a Alemanha iniciar a Disputa pela África, Hegel, o gigante alemão da filosofia ocidental, apresentou ao mundo moderno sua noção de ausência de consciência histórica na África. Se, de acordo com a Filosofia da história universal (1837), de Hegel, a África e seus descendentes não têm história, nunca podem ser sujeitos da história e, por conseguinte, nunca podem ser autores da história, então que história negra existe para a Alemanha, e de fato para o mundo em geral, para ser levada em conta?Um século e meio após a declaração de Hegel de que a África não tem história, May Ayim e Katharina Oguntoye proclamaram em Showing Our Colors: Afro-German Women Speak Out (Assumindo nossas cores: mulheres afro-alemãs se manifestam), de 1986: a supressão da história negra é a supressão da história alemã. Com um prefácio de Lorde, Showing Our Colors é um marco, tendo sido o primeiro livro a abordar corajosamente a história de afro-alemães como identidade coletiva: “Nossa história não começou depois de 1945. Diante de nossos olhos está nosso passado, intimamente ligado à história colonial e à história do nazismo na Alemanha”.
E de onde você vem?
Showing Our Colors tornou visível uma linha histórica negra que remonta à Idade Média, avançando com a intensificação da antinegritude através da escravidão, do genocídio, do colonialismo e através das ligações interraciais em tempos de guerra entre mulheres alemãs e homens negros das tropas aliadas durante três momentos históricos de derrota nacional da Alemanha: a ocupação da Renânia pelos Aliados, a ocupação da Alemanha pelos Aliados e os anos do pós-guerra a partir da década de 1950. Em Showing Our Colors, autoras negras nascidas e criadas na Alemanha são testemunhas de um país ainda tão centrado na “germanicidade” como herança racial e culturalmente nacionalista: “E de onde você vem? E seu pai? E sua mãe?”. Poupadas das sentenças do campo da morte, das esterilizações e dos abortos forçados que bebês “meio-sangue” de Rehoboth à Renânia tiveram que enfrentar em toda a história da Alemanha, a maioria das mulheres de Showing Our Colors foi mandada para orfanatos. Mesmo quando o Muro de Berlim caiu e o triunfo do ponto de virada varreu o mundo, os afro-alemães enfrentaram uma dupla consciência duboisiana: seu próprio distanciamento histórico em meio à euforia da reunificação. O ensaio de Ayim The Year 1990: Homeland and Unity from a Afro-German Perspective (O Ano de 1990: pátria e unidade a partir de uma perspectiva afro-alemã), lançado em 1993, começa assim:“Nos primeiros dias após o 9 de novembro de 1989, notei que quase não se via na cidade uma mulher imigrante ou alemães não brancos, especialmente aqueles com pele mais escura... Eu sabia, assim como outros alemães negros e mulheres imigrantes, que um passaporte alemão não representava por si só um convite para as celebrações Leste-Oeste. Sentíamos que, com a iminente reunificação da Alemanha, uma demarcação crescente nos empurraria para fora – para um exterior que nos incluiria. Nossa participação na festa não foi considerada. O novo ‘nós’ – como o premiê Kohl adorava dizer – ‘neste nosso país’ não tinha, e ainda não tem, lugar para todos. ‘Saia daqui, negro, você não tem casa?’.”
Em meio ao triunfo da reunificação – a “virada” pós-Muro na história mundial – a falecida May Ayim deu um testemunho implacável da dor negra, oculta por trás do “progresso” nacional e do júbilo público. Devemos olhar a história nos olhos: a história negra é a história alemã.