Relações entre vizinhos na América do Sul
Tabu de longa data?
Acostumados à herança de uma história colonial e décadas de subserviência econômica a nações mais ricas, sempre foi pouco comum entre brasileiros a ideia de que o país, gigante no continente, possa ser visto com desconfiança por seus vizinhos menores. Discutir o assunto é uma espécie de tabu?
Em julho de 2014, enquanto os brasileiros assistiam à inesquecível partida de futebol contra a seleção alemã durante a Copa do Mundo, os vizinhos paraguaios comemoravam cada gol alemão, inclusive nas regiões de fronteira próximas ao Brasil. Embora o nome de uma ponte que separa os dois países, em Foz do Iguaçu, seja Ponte da Amizade, não se pode dizer que as relações entre brasileiros e paraguaios seja tão amigável assim.
O escritor brasileiro Douglas Diegues, que vive em Ponta Porã, município fronteiriço localizado em Mato Grosso do Sul, é taxativo ao dizer que o Brasil é visto pelos paraguaios como “o Império do Itamaraty, um país rico e poderoso que até hoje segue se aproveitando da condição de país pobre que é o Paraguai”.
Tabu nos livros de história?
“O ressentimento do tempo da Guerra Guasú, a ‘grande Guerra’ na língua guarani, a guerra da Tríplice Aliança, ainda borbulha no inconsciente dos vizinhos paraguaios e não sem razão”, diz o poeta. O tema da “guerra mais sangrenta da América Latina” é discutido e polemizado mais do lado de lá da fronteira, como observa Diegues. No Brasil, diz o escritor, quando o tema chega a ser comentado, muitas vezes é manipulado.Nos livros didáticos e nas aulas de história das escolas brasileiras, o assunto também seria, segundo ele, praticamente um tabu, já que a maioria destes livros peca por omitir o Tratado Secreto assinado por Brasil, Argentina e Uruguai contra o Paraguai, por exemplo. Para Diegues, este tratado tinha cláusulas comprometedoras, como por exemplo acabar com a soberania paraguaia perante seus rios e responsabilizar o país pelas dívidas da guerra – dívida que, “de fato, os paraguaios pagaram até 1943, ocasião em que foi perdoada pelo governo de Getúlio Vargas”.
Devolução de documentos
“E os documentos roubados do Paraguai e que ainda permanecem nos arquivos da Biblioteca Nacional? Esse material precisa ser devolvido, mas ninguém aqui no lado brasileiro toca no assunto”, sentencia Diegues. Quer dizer, tocar, até toca. Mas a própria existência de documentos confiscados pelo Brasil durante a Guerra continua sendo ponto de discórdia entre especialistas.Já o historiador Francisco Doratioto, professor na Universidade de Brasília e autor de diversos livros sobre as relações entre os dois países, diz não ter conhecimento sobre documentos paraguaios que ainda estariam em posse brasileira, enquanto Moacir Assunção, jornalista que é também estudioso do assunto, embora também desconfie da existência deste material, defende que o Itamaraty deveria se posicionar oficialmente a respeito da questão, o que jamais aconteceu.
Apesar disso, Doratioto não acha que tais conflitos possam ser considerados tabu: “Não vejo a existência de tabus sobre a Guerra. Houve, sim, uma explicação sem base documental, a de que a guerra foi causada pela Inglaterra. Nos anos 1970-80, era quase um tabu apresentar outra explicação. Há uns 10 anos, porém, essa explicação foi superada”, diz o historiador.
Feridas abertas
Mas nem só documentos foram confiscados. Diegues lembra que, há poucos meses, o governo brasileiro, depois de uma série de reivindicações paraguaias, “devolveu ao país vizinho um canhão que estava exposto no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, canhão conhecido como “El cristano” – referência ao metal dos sinos das igrejas de Assunção, material usado para fazer a arma, que, por sua vez, conteve o avanço das tropas brasileiras sobre a capital do Paraguai”.Por outro lado, Doratioto cita que o Paraguai mantém “no museu a céu aberto Vapor-Cué”, parque localizado a 100 km de Assunção, um navio brasileiro apreendido quando tropas paraguaias invadiram o Mato Grosso, em dezembro de 1864, o que parece evidenciar que muitas ainda são as feridas abertas em torno deste conflito.
"Neoimperialismo"?
A posição do Brasil como “Império do Itamaraty” é vista também com desconforto entre alguns brasileiros, e por isso também seria pouco discutida, como chama atenção Douglas Ceconello, jornalista esportivo especializado na América Latina. Pois o tema se reflete também na cultura de futebol latino-americana. Para Ceconello, quando se trata de futebol, “o Brasil sempre virou as costas para o restante do continente”. Segundo o jornalista, “este cenário agravou-se nas últimas décadas, quando o futebol brasileiro passou a ter maior pujança econômica e a diferença financeira em relação aos vizinhos aumentou de forma vertiginosa”. Ceconello critica também o próprio jornalismo esportivo brasileiro, que ignora ou despreza o resto do continente.“A minha impressão é que o Brasil assume uma postura opressora e imperialista em relação ao restante do futebol sul-americano, falando do aspecto financeiro. A maior parte da imprensa brasileira vive de clichês quando o assunto são nossos vizinhos, como se o Brasil fosse o único representante qualificado do futebol continental”, pontua Ceconello. Entre outras coisas, isso talvez explique a alegria dos paraguaios diante da vitória alemã na Copa do Mundo.