Identidade à brasileira
"Uma quase impossibilidade"

Marina Camargo
© Marina Camargo, 2019.

Um país que sobrevive através da sutileza, da poesia e das metáforas, ainda nos abraça de surpresa por aí – mesmo que cada vez menos e com menor intensidade. Na luta contra assombrações nefastas saídas dos livros de história, o Brasil agoniza, mas não há de morrer.

É difícil explicar a sensação de pertencimento quando se vive na diáspora de um país imaginário. Mesmo assim o Brasil ao qual pertenço ainda me alcança e de tal forma me acalenta dentro de suas fronteiras flutuantes que, mesmo não reconhecendo o país que hoje ocupa suas fronteiras geográficas, sinto que eu não poderia ser de outro lugar. Esse Brasil ao qual pertenço não é geografia, não é língua, não é nacionalidade. É um estado de espírito, uma mistura improvável, uma quase impossibilidade, e quando, de alguma forma, essa utopia se materializa, esse país se torna muito mais real do que qualquer nome escrito num passaporte.

Encontro esse meu país em muitos lugares do mundo: quando vejo de longe um certo jeito de andar ou olhar – que só pode vir desse Brasil – vejo o meu país. E esse jeito não tem um rosto, porque esse Brasil ao qual pertenço deu ao movimento dos corpos uma identidade que não é étnica, mas, ao mesmo tempo, é inconfundível, e muito particular. Também encontro meu país quando pessoas completamente diferentes, muitas delas desconhecidas, transbordam juntas – numa roda espontânea de música – uma alegria solene e quase mística.

Pedaços de noite e sorrisos que salvam

Os ritmos africanos mais diversos foram transformados, fundiram-se com outras melodias igualmente sofisticadas e, junto com a poesia de uma língua latina que quase nunca – em 519 anos – pôde ser usada com plena liberdade pelo povo, criaram um manancial infinito de beleza. Essa língua que sobreviveu através da sutileza, da poesia e das metáforas é uma outra língua, e é através dela, cantando, que se explica o meu país.

A identidade desse Brasil ao qual pertenço se revela nos cantos, nas cores, em pedaços de noite, em becos, em rodas de capoeira, na dança, nos corpos livres, em sorrisos que salvam e em um certo brilho identitário que a gente reconhece nos olhos. Esse meu país, que hoje se esconde, ainda me alcança e me abraça de surpresa por aí, mesmo que isso aconteça cada vez menos.

Aqueles que têm medo do outro

Quanto ao que se vê hoje dentro das fronteiras geográficas do Brasil formal, institucional, oficial, talvez eu não esteja pronto para descrever. Não conhecia esse país, e não reconheço nele a minha identidade. Ele não enxerga a força da diversidade, ele sufoca a inteligência, ele abomina o amor, ele reprime a alegria, ele destrói o futuro, ele queima, ele mente, ele manipula, ele mata. É como se os personagens mais nefastos dos livros de história assombrassem – incorporados em pessoas que nunca leram livros de história – o presente, com a desenvoltura e o ódio de quem passou séculos preso nas páginas de livros esquecidos maquinando vinganças. São senhores de engenho do século 17, nostálgicos do chicote; são industriais do século 19, nostálgicos da submissão dos empregados sem saída; são pessoas mesquinhas de qualquer século, nostálgicas da miséria que faz com que elas se sintam superiores a alguém; são pessoas avessas ao conhecimento, nostálgicas de uma ignorância coletiva que supere a sua ou conscientes dos perigos do pensamento crítico. São pessoas que têm medo do outro.

Mas pessoas assim povoam os livros de história de quase todos os países, e esses países sobreviveram. Se a única maneira de devolver esses personagens aos livros é abri-los, que também saiam deles personagens capazes de ajudar a materializar o Brasil que esse país pode e deve ser. Que se abram também os discos, os quadros, os cordéis, os terreiros, as partituras. Que Machado de Assis enfrente com a perfeição de sua escrita os senhores de escravos, que Jorge Amado descreva em livros a Bahia que Dorival Caymmi descreve em música, que Villa-Lobos nos deixe sem fala com a mistura dos sons de salões e florestas, que João Gilberto invente de novo o violão e o canto, que Tom Jobim explique em notas dissonantes aquele jeito de andar, que os tambores encham o nosso coração de amor junto com cavaquinhos e pianos, que o agricultor de mãos calejadas vire rei no congado, que os deuses africanos transmutados pelo sincretismo em santos católicos expulsem demônios travestidos de Cristos estranhos, que a inteligência torrencial se encontre mais com a ciência, e que o que sempre esteve no limiar de ser enfim seja.

Em nome da resistência

Um país que criou Pixinguinha, Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Edu Lobo, Carlos Drummond de Andrade, Paulo César Pinheiro, Clara Nunes, Paulinho da Viola, Guimarães Rosa, Cartola, Dona Ivone Lara, Nise da Silveira, Mãe Menininha do Gantois, Paulo Freire, Aldir Blanc, João Bosco, Milton Nascimento, Rachel de Queiroz, Lygia Fagundes Telles, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tom Zé, e tantos gênios conhecidos e anônimos, e tanta alegria, e tanta beleza, não vai se render a senhores de engenho sem nome.

Que brasileiros de outras terras – como Pierre Verger, Caribé, Clarice Lispector, Carmen Miranda, e tantos outros – se multipliquem, que nossos povos indígenas se imponham com toda a força, que nossas florestas, rios e praias perpetuem sua beleza e que o Brasil etéreo e quase imaginário ocupe enfim as fronteiras geográficas da República Federativa do Brasil. Quando isso acontecer não vai ser tão difícil explicar essa identidade. Ela vai espalhar alegria, tolerância, inovação e beleza pelas esquinas do mundo.
 

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