Jean-Claude Carrière
“A Europa não é um lugar pacífico e unificado”

 “Nunca conheci alguém que apoiasse o regime, mesmo que não o dissessem sempre”: Entrevista com Jean-Claude Carrière
“Nunca conheci alguém que apoiasse o regime, mesmo que não o dissessem sempre”: Entrevista com Jean-Claude Carrière | Colagem (detalhe): © private/TEMPUS CORPORATE

Jean-Claude Carrière (1931) é um dos principais roteiristas da França. Ao longo de sua trajetória ele trabalhou, entre outros, com Milos Forman, Jean-Luc Godard, Volker Schlöndorff e Luis Buñuel. Leia aqui a entrevista com Carrière pela diretora de ópera Jeanne Pansard-Besson.

Pansard-Besson: Qual era sua percepção da Europa enquanto criança?

Carrière: Na minha infância, a Europa era uma fonte de guerra. Era absolutamente impossível falar dos alemães sem vê-los como inimigos; pois estivemos em guerra antes, e um dos meus tios havia sido morto na Guerra de 1914-18. Havia a França, mas não havia Europa. Não falávamos de Europa. Nós nem mesmo sabíamos o que era isso. Aprendemos na escola que era um entre outros continentes.

Mas, durante a minha infância, não havia (o que apareceu depois da Guerra) o espírito europeu, a ideia mais ou menos arbitrária de unificação de um grupo de países que são muito diferentes uns dos outros. 

Tenho que dizer que, inicialmente, a Europa não existia para mim. Eu era francês. A Europa chegou mais como uma ideia do que como um fato, pois ela esteve dura e sangrentamente dividida durante a Guerra. Essa Europa chegou a partir dos anos 1950, em discursos e encontros de diplomatas: por que não colocar um fim nessa Europa dividida e criar uma Europa unificada? Começou, como você sabe, com a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, tendo França e Alemanha como casal fundador, com o coro de seus filhos ao redor. E então, muito cedo, essa ‘Europa’ estava dividida novamente, rasgada entre os blocos ocidental e oriental. 

Assim, para mim, a Europa não é um lugar pacífico e unificado. Se isso é uma vantagem ou uma desvantagem, deixo a cargo de outras pessoas decidir, pois o choque de culturas pode ser uma coisa boa às vezes, sabe? Ele nos permite entender ‘o outro’ mesmo que através do processo de tentar destruí-lo. Vimos isso em particular quando vieram as guerras na dissolução da Iugoslávia. Os ódios que despertaram no fim do século 20 eram terríveis. Não devemos presumir que, por sermos europeus, nós adoraremos nossos vizinhos. 


Quando olhamos a Europa em um mapa hoje, vemos uma série de pequenos sistemas feudais, alguns mais importantes que outros, e todos com tendência a se fechar mais e mais. Para dizer que sou melhor que o meu vizinho e, portanto, desprezá-lo, fecho minhas portas para ele, não faço a ele nenhum favor e, mais do que tudo, me fecho para pessoas que vêm de longe – há um tipo de retorno à Idade Média nos últimos anos, encorajado por partidos muito nacionalistas de extrema direita.

E essa nova tendência veio depois do que foi o cerne da minha vida – tenho 88 anos –, e o cerne da minha vida foi a Guerra Fria, os dois blocos, o ocidental e o oriental. Isso era tudo de que as pessoas falavam quando se falava em Europa. A Europa era comunismo de um lado, e economia de mercado do outro. Isso, eventualmente, até a queda do Muro de Berlim, em 1989, quando houve uma espécie de nova esperança de que a Europa pesaria como Europa, como uma unidade sólida, economicamente próspera.

Pansard-Besson: O senhor disse que a Europa fez crescer uma nova esperança após a reconciliação. A Europa o fez sonhar também? 

Carrière: Sob o comunismo eu costumava trabalhar em teatro e cinema na Rússia, na Polônia, com [Andrzej] Wajda, na Tchecoslováquia.  Para nós, ‘artistas’ de cinema e teatro, as fronteiras eram mais porosas do que para outros.

Vou contar uma história para você. Um desses filmes em que trabalhei nos anos 1980 era uma adaptação de A insustentável leveza do ser, de Kundera. Durante a escrita do roteiro do filme e a filmagem em si, Gorbachev chegou ao poder, de forma que as coisas já estavam se tornando mais fáceis. Ainda assim, como esperado, foi impossível filmar na Tchecoslováquia. Nós reconstituímos o filme na França. Quase chegamos a filmar em Zagreb, mas o romance era rigorosamente proibido lá e, portanto, o filme também.

Mas, quando o filme ficou pronto, tantas coisas tinham acontecido em Moscou. Um cineasta que eu conhecia muito bem, [Elem] Klimov, foi colocado na liderança do cinema soviético por Gorbachev. E ele organizou um festival de cinema, e nos convidou para exibir nosso filme. Isso foi em 1980. Foi um evento muito significativo: um filme que não pôde ser filmado em países soviéticos ser convidado para um festival em Moscou. Foi uma honra. Assim, cheguei a Moscou com Philippe Kaufman, o diretor, e Klimov nos contou que não poderia exibir o filme no teatro oficial, mas o faria em outra sala.

Philippe perguntou: “Por que não no teatro oficial?” E a resposta diz tudo: “Temos medo de que a delegação tcheca deixe o teatro”. Em outras palavras: temos medo de que aqueles que ainda se dizem comunistas em países que costumávamos chamar de satélites possam ser mais comunistas do que os novos líderes moscovitas. Isso foi algo que nos impressionou muito. Há muitas histórias como essa que podem ser interligadas através do trabalho de uma pessoa – se tivermos interesse, podemos seguir a vida política simplesmente através do que acontece em nossos trabalhos.

Pansard-Besson: O senhor mencionou suas viagens no bloco comunista.

Carrière: A experiência dos países comunistas é muito particular. Passei todo o meu tempo com opositores do regime. Nunca encontrei alguém que apoiasse o regime.  Seja na Polônia, na Tchecoslováquia ou mesmo na Rússia, todos era contra o regime, mesmo que não o dissessem sempre. Assim, podemos nos perguntar como ele se manteve por um tempo tão longo.
 

Eu nunca conheci alguém que apoiasse o regime, mesmo que não o dissessem sempre

Jean-Claude Carrière



Quando você está em um país que é estrangeiro em cada aspecto – língua, costumes etc. –, você tem uma coisa em comum, que é o cinema, a linguagem do cinema. Se você diz algum termo de cinema, você está falando a mesma língua. E essa é a coisa mais importante. É saber do que alguém está falando, o que alguém quer mostrar, que história alguém quer contar.

Quando eu estava trabalhando no Danton (1983), com Wajda, era absolutamente fascinante ver o ponto de vista deles. Sempre me recusei a fazer um filme sobre a Revolução Francesa com um francês, porque teríamos lido os mesmos livros, teríamos tido as mesmas reações ou aversões etc., enquanto fazer isso com um estrangeiro, especialmente de um país sob domínio soviético, foi absolutamente fascinante. Ver o ponto de vista de Wajda sobre Robespierre, por exemplo. Foi realmente muito interessante. Não se tratava de nenhum julgamento de valor, mas do que eles pensavam sobre o seu trabalho, o que haviam conquistado, o que haviam arriscado – porque todos eles pagaram com suas vidas.

Pansard-Besson: Como foi trabalhar na Alemanha? Não foi muito tempo depois do fim da Guerra, foi?

Carrière: Escrevi A falsificação e O tambor com Volker Schlöndorff. Volker e Günther Grass queriam uma perspectiva estrangeira sobre aquele período pouco anterior à Guerra, que não fosse alemã. Foi muito interessante fazer. É para isso que servimos, não é? Para nos juntarmos e pensarmos sobre o que aconteceu conosco. Quando Volker vem a Paris, ele se hospeda do outro lado do pátio, logo ali, onde ele tem um pequeno apartamento. Somos muito bons amigos.
 

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