O Brasil foi o último país a abolir o sistema escravagista; ele foi abolido apenas em 1888, depois de EUA e de Cuba. O Brasil tinha trabalhadores escravos por todo o país e recebeu perto de 45% dos africanos que foram forçados a deixar seu continente e cruzar o oceano Atlântico. Diversas nações chegaram ao país e criaram uma sociedade muito violenta, porém muito miscigenada. A Miscigenação não é apenas uma questão de misturar ou colocar pessoas juntas, mas também uma forma de separação. Esté é o motivo pelo qual uma sociedade tão hierarquizada e violenta se desenvolveu no Brasil. Não obstante, ao mesmo tempo, essa nova diáspora criou formas originais de circulação de ideias, comidas, tecidos, aromas, rituais, religiões, palavras e símbolos. O Brasil foi imediatamente conectado a este novo circuito que separou e reuniu Africa, Europa e grupos Ameríndios. Por um período, principalmente durante a Primeira República no Brasil e o período pós-abolição, o passado permaneceu em silêncio. E este tipo de invisibilidade social persiste até os dias atuais. É fácil notar discriminação no censo nacional, o qual mostra desigualdade de acesso ao trabalho, espaços públicos, saúde e educação. A desigualdade é um problema mundial profundo, mas no Brasil representa um desafio persistente e contínuo. Mesmo assim, desde os tempos coloniais, os africanos mostraram a impossibilidade de definir o sistema escravagista sem unir a ele um outro lado ou aspiração: a liberdade. Esta apresentação procura reunir alguns dados e muita iconografia, mostrando como essa história Afro-Atlântica criou linguagens em comum e formas visuais que igualmente viajaram nos navios negreiros.
Esta palestra se baseia no álbum homônimo de 2007, “The Dog Done Gone Deaf”, do compositor, musicólogo, educador, artista sonoro e pan-africanista Halim El-Dabh. A música eletrônica de El-Dabh, assim como sua música para câmara, conjuntos de percussão, orquestra, concerto, conjunto de sopro, música coral, música dramática e trilhas sonora, se destaca como algumas das mais ousadas e inovadoras do século XX. Esta palestra oferecerá a possibilidade de uma contra-narrativa e uma reconfiguração de uma genealogia da história da arte sonora, ainda que de dentro. “It Is Dark and Damp On the Front” será um esforço para desnudar a destreza musical de El-Dabh, a sofisticação e complexidade de sua obra artística - que integra alegorias, mitos e cosmogonias pluriversais - que durou um período de setenta anos.
É verdade que desde que um excerto de sua composição de 1944, “The Expression of ZAR”, foi lançado sob o título “Wire Recorder Piece” em CD em 2000, El-Dabh tem sido celebrado em círculos de música artística como um dos primeiros compositores a usar as técnicas que Pierre Schaeffer usaria mais tarde em 1948, dando origem à musique concrète. Mas também é verdade que a prática de El-Dabh não pode nem deve ser reduzida a referências do cânon ocidental (embora ele tenha tocado com/para Alan Hovhaness, Henry Cowell, John Cage ou Martha Graham, entre outros), uma vez que suas filosofias musicais são enraizadas profundamente nas tradições musicais africanas, afrodiaspóricas e árabes, e suas composições e experimentações superam a estrutura da musique concrète.
A palestra será um esforço para colocar um holofote sobre um precursor esquecido da arte do som, uma figura imperativa no que poderíamos chamar de uma prática artística afro, e refletir e disseminar as epistemologias auditivas de El-Dabh.
O descendente do Gabinete de Curiosidades, o chamado Museu Etnográfico, esta invenção colonial europeia do século XIX, representa hoje um campo minado político. Esta instituição cultural é inconsistente em termos da condição pós-colonial de hoje e não reflete em nada a circulação geopolítica histórica e atual de pessoas, objetos e ideias.
Esta teimosa crise de identidade do museu etnográfico ocidental não parece ver o fim e as dificuldades que está enfrentando na Europa de modo a oferecer um novo modelo de museu que levasse em conta todos os diferentes tipos de expectativas de vindas de públicos muito diversos. Então, o que poderia significar um museu etnográfico com propriedades coletadas durante a época colonial, classificadas em categorias coloniais por uma elite ocidental, neste século XXI? Como ecoar dentro do espaço do museu as histórias do Atlântico que conectam nossos três continentes, mas que ainda são negligenciados?
Para tanto, o museu terá que desfocar os limites geográficos, misturando objetos e histórias de qualquer categoria, borrando disciplinas e classificações. Esta abordagem está atualmente esboçada na exposição “Prolog # 1-10 Histórias de Pessoas, Coisas e Lugares”, da qual sou curadora e que será tratada em minha palestra.
Eu sugiro o Museu não apenas como um lugar de "Con-Ser-Vação" de objetos e culturas, mas sim um lugar de "Con-Ver-Sação". Isso significa um museu que deve ser considerado como um lugar onde se promovem práticas cruzadas de conversação, conservação, contextualização e experimentação, que abre a cosmovisão europeia ou ocidental destacando uma pluralidade de História e histórias. O novo museu terá que reformular sua coleção e suas histórias para criar uma cacofonia narrativa ou, em outras palavras, um "Gabinete de Histórias Curiosas".
A conferência "Ecos do Atlântico Sul" apoia a ideia de múltiplas perspectivas. Portanto, ao invés de predefinir eixos temáticos e curatoriais, os paineis proporão grupos interessantes e diversos de participantes (da África, América do Sul e Europa) sem nenhuma ligação direta entre suas campos de trabalho. Os painéis começarão com uma contribuição de 10 minutos de cada convidado sobre conexões entre o Atlântico Sul e seus respectivos trabalhos ou abordagens. Tais introduções servirão de estopim para uma valiosa discussão entre palestrantes, moderador e audiência. Como tarefa final, os integrantes da mesa de discussão deverão definir um título para o painel que acabaram de encerrar.
Participantes: Robert F. Reid-Pharr, Selene Wendt, Nana Oforiatta Ayim, Manuel Monestel e Felix Kaputu
Moderação: Moisés Lino e Silva
Local: Biblioteca do Goethe-Institut Salvador
Participantes: Felipe Arocena, Koyo Kouh, Diedrich Diederichsen e Ute Fendler
Moderção: Amilcar Packer
Local: Teatro do Goethe-Institut Salvador
Participantes: Juan Angola Maconde, Fernando Oliva, Ciraj Rassool, Asligul Berktay e Patrick Mudekereza
Moderação: Emi Koide
Local: Biblioteca do Goethe-Institut Salvador
Participantes: Elisa Nascimento, Ayesha Hameed, Wolgang Schneider e Abdulai Silai
Moderação: Carol Barreto
Local: Teatro do Goethe-Institut Salvador
18:00 - 18:30
Carol Barreto
Local: Teatro do Goethe-Institut Salvador
18:30 - 19:00
Anita Ekman
Local: Teatro do Goethe-Institut Salvador
Universidade Federal da Bahia
Salão nobre da Reitoria da UFBA
Rua Augusto Viana s/n - Canela | Salvador - BA
Tradução simultânea
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