Palestra
A política de anti-negritude, música e arquivamento para vidas negras
Segunda-feira, 23 de abril, marca o início da “Ecos do Atlântico Sul”, conferência internacional do Goethe-Institut cujo objetivo nos próximos dias é analisar e traçar o impacto e legado do comércio escravo do Transatlântico nas mentes negras, experiências negras e realidades negras.
A palestra de abertura é ministrada por Lilia Schwarcz, historiadora e antropóloga brasileira que enfoca o império do Brasil e povos afro-brasileiros. A fala de Schwarcz intitulada “Uma história visual afro-atlântica” se concentra em um recontar visual da escravidão no Brasil e a política em camadas de representação, autonomia e supremacia branca presentes na arte dos séculos 18 e 19. O legado de vozes brancas falando sobre a dor negra não é novidade e uma dissonância é criada quando ecos do atlântico sul são vocalizados por uma voz branca em um país que nega os impactos estruturais e sociais do racismo anti-negro e mesmo assim onde você dificilmente vê rostos negros em posições de poder; seja no governo, arquivamento histórico ou programas de televisão convencionais. A sociedade de “caldeirão cultural” do Brasil, como mencionada por Schwarcz, torna conversas sobre racismo uma lição de dissonância cognitiva, mas também suplica pela questão sobre como e quem deve liderar as discussões sobre legados coloniais de uma maneira que aumenta a visibilidade para aqueles que foram mais afetados e cria um diálogo construtivo com aliados.
Depois de um intervalo para café, Bonaventure Ndikung apresenta a sua palestra, “It is Dark and Damp on the Front-Treading the Sonic Path of Halim El-Dabh” (É Escuro e Úmido na Trilha Dianteira do Caminho Sônico de Halim El-Dabh), sobre os aspectos experimentais e invoadores da música africana. Ndikung, um curador e biotecnólogo camaronense, apresenta à audiência a música evocativa do compositor egípcio-americano Halim El-Dabh, mais conhecido pelas composições que criou para a renomada Martha Graham Dance Company. El-Dabh faleceu no final de 2017, aos 96 anos, e em sua fala, Ndikung revela o legado ainda desconhecido de um dos compositores mais talentosos do mundo. El-Dabh tinha uma propensão a ver a música em tudo, até nos sons das cores. Ele criou composições baseadas nas inspirações musicais que desenhou a partir de cores que, como diz, possuíam “alta frequência”. Não tão diferente da música. El-Dabh também foi inspirado pelo vazio do espaço, criando música para envolver e abranger dimensões físicas com uma presença assombrosa e perceptível. Segundo Ndikung, a música de El-Dabh viajou para a Europa e influenciou as criações do próprio continente. Em sua apresentação, Ndikung foca em reivindicação, ilustrando o legado de um criador (El-Dabh) que inspirou e continua a inspirar milhões com sua obra musical.
Por Tari Ngangura
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