Performance
Rituais como fragmentos de vidas
Deslizamentos e fricções marcam os encontros e percursos de artistas, performers, curadores e pesquisadores nos corredores do Goethe-Institut, mas também vão além de suas paredes.
Na conferência Ecos do Atlântico Sul, painéis e conferências formais dividem espaço com expressões artísticas e ritos religiosos.
(Re)significados
Sentidos de sobrevivência e violência são postos em cena para uma plateia silenciosa, num corpo que, vivo no mundo, fala por si e tensiona categorias sociais. Ao fim de cada processo, nascem objetos de significados variados: armas, ferramentas ou símbolos sagrados? Como seja, Jota Mombaça empunha cada um deles e aponta para os espectadores, olhando firme, sempre em frente.
Mulheres, amores e mapas
Enquanto lê a narrativa sobre uma mulher desaparecida, Sarojini conduz a plateia por uma jornada geográfica no mapa do Brasil e da América do Sul, tematizando aspectos sexuais e femininos. Esse corpo em trânsito também explora a prostituição. Por fim, a performer pede licença para ler uma carta de amor com “pensamentos inflamáveis”. De pé, assumindo o papel do eu-lírico que some no mundo, a artista diz que lhe foram impostas “regras de borboleta”.
Encontros de uma diáspora atlântica
A chegada de visitantes num ambiente religioso sempre envolve, inicialmente, um momento de reconhecimento mútuo. Na Casa de Oxumarê (Ilê Axé Oxumarê), a expectativa também é uma das energias compartilhadas pelas irmãs e mães do terreiro. A presença da princesa nigeriana Iya Adedoyin Talabi Faniyi (nascida Olayiwola-Olosun), da cidade de Osogbo, catalisa trocas transatlânticas na Casa.Recebida com festejo e respeito pelas mais antigas mães da Casa, Iya Adedoyin lidera a saudação e pedido de licença a todos orixás assentados por ali. A mestra em estudos africanos também é alta sacerdotisa da religião tradicional yorubá em Osun, Obatalá, Ifá, Egbe, Obaluaye, Ogboni, Aje, Baayanni. Os atabaques, conduzidos pelos filhos da família Oxumaré, entoam um canto especial em homenagem a Oxum. Ao redor de objetos sagrados, a princesa dança em roda com filhas do Ilê Axé, em saudação à mãe das águas doces.
Para a yakekerê Sandra (sucessora eventual da mãe de santo), o momento teve tom de grande festa e comemoração na Casa. “Recebê-los aqui é um presente. Cada irmão e irmã é mais um na luta para desmistificar o olhar racista e discriminatório dirigido às religiões de matrizes africanas. A resistência e a tentativa de quebrar as correntes ainda persistem”.
por Luis Fernando Lisboa
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