Future Perfect
NEOJIBA - Música que transforma vidas

Neojiba 2016
Foto: Lenon Reis

O pianista Ricardo Castro iniciou rede de projetos comunitários de música com crianças e jovens de todo o estado da Bahia.

“Uma pessoa que começou aos três anos a tocar piano não pode de repente parar. Nem se decidir: ‘não quero mais tocar’, pois não vai dar certo. É como comer e dormir”, diz Ricardo Castro, o primeiro brasileiro a receber o título de membro honorário da Royal Philharmonic Society.

Mas essa relação orgânica que o brasileiro construiu com a música vai além de sua sólida carreira internacional, chegando a mais de 4600 crianças, adolescentes e jovens através do programa NEOJIBA (Núcleos de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia). “No começo, a gente simplesmente criou uma orquestra sinfônica, mas que já tinha na sua semente algo inédito”, diz Castro, que fundou o programa em 2007, em Salvador. “A novidade é que aqui a orquestra é o meio para levarmos a prática musical coletiva ao maior número possível de pessoas. Desde o início, sem saber, eu queria que a plateia subisse ao palco”, acrescenta.

Formação na Suíça

Natural de Vitória da Conquista, na Bahia, o músico mudou-se para a Europa ainda muito jovem. Formado pelo Conservatório de Genebra, Castro dá aulas desde 1992 para alunos de mestrado da Haute École de Musique de Lausanne, na Suíça. “Mas não deixei de ser brasileiro. Minha família continuou no país e, em algum momento, me confrontei com essa realidade social”, relata o pianista quando lembra do momento no qual sentiu que poderia fazer “algo mais” como artista. “Daí foi uma questão de procurar parcerias. O Projeto Axé, o Conquista Criança e o projeto Belgais, da pianista Maria João Pires, em Portugal, foram minhas três principais referências”, diz.

Lugar de plateia é no palco

Em janeiro de 2007, começou para Ricardo Castro sua aventura no NEOJIBA. “O que acontece aqui é uma novidade também para mim. Mudei muito meus conceitos como artista. Nesses nove anos, vivendo cotidianamente nosso lema ‘aprende quem ensina’, mudei dentro de mim para ‘lugar de plateia é no palco’. Considero que todos podem alcançar um nível bastante elevado de excelência na arte em geral, se houver oportunidade”, analisa o pianista.

Castro acredita que a prática artística não pode ser privilégio de poucos: “Já sabemos que a arte é transformadora e essencial para uma vida em comunidade. A questão agora é convencer mais e mais pessoas de que ela é possível para todos e que deveria ser uma prioridade nas políticas públicas”. E enquanto o acesso à formação musical continua sendo bastante difícil para muitas crianças, adolescentes e jovens brasileiros, o NEOJIBA avança a passos largos.

Em 2016, o programa conta com dez Núcleos de Prática Orquestral e Coral sediados em Salvador e outros municípios baianos, entre eles Simões Filho, que lidera o ranking de homicídios no Brasil. O programa atende ainda uma diversidade de parceiros em 15 bairros de Salvador com os maiores índices de violência da região metropolitana, e 17 cidades do interior do estado. São projetos comunitários de música, filarmônicas e fanfarras escolares, que recebem do NEOJIBA atividades de formação musical, qualificação no campo pedagógico e da gestão e concertos didáticos gratuitamente.

“A orquestra é a maneira mais rápida e eficiente para alcançarmos um resultado de impacto em pouco tempo. Isso ocorre pelo tamanho, repertório e exigência de disciplina. O canto coral também é uma atividade fundamental. A gente foi crescendo para todas as formações possíveis, como a Orquestra de Cordas Dedilhadas. Talvez, em breve, teremos uma orquestra de berimbau ou só de percussão. Tudo é possível”, conta Castro.

Experiência mais real

Alguns dos músicos brasileiros do NEOJIBA fazem parte de um grupo de 104 músicos, com idade entre 14 e 29 anos, que se apresentam a partir de agosto de 2016 na França, Suíça e Itália. São 11 concertos sob a regência de Ricardo Castro e em companhia de duas das mais conceituadas musicistas da atualidade: a pianista Martha Argerich e a violinista Midori Goto.

“Acredito que exista um desejo de escutar esses jovens tocando, pela maneira como abordamos o repertório, pela dedicação e a energia que emana da junção dessas energias. O resultado é sempre bastante emocionante”, aponta Castro. Para o público europeu, “habituado a ouvir orquestras profissionais padronizadas”, o interesse no trabalho realizado na Bahia está na possibilidade de participar de uma “experiência mais real”, conclui o pianista brasileiro.
 

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