Future Perfect
Agência Pública: reinventando o jornalismo

Einweihung Casa Pública Rio de Janeiro.
Einweihung Casa Pública Rio de Janeiro. | Foto: Agência Publica

Financiada por crowdfunding, colaborações de leitores e editais de fundações, Agência criada por jovens jornalistas brasileiras inova cenário da informação no país.

Em março último, a repórter Andrea Dip recebeu o “Troféu Mulher Imprensa” pelo conjunto de trabalhos que desenvolveu para a Agência Pública, ganhando uma concorrência que envolvia diversos veículos tradicionais. O prêmio celebra uma série de reportagens desenvolvidas principalmente sobre direitos das mulheres e que alcançaram grande repercussão. Andrea Dip dedicou seu prêmio “a todas as mulheres que transformam sua dor em luta, ao jornalismo independente e à Agência Pública”, onde atua desde 2011.

Fundada há exatamente cinco anos por Marina Amaral, Natalia Viana e Tatiana Merlino, a Agência Pública aposta, de forma pioneira, em um modelo de jornalismo sem fins lucrativos. Financiada por recursos de fundações, ações de crowdfunding e outras doações de leitores, a Agência defende reportagens de fôlego e bem apuradas, que chegam a tomar meses de trabalho. “A Agência Pública foi fundada com o propósito de fazer grandes reportagens. A estrutura cresceu, mas a proposta segue igual”, diz Marina Dias, coordenadora de comunicação.

Com uma redação em São Paulo e um centro cultural no Rio de Janeiro, a Agência Pública conta com 14 profissionais ligados a ela diretamente, entre diretores, repórteres, correspondentes e editores. “Nossa estrutura é pensada para fazer exatamente o tipo de jornalismo que fazemos. Nem teríamos como fazer cobertura jornalística diária”, explica a jornalista.

Megaeventos em pauta

Dias ressalta a independência do jornalismo feito pela Agência Pública e a liberdade dos repórteres. “Nosso jornalismo não tem compromisso com anúncios nem com grandes empresas e sim com o interesse público e com o fomento do próprio jornalismo de qualidade”, defende.

Paula Melani Rocha, professora da pós-graduação em Jornalismo da Universidade de Ponta Grossa, resume em quatro tópicos a importância da Agência Pública: “Eles têm um papel importante pelo modelo de gestão, pelas pautas abordadas, pelo princípio investigativo e sobretudo pelo estilo das reportagens, com pluralidade de fontes, contextualização e independente das amarras das fontes oficiais. Estas amarras ainda são muito presentes na imprensa factual”, argumenta a professora.

Desde sua fundação, além de pautas em torno de problemas urbanos, violência contra a mulher e segurança pública, a Agência vem denunciando uma série de violações de direitos humanos e impactos sofridos pela população brasileira em função da Copa do Mundo e das Olimpíadas. “Outro tema que a Pública investiga desde que foi fundada é a Amazônia. Desenvolvemos inúmeras reportagens sobre conflitos que ocorrem diariamente na região. De modo geral, interessam a nós os megaeventos no Brasil e o impacto que eles causam na vida dos brasileiros”, explica Marina Dias.

Bolsas para jornalistas estrangeiros

Pensando em ampliar essa cobertura, a Pública lançou um programa de residência para jornalistas estrangeiros interessados em produzir reportagens durante os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro: quatro repórteres ficarão hospedados na Casa Pública entre julho e agosto de 2016 durante pelo menos 15 dias.

Além da hospedagem, a Agência oferece uma bolsa de 7 mil reais e apoio de equipe. “Nossa cobertura trouxe muitas histórias importantes, mas que estavam tendo pouca atenção, sobre remoções, autoritarismo, violência e corrupção. Agora queremos ajudar jornalistas de outros países a contarem esse lado triste dos megaeventos. Uma realidade que não pode ser ignorada”, diz Natalia Viana, cofundadora e uma das diretoras da Agência.

Residências e debates

Para que jornalistas independentes pudessem desenvolver pautas específicas, a Agência Pública já desenvolveu campanhas de financiamento colaborativo. Na primeira, em 2013, a Agência arrecadou quase 60 mil reais, distribuídos em dez bolsas de 6 mil reais para jornalistas que mandaram suas “pautas dos sonhos”. Foram enviadas “mais de 100 propostas, selecionamos em torno de 40 e o público ficou responsável por escolher dez. As reportagens foram desenvolvidas e publicadas no site”, conta Dias.

A professora Paula Melani lembra ainda que a Agência Pública, assim como outros veículos alternativos, como Mídia Ninja e Jornalistas Livres, nasceu em um contexto de “grande potencial” da internet e das redes sociais. “Isso dá a possibilidade ao público de se informar por diferentes ‘linhas editoriais’. O leitor pode discordar ou concordar com determinada mídia, mas o fantástico é o fato de ele ter acesso. E isso é uma coisa nova”.

A Agência Pública, como pontua Marina Dias, propõe-se também a refletir sobre a prática jornalística: “A gente não quer só fazer grandes reportagens, mas também pensar e discutir a situação do jornalismo no Brasil”, diz a profissional, citando dois projetos recentes desenvolvidos pela Agência. Um deles é o mapa do jornalismo independente, que catalogou 70 iniciativas no Brasil inteiro, trazendo um panorama “colorido, inovador e esperançoso”, que está disponível online. Outro projeto é a Casa Pública, centro cultural localizado no Rio de Janeiro, que tem promovido debates sobre jornalismo e temas atuais no país. Para o futuro, a Agência prevê a criação de um laboratório de jornalismo para estudantes.
 

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