Future Perfect
Vozes pela autoestima

Gruppe Meninas de Sinhá
Foto: Lígia Nassif

O coro Meninas de Sinhá, formado por mulheres de 54 a 97 anos, oferece há 20 anos às participantes uma alternativa para combater a ansiedade e a depressão.

O nome Valdete da Silva Cordeiro é praticamente uma lenda entre as participantes do grupo Meninas de Sinhá. Pois foi ela quem conseguiu, nos idos de 1996, reinventar a vida de dezenas de senhoras que viviam em estado de depressão na comunidade do Alto Vera Cruz, situada em uma região periférica de Belo Horizonte. Baiana, sem nunca ter conhecido os pais, e sem saber nem mesmo o dia de seu aniversário, Valdete chegou à capital mineira aos cinco anos de idade, adotada por uma família e sem posse de qualquer documento.

Anos depois, ela decidiu que seu aniversário seria no dia 7 de setembro, a data em que é celebrada a independência do Brasil. O primeiro aniversário foi comemorado já aos 10 anos de idade, com uma festa simples, no quintal da casa da família que lhe adotou: ela juntou alguns “tostões”, comprou uns doces no boteco, improvisou um bolo numa caixa de sapatos e convidou os filhos da “granfinada toda” do bairro.

Longa trajetória

E foi também por meio da alegria da festa de seus 50 anos de idade, no final dos anos 1980, que Valdete começou a dar os primeiros passos para fundar o grupo Meninas de Sinhá. O grupo nasceu de um incômodo: Valdete não se conformava em ver tantas senhoras deixando o posto de saúde com a sacola cheia de remédios para depressão. Queria fazer alguma coisa, mas não sabia o quê. “Achei que elas não precisavam tomar remédio. O que precisavam era de mais autoestima”, costumava dizer a fundadora do grupo, que faleceu em janeiro de 2014, aos 75 anos de idade.

O Meninas de Sinhá, que em 2016 comemora 20 anos anos de idade, é formado por 24 mulheres, na maioria negras e pobres, com idade entre 54 e 97 anos. Nesse tempo, depois de uma primeira apresentação no próprio bairro, muita coisa aconteceu. “Se hoje me perguntarem como chegamos até aqui, não sei explicar”, diz dona Bernardina de Sena, a Seninha, que canta no grupo desde o começo.
 
A trajetória do Meninas de Sinhá inclui a gravação de dois CDs, um DVD, parcerias com artistas conhecidos e até premiações. Em 2012, o grupo se apresentou no Festival Brave em Wroclaw, na Polônia. “Como mulheres, idosas, pobres e negras, representar o Brasil em um país tão longe como a Polônia foi uma grande alegria para nós”, conta Seninha. Além disso, sem perder os laços com a própria história, o grupo segue fazendo apresentações em lares de idosos, creches, penitenciárias, escolas e hospitais.

 
 

Coro de vozes

  Por meio das cantigas de roda, o repertório do grupo mescla músicas de domínio público, canções próprias e releituras populares. E a musicalidade aos poucos também foi se tornando ainda mais rica, com a entrada de uma variedade de instrumentos musicais, principalmente de percussão, que elas aprenderam a tocar por meio de oficinas.

Daniel Nunes, baterista da Constantina, uma banda de música instrumental que em 2010 subiu ao palco com as Meninas de Sinhá, lembra do encontro que teve com as cantoras. “O coletivo através da voz sempre nos desafiou, pois somos um coletivo de instrumentos. Estas senhoras trouxeram uma força que as sonoridades instrumentais jamais alcançariam”, relembra. Segundo o músico, a singularidade do grupo consiste em “fazer da voz o instrumento musical mais peculiar já inventado. Este grupo se reuniu para contar, ou melhor, cantar histórias através das mais singelas melodias que pudemos ouvir durante esses anos de banda”.

Passado e futuro

  • Grundering der Gruppe Valdete da Silva Cordeiro Foto: Emmanuel Pinheiro

    Grundering der Gruppe Valdete da Silva Cordeiro

  • Grundering Valdete da Silva Cordeiro Foto: Emmanuel Pinheiro

    Grundering Valdete da Silva Cordeiro

  • Meninas de Sinhá Foto: Lígia Nassif

    Meninas de Sinhá

  • Probe Meninas de Sinhá Foto: Lígia Nassif

    Probe Meninas de Sinhá

O produtor cultural e arte-educador Gil Amâncio, que faz parte da história das Meninas de Sinhá, destaca um aspecto do grupo: “Estas meninas conseguem fazer uma coisa muito legal que é criar este arco entre passado e futuro. Elas vão buscar as suas canções na memória de infância, mas não ficam presas nisso”, diz.

Quando questionadas sobre a fonte de tanta energia para ensaiar toda semana, viajar, compor novas músicas e fazer tantas apresentações, elas costumam responder: “A gente tem dor no joelho, no ombro, nas costas, mas na roda a gente vira de novo criança e ninguém se lembra mais de dor não”.
 

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