Future Perfect
Onda Verde por mais qualidade de vida

Centro de Produção de Mudas para Reflorestamento.
Centro de Produção de Mudas para Reflorestamento. | Foto: Alberto Veiga.

ONG socioambiental criada há 23 anos em cidade de baixa renda do Rio de Janeiro mantém projetos ecológicos e oferece formação profissional destinada entre outros a mulheres.

Localizado na Baixada Fluminense, o município de Nova Iguaçu possui um dos maiores índices de criminalidade no Estado do Rio de Janeiro.  Além disso, o município também abriga a reserva de Mata Atlântica do Tinguá, de alta biodiversidade, importante para o abastecimento de água e qualidade de vida da população. Como defender aquela floresta e melhorar a vida dessa comunidade tão desassistida pelo poder público? Com essa pergunta em mente, o ecologista Hélio Vanderlei fundou a ONG socioambiental Onda Verde no ano de 1994. “Quando criei a ONG, pensei: Tenho que ir pra Tinguá proteger a floresta. São 25 mil hectares que produzem 170 milhões de litros de água por dia“, conta.

Vanderlei, filho de família de migrantes da periferia do Recife, chegou ao Rio aos cinco anos de idade, com a mãe e quatro irmãos. A partir de então, vendeu picolé e roupas pelas ruas de Nova Iguaçu na infância e adolescência e trabalhou mais tarde como office boy e bombeiro industrial. Tudo isso antes de se empenhar na defesa dos direitos trabalhistas e da proteção ao meio ambiente com a criação da Onda Verde. O projeto, em seus 23 anos de existência, já envolveu mais de 100 mil pessoas, proporcionando o plantio de um milhão de árvores, além de promover educação ambiental, facilitar pesquisas em sua biblioteca e oferecer cursos a uma comunidade com muito pouco acesso à informação. “O ecossocialismo para mim tem esse foco de trabalhar a comunidade. Por isso, a gente tem um centro de educação ambiental e não uma sala com ar-condicionado”, diz Vanderlei.

Recuperação ambiental e qualidade de vida

No âmbito do projeto, o replantio de mudas de espécies nativas da Mata Atlântica foi responsável pela recuperação de rios como o Ana Felícia, que hoje tem água limpa, e pelo retorno da fauna que havia desaparecido da região, além de ter possibilitado o cultivo de alimentos como mandioca, banana, abóbora e melancia.

O centro de mudas da ONG fornece os 100 mil pés de árvores que são plantados anualmente. Das 12 pessoas que trabalham no projeto, 11 são da região. Entre eles Benedito Gonçalves dos Santos, de 48 anos, e Wallace Mendes Coelho, de 24.  Para Santos, as melhorias nas nascentes na região são visíveis: “As águas já estavam quase todas secando e agora voltaram a brotar”. Um resultado que interfere e abrange toda a comunidade. “Quase ninguém faz isso na Baixada. Ninguém planta árvore aqui”, reafirma Coelho, que conseguiu na Onda Verde seu primeiro emprego com carteira assinada.

Centro de Estudos Ecológicos e Economia Criativa

  • Centro de Estudos Ecológicos e Economia Criativa. Onda Verde. Foto: Alberto Veiga.

    Centro de Estudos Ecológicos e Economia Criativa. Onda Verde.

  • Estagiárias participam de Programa de Reflorestamento da ONG Onda Verde em Nova Iguaçu, Rio de Janeiro. Foto: Alberto Veiga.

    Estagiárias participam de Programa de Reflorestamento da ONG Onda Verde em Nova Iguaçu, Rio de Janeiro.

  • Centro de Estudos Ecológicos e Economia Criativa. Foto: Camila Coelho. Archiv Onda Verde.

    Centro de Estudos Ecológicos e Economia Criativa.

  • Centro de Educação Ambiental. Foto: Irene Santos. Archiv Onda Verde.

    Centro de Educação Ambiental.

  • Laboratório Onda Verde. Foto: Irene Santos. Archiv Onda Verde.

    Laboratório Onda Verde.

  • Aulas para crianças. Foto: Irene Santos. Archiv Onda Verde.

    Aulas para crianças.

Sempre preocupado em maximizar o uso sustentável nas construções da ONG, Vanderlei ergueu o Centro de Estudos Ecológicos e Economia Criativa em 2015. Assim como o Centro de Educação Ambiental construído em 1999, foi usado isopor no interior das paredes – um isolante térmico que reduz em 9º C a temperatura externa. Em um lugar tão quente como a Baixada, faz toda a diferença. A nova construção, feita de contêineres, possui reaproveitamento da água da chuva, biodigestor e vidros térmicos, além de produzir energia eólica e solar. O excedente da captação energética é entregue na rede e o valor abatido nas outras contas de energia elétrica da ONG.

Um prédio “de alma feminina”

“O foco da Onda Verde não é formar uma fotógrafa ou uma artesã, mas sim uma cidadã, uma mulher com plena consciência dos seus direitos”, define Vanderlei o foco de atividades de formação profissional voltadas para o público feminino. Um total de 100 jovens de Nova Iguaçu e do entorno já participaram dos nove meses de cursos.

Tatiane Couto da Silva, de 18 anos, e Lorena Silva Brandão, de 19, ambas moradoras da região, levam uma hora e meia de suas casas até o local das aulas. Estradas esburacadas, espera longa pelo transporte e o calor que atinge 40º C nunca foram um empecilho. “Percebi aqui que tinha direito de voz, que tenho o que falar”, relata Brandão. Os cursos realizados por profissionais liberais de diversas áreas incentivam novas formas de pensar e agir. “Você muda sua própria visão, seu ambiente, seu entorno. Está tudo conectado”, afirma Silva, com voz decidida.

Hélio Vanderlei, por sua vez, não abandona sua ideia de um mundo melhor em nenhum momento, apesar das dificuldades financeiras para manter a ONG enfrentadas nos últimos anos: “Aqui na Onda Verde transformamos sonhos pessoais em sonhos coletivos e vamos construindo juntos”, conclui.

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