O novo normal na Índia
A educação a distância contribui para minimizar um sistema de ensino desigual?
Enquanto as instituições educacionais de tijolos e cimento ficaram fechadas, a educação digital virou o novo normal. A cineasta e escritora Paromita Vohra dá início a uma corrente de cartas ao responder até que ponto esse modelo é sustentável na Índia. Será que a educação digital vai diminuir ou aumentar os abismos na educação? Ou surgirá daí uma forma completamente nova?
Por Paromita Vohra
Durante muito tempo, na Índia, a educação a distância – designada de curso por correspondência – era considerada uma educação de baixo nível, buscada apenas por quem não morava perto de nenhuma instituição educacional, ou não possuía recursos financeiros para uma educação em tempo integral. Agora, toda educação é educação a distância. Esse é um fator equalizador?
A divisão digital da Índia, que reflete sua dinâmica de classes e castas, mostrou que a recente normalização da educação a distância tinha o potencial de aprofundar as antigas divisões. Para muitas pessoas, a pandemia representou uma distância da educação em si. Como o acesso a dispositivos digitais e à internet é limitado em alguns lares, as crianças se afastaram do contexto formal de uma escola; as bem pequenas já desaprenderam completamente a ler. Para outras crianças, há fartura de equipamentos, mas isso significou aprender um novo vocabulário do ser.
Conexões na sala de aula
As salas de aula são um mundo. Nelas, encontramos diferenças, mesmo que se esforcem por produzir igualdade. O sistema educacional tradicional foi construído a fim de adequar indivíduos a um sistema social, frequentemente baseado em conformidade e hierarquia. As crianças se adaptam, mas elas também desafiam a conformidade através de atos de rebeldia, através da subversão da disciplina das menores formas: passando bilhetes pela classe, cochichando, dando desculpas esfarrapadas por não terem feito suas tarefas de casa, zombando do professor. Desta maneira, elas também aprendem a formar conexões de amizade que não são ordenadas apenas pela educação, mas facilitadas pelo lugar onde a educação acontece.A sala de aula do Zoom pode a princípio ser vista como um fator atomizante. Mas, em diversos aspectos, ela mapeia as formações da própria vida física. “Minha conexão está instável”, “minha câmera não está funcionando” são as novas frases no estilo “o cachorro comeu minha tarefa de casa”. Estudantes formam grupos de conversas para se incluir ou excluir mutuamente e criam conexões em salas privadas. Aproximam-se através da cultura pop, como sempre, de atividades emuladas de tutoriais em vídeo (fazer geleca, crochê, projetos científicos), aprendem mais sobre o mundo em seu tempo livre. A busca por proximidade persiste apesar da distância. Ao mesmo tempo, a habilidade de se desconectar de conflitos ou responsabilidades também é facilitada pela desconexão da sala do Zoom. Por um lado, estudantes ficam protegidos de algumas dificuldades do bullying escolar pelo conforto de estar em casa e recebendo cuidados. Por outro, no caso de crianças negligenciadas, a distância da escola as isola ainda mais.
Os estudantes esqueceram como é trabalhar juntos?
Será que fazer amizades, aprender a aceitação mútua, aprender a trabalhar em grupo e a se conceder espaço mutuamente de forma quase intuitiva e natural é possível quando trabalhamos a sós e nos reunimos como seres individuais? Será que a habilidade humana de cooperar está sendo ameaçada pelo aprendizado a distância?Conversei com dois profissionais da educação. Um deles, de uma escola de elite de cinema, notou em setembro de 2021, quando estudantes começaram a retornar para as aulas presenciais, que ao mesmo tempo que apresentavam proficiência técnica e que tinham aprendido coisas em nível individual, tinham dificuldades para trabalhar em conjunto com outras pessoas, como um grupo ou uma equipe.
Outra professora ficou surpresa ao perceber que, depois de um ano de trabalho a distância, estudantes tinham desenvolvido um interesse ativo pelo respectivo tema e estavam plagiando menos da internet – embora isso tivesse sido até mais fácil para eles –, e trabalhavam até em projetos coletivos de forma bem harmônica. Adicionalmente pareciam ter aprendido de forma autodidata várias coisas não exigidas no currículo. O medo da anarquia que a educação a distância poderia ter desencadeado na sala de aula não chegou exatamente a se concretizar. Além disso, a questão sobre o que é aprender emergiu de uma maneira nova, uma vez que a rigidez das salas de aula e dos programas de estudo cessou.
Nas indas e vindas da pandemia, talvez a realidade da vida possa ser figital – uma mistura de física com digital – de maneira mais formal. Por um lado isso levanta questões sobre se a divisão digital vai se transformar em uma divisão social diferente, se estudantes que acham mais fácil ficar em casa perderão a habilidade de fazer parte de um grupo e nunca adquirirão o hábito da amizade e do trabalho em equipe. Por outro lado, se seria possível tornar as salas de aula mais inclusivas. Talvez para que estudantes que portam deficiências ou têm questões de saúde mental encontrem maneiras de participar de uma sala de aula com outras pessoas em um futuro híbrido que parece inevitável. Como em todas as áreas, também na educação a pandemia sugere que só um grau maior de fluidez poderá nos ajudar a superar distâncias.
Minha pergunta para o Brasil é: “Quais novas questões, relacionadas à educação no Brasil, surgiram em consequência da pandemia?”