Como romper o ciclo da pobreza
A internet como ferramenta educacional
A artista brasileira Rosana Paulino responde à pergunta da escritora e cineasta indiana Paromita Vohra: “Quais novas questões, relacionadas à educação no Brasil, surgiram em consequência da pandemia?”. Neste contexto, a desigualdade social no sistema de ensino se tornou ainda mais visível. Porém, a internet também cria novas oportunidades.
Por Rosana Paulino
Uma das principais questões diz respeito a novas maneiras de se aprender, ou melhor: Como educar uma geração, cujos pais não foram ensinados a ter autonomia de aprendizado no ambiente digital? O Brasil sempre foi uma sociedade onde a educação tem sido utilizada como ferramenta para manter os mais pobres distantes de seus direitos. Receber uma educação formal significa, muitas vezes, a possibilidade de romper um ciclo insuportável de pobreza.
A atual lei magna a reger o país, a Constituição de 1988, garantiu a educação como obrigação do Estado. Isso levou uma enorme massa de pessoas que não tinham acesso ao ensino aos bancos escolares. O chamado “Ensino Fundamental” compreende um total de nove anos e abarca estudantes a partir dos seis anos de idade. O resultado foi uma significativa redução do analfabetismo, embora ainda tenhamos vários e graves problemas que vão desde a precária formação dos professores até o uso da tecnologia em sala de aula.
Os efeitos do aprendizado digital
Com a pandemia, outros desafios vieram juntar-se aos já existentes e, dentre eles, o precário acesso à internet é um dos mais graves. Não foram poucas as cenas de estudantes em cima de árvores ou lajes tentando obter melhor sinal de rede. Outras questões, como a proficiência dos pais em relação à navegação nas redes, e problemas relacionados ao declínio do desenvolvimento da sociabilidade dos alunos, também precisam ser considerados. No caso de alunos de baixa renda, devemos ainda pensar no acesso à alimentação e na segurança física e mental de crianças e adolescentes, uma vez que a escola tem também papel preponderante nestas duas áreas.Na minha opinião, talvez a principal pergunta a ser feita em relação aos modelos de ensino híbrido que têm sido adotados como solução à pandemia se refira a como educar uma geração cujos pais não foram ensinados a ter autonomia de aprendizado no ambiente digital. Migrar para um modelo híbrido, onde a internet tem papel fundamental, repete um velho problema conhecido dos brasileiros. Famílias de classe média ou alta, que possuem habilidades de leitura, discussão dos fatos e senso crítico tendem a passar esses conteúdos para os seus rebentos. Sabemos o atraso que isto causa para as famílias de baixa renda em relação ao desenvolvimento escolar. Para boa parte das famílias destes usuários, internet é sinônimo de redes sociais. Em pesquisa realizada no país no ano de 2013, e não parece ter havido grandes mudanças neste panorama desde então, 77% dos usuários de redes móveis, as mais utilizadas pela população de baixa renda, acreditam que a internet se limita as mídias sociais como Facebook e Youtube.
Problemas estruturais
As pessoas simplesmente não sabem como utilizar a rede para pesquisar informações relevantes, e isto varia desde traçar um roteiro simples, utilizando ônibus para deslocamento, até realizar pesquisas escolares. Diante deste cenário, como não temermos um aprofundamento das desigualdades em relação à formação escolar dos mais pobres? Se adicionarmos a isso os custos com a internet, a possibilidade de que tenhamos um verdadeiro apartheid educacional é enorme. Como reverter esse quadro? Como poderemos diminuir os prejuízos sofridos por essa geração escolar que enfrenta/enfrentou a Covid-19?As questões trazidas pela pandemia não são exatamente novas, apenas trocaram de ambiente. De um local real para o espaço virtual. As preocupações são as mesmas, agravadas pelos riscos de se contrair uma doença mortal. Acredito que só poderemos ter algum sucesso se atacarmos os problemas históricos relacionados à educação no Brasil. Afinal, é a partir da resolução de problemas estruturais que poderemos sanar com eficiência os desafios atuais e futuros.
Tendo em vista a situação em outros países, me pergunto se a Coreia do Sul também enfrenta problemas semelhantes como acesso digital à educação. Como os pais tem reagido a esse novo papel de educadores digitais junto com os professores? Como tem sido o envolvimento das famílias e dos estudantes em uma educação com forte conteúdo digital?