Pobreza e riqueza na Alemanha
A evolução da desigualdade
Espaço para morar, trabalhar e manter distância – durante a pandemia do coronavírus, isso tudo se transformou em luxo de uma hora para outra. Por que as possibilidades de distanciamento social são um parâmetro de desigualdade que atinge especialmente as crianças?
Por Christoph Butterwegge
Doença ou saúde – também uma questão de status social
Desde o início da pandemia de Covid-19, foi constante a discussão sobre sua evolução entre pessoas pobres e ricas. Questionava-se sobretudo se esse estado de exceção também viria a reforçar a desigualdade social. O fato de que a proximidade pessoal e o distanciamento social influenciam o estado de saúde, por exemplo, só emergiu realmente à consciência de muitas pessoas durante a pandemia – assim como o fato de que o estado de saúde de uma pessoa depende de seus recursos materiais. De acordo com a situação financeira e a posição social em que as pessoas atingidas pelo vírus se encontravam, as repercussões em seu estado de saúde eram sensivelmente diferentes. Isso tem vários motivos.Condições de moradia em espaços apertados e de higiene duvidosa, como nas acomodações compartilhadas, aumentam bastante o risco de uma infecção com o coronavírus, bem como de um desenvolvimento perigoso da doença causada pela Covid-19. Em abrigos de refugiados, em que mesmo as grandes famílias não possuem instalações sanitárias próprias e as regras de distanciamento e higiene não são observadas ou só podem ser mantidas com grande esforço, o risco de contaminação foi especialmente alto. As pessoas que tiveram o privilégio de trabalhar em sua própria escrivaninha em um escritório doméstico ou condições de ir de carro para o escritório tiveram um risco de infecção muito menor que as pessoas que trabalham em linhas de produção, em cargos que exigem contato com clientes ou que tiveram que pegar trens ou ônibus cheios em horários de pico.
Aprendizado ainda mais desnivelado
Mas não foi só na saúde física que as consequências da pandemia foram mais graves para pessoas pobres do que ricas. Assim, para as crianças fez uma enorme diferença se, durante os dois lockdowns, elas estavam morando em uma mansão com um grande jardim e um quarto próprio ou junto com sua família em um quarto-e-sala na periferia da cidade. Em muitos casos, as crianças pobres não têm um quarto próprio e, com isso, um local de trabalho tranquilo, onde possam se concentrar nos estudos. O desafio do estudo doméstico foi maior para elas do que para colegas de classe com melhores condições materiais. Assim, o distanciamento criou um desnível ainda maior no aprendizado, especialmente para as crianças que a esfera pública geralmente já via como desfavorecidas no quesito educacional. Em famílias de imigrantes, a barreira do idioma aumentou ainda mais o problema: se os pais só falam um pouco de alemão, também não podem assumir a função de substituir professoras e professores e apoiar suas crianças no ensino doméstico. Desta forma, em casos extremos, estudantes de famílias socialmente desfavorecidas ficaram literalmente para trás, consolidando a desigualdade educacional já existente antes da pandemia.
A solidão prejudica o desenvolvimento da personalidade
Para jovens, o estado de exceção que se estende por mais de um ano e meio representa um período muito mais longo do que para pessoas adultas. Justamente na adolescência, o confinamento involuntário, a solidão e o isolamento social, que para várias pessoas jovens estão conectados aos repetidos lockdowns, surtiram um efeito muito deprimente, uma vez que esta fase da vida tem uma influência decisiva no desenvolvimento da personalidade e no nível de autoconfiança que se virá a ter na fase adulta.Menores de idade que não puderam mais encontrar colegas e camaradas da escola, nem mesmo frequentar quadras esportivas e parquinhos, que estavam interditados por motivos de higiene no primeiro lockdown, se queixaram à época sobre o isolamento, sobretudo filhas ou filhos únicos ou sem irmã ou irmão em sua faixa etária. Durante o segundo e mais duradouro lockdown, também sofreram muito com a falta do que fazer e a monotonia.
Isso aconteceu principalmente com as crianças procedentes de famílias socialmente desfavorecidas, que de qualquer forma já recebiam menos atenção: para elas, a proibição do contato com pedagogas, pedagogos, professoras e professores foi um evento traumático, que chegou, em casos isolados, a provocar reações semelhantes ao pânico. Crianças que se sentiram desamparadas à mercê da pandemia, impotentes e incapazes de agir, ficaram totalmente desequilibradas emocionalmente.
Um dos aprendizados trazidos pela pandemia do Covid-19 é que a sociedade deve se unir para que todos os seus membros possam manter o distanciamento necessário para se proteger da infecção sem sofrer desvantagens pessoais. Se o Estado não assumir a responsabilidade de equilibrar, por meio de uma compensação social, a diferença de recursos entre as famílias com ou sem meios materiais, uma crescente parte da nova geração continuará desfavorecida em termos de educação. Ao mesmo tempo, a infraestrutura social, de educação e de assistência deve ser aprimorada, e seu foco de atenção deve ser direcionado para os bairros desfavorecidos. O sistema estruturado de educação secundária dos países de língua alemã parece estar ultrapassado e contribuir para que a segregação socioespacial seja perpetuada também na educação.