Concertos a distância
Espaços digitais de música

Alban Gerhardt Stream | © Martin Tröndle
Alban Gerhardt Stream | © Martin Tröndle | Alban Gerhardt Stream | © Martin Tröndle

O setor dos eventos, especialmente daqueles ao vivo, foi o primeiro a cessar suas atividades na Alemanha com o início da pandemia, em março de 2020. Mas profissionais e e público não deixaram de fazer e ouvir música neste período. Espaços digitais serviram de abrigo para a música em tempos de confinamento. Quais perspectivas de futuros esses espaços oferecem?

Por Thomas Winkler

Se não fosse a pandemia do coronavírus, talvez o mundo nunca ficaria sabendo que as estrelas pop também dependem de um aspirador de pó. Pelo menos sabemos isso a respeito da cantora Mine desde que a musicista berlinense reuniu o grupo de artistas Quarantöne All Stars. Em um vídeo no YouTube, ela reinterpreta sua música Hinterher junto com quatro colegas. O especial é que todo mundo canta e toca em sua própria casa, mas, com o auxílio da tecnologia, formam um conjunto. Na sala de Mine, vê-se claramente ao fundo um desses aparelhos domésticos comuns no comércio mas pouco glamourosos. “Ei, Mine, temos o mesmo aspirador de pó!”, escreve animada nos comentários uma tal de “storlach”. “Então em breve vou conseguir cantar como você!”

Mine e o grupo Quarantöne All Stars, que gravaram e disponibilizaram no YouTube um total de quatro músicas nas quais até 36 pessoas cantam, tocam e fazem rap, constituem apenas um dos exemplos mais destacados de como artistas tentaram durante o lockdown diminuir a distância de seu público imposta pelas regras de higiene. Shows foram transmitidos via streaming, websites e mídias sociais, DJs tocaram sets em clubes vazios para que as pessoas pudessem dançar em frente a seus próprios sofás; nas colunas de comentários, fãs e musicistas trocaram ideias sobre como estavam sendo afetados pelo lockdown.

Nesse contexto, estabeleceu-se muitas vezes uma nova proximidade entre as pessoas que consomem e as que produzem música, observou também o empresário musical Stefan Habel. “Mesmo artistas que não tinham tanta afinidade com mídias sociais perceberam como é importante obter uma confirmação a respeito de sua arte – e nas mídias sociais é possível ter pelo menos uma sensação subjetiva de se estar recebendo aplausos.”

Embora o grupo Quarantöne All Stars, que a agência de Habel auxiliou de forma decisiva em sua organização, tenha sido um sucesso, o empresário não acredita que formatos complicados assim irão sobreviver ao fim da pandemia. Ainda haverá transmissões de shows via streaming, como antes do coronavírus, “para artistas consolidados que não querem mais se apresentar em toda cidadezinha, eles substituem o DVD ao vivo que faziam até então. Mas todo mundo vai ficar feliz de voltar ao ritmo normal o mais rápido possível, pois o sentimento que uma experiência ao vivo pode oferecer não é reproduzível – nem para fãs, nem para artistas”.

Christian Weining é da mesma opinião. Apesar disso, o cientista cultural da Universidade Zeppelin, em Friedrichshafen, trabalha em um projeto modelo no qual se tenta reproduzir digitalmente a experiência de um show ao vivo com o máximo possível de semelhança. Weining é coordenador do Experimental Concert Research, no qual pesquisadores de escolas superiores em Nova York, Berna, Klagenfurt e Karlsruhe tentam descobrir o que faz a diferença na vivência de um concerto. A questão decisiva que o projeto posicionado entre as disciplinas musicologia e ciências culturais quer responder é: “O que distingue um concerto de outras formas de ouvir música?”.

Sneak Peak Yubal Ensemble
Sneak Peak Yubal Ensemble | Foto (detalhe): © Phil Dera


Quando o mundo submergiu no lockdown, Weining e colegas fizeram da necessidade uma virtude e conduziram seu experimento no espaço digital. Um quinteto de cordas em torno do violoncelista Alban Gerhardt tocou para a Digital Concert Experience. Para assistir à transmissão da gravação, amantes de música clássica reuniram-se em uma sala de concertos virtual. O público podia aplaudir ou vaiar por meio de avatares concebidos pelas próprias pessoas e conversar via chat durante o concerto com a pessoa sentada a seu lado. “Houve concertos em que o chat esquentou mesmo”, relata Weining. O chat e a cafeteria virtual, em que era possível se encontrar com pessoas com os mesmos gostos, foram aceitos com gratidão por mais da metade das 600 pessoas participantes no teste, fato constatado na avaliação posterior: “Muita gente ficou contente por finalmente ficar conhecendo outras pessoas, o que não acontece quase nunca em um concerto de música clássica.”

Os resultados da pesquisa serão publicados no fim de 2021, mas Weining adianta que “tais formas são interessantes sobretudo para quem já se interessava bastante por música e teve a sensação de estar participando de um evento exclusivo”. Se o pesquisador tivesse que fazer um resumo, diria: “É uma alternativa, mas não pode nunca ser um substituto.”

Essa é uma experiência que as pessoas responsáveis pela organização da United We Stream também tiveram. A plataforma digital foi criada pela Clubcommission de Berlim logo no início do primeiro lockdown, em março de 2020, a fim de transmitir via streaming as apresentações de DJs diante de pistas vazias de clubes mudialmente famosos, porém desertos. Tratava-se especialmente de manter o contato com o público e sinalizar a uma esfera pública maior: nós ainda estamos aqui!

Isso deu tão certo que clubes de outra cidades do mundo inteiro aderiram rapidamente. Hoje a iniciativa é muito mais que um site onde se pode assistir a streamings, afirma Anna Harnes, mas “uma rede descentralizada, um movimento, uma plataforma de livre acesso” na qual mais de 500 locais de eventos em mais de 120 cidades na Europa, Ásia, Austrália, América do Sul e do Norte estão conectados entre si e onde até hoje já foram coletados mais de 1,5 milhão de euros em doações para clubes, artistas e para a ONG de resgate marítimo Sea-Watch: “A aceitação foi tão grande que até hoje a construção de estruturas ainda não consegue acompanhá-la.”

Mas Harnes, diretora da associação patrocinadora, também afirma: “Não há substitutos para a interação humana no espaço dos clubes, que também sempre são espaços seguros para mulheres, pessoas queer e outras minorias”. Esse também é o motivo pelo qual quase nenhuma outra área foi tão afetada pela pandemia quanto a cultura dos clubes. Uma cultura da celebração na qual o encanto é constituído essencialmente pelo excesso, a autoencenação, a licenciosidade e o anonimato da noite, é difícil de se imaginar com regras de distanciamento, máscaras obrigatórias ou monitoramento de contatos. Transpor tal vivência para a internet continua sendo um sonho impossível.

Com iniciativas como a United We Stream, e o fato de DJs – em vez de viajarem pelo mundo – manterem o contato com seu público via online, “criou-se uma ligação mais forte e uma consciência maior sobre o que a cultura dos clubes significa – e o quanto ela é importante”.

Harnes acredita que, em uma vida noturna pós-coronavírus, além da ligação mais forte, um fator importante será a “pista de dança híbrida”. Já estão sendo feitos experimentos de conexão de clubes em Manchester e Berlim. Em um caso ideal, dança-se aqui e lá ao ritmo da mesma batida e as pessoas que estão dançando podem se ver através de telas gigantes. Os clássicos streamings de sets de DJs também continuarão existindo, mas serão realizados por provedores emplacados, como o Boiler Room ou o Hör Berlin, que já haviam encontrado seu público fiel mesmo antes da pandemia.

Já a plataforma United We Stream vai mudar sua orientação em março de 2022, por ocasião de seu segundo aniversário. Em vez de ser um espaço de streamings, o principal objetivo no futuro será continuar a promover a conexão entre clubes em todo o mundo e o intercâmbio dentro da cena. “Distanciar-se da arrecadação de doações para se tornar uma plataforma de comunicação e cultura, na qual serão discutidos temas típicos dos clubes como a criação de espaços para a diversidade, e também problemas da cena como os vínculos precários de trabalho”, afirma Harnes. “Nossa ambição nunca foi substituir a experiência ao vivo, mas criar algo adicional. Virar a noite dançando em um clube é uma experiência simplesmente única.”

 

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