06.07.2020 | Maria Stepanova
“Abrimos mão muito levianamente dos nossos direitos?”

Agora que os cidadãos estão presos em suas casas e apartamentos, quais liberdades vão se perder em longo prazo?
Agora que os cidadãos estão presos em suas casas e apartamentos, quais liberdades vão se perder em longo prazo? | © graphicrecording.cool

Espírito comunitário, linguagem militar e a busca por culpados ao redor. Como a Covid-19 muda a sociedade russa? A restrição dos direitos fundamentais democráticos é de fato temporária? Maria Stepanova escreve da Rússia, onde pouco antes da publicação deste artigo Vladimir Putin obteve uma vitória política que permite a ele se manter na presidência até o ano de 2036. 

Por Maria Stepanova







 
Caros amigos,
 
Estou escrevendo isto no 79° dia do meu autoisolamento. Passo os dias dentro do meu apartamento em Moscou: só posso sair com um passe eletrônico que me autoriza a estar fora, o que significa que, com exceção de pequenos passeios com meu cachorro, restritos a um raio de 100 metros de nossa casa, praticamente não saio mais.
 

“A pandemia tem tornado ainda mais óbvia a divisão que já era clara na sociedade.

City life as we know it is over
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A vida urbana, como a conhecíamos até poucos meses atrás, está morta – cafés e livrarias estão fechados, avenidas e parques interditados, nenhuma alma nas ruas, e você só cruza com entregadores em seus uniformes verdes e amarelos. A pandemia tem tornado ainda mais óbvia a divisão que já era clara na sociedade: ela se divide entre aqueles que podem se dar ao luxo de não colocar os pés na rua; e os outros, que abastecem os que ficam em casa. Estes últimos não apenas precisam continuar trabalhando, mas estão também mais expostos, em todos os níveis, ao risco de infecção. Em Moscou isso afeta, em primeiro lugar, os trabalhadores migrantes, ou seja, a parte da população urbana com menor segurança social. Já antes da pandemia eles não tinham direitos de fato: eram empregados em trabalhos ilegais com pagamentos miseráveis, entulhados em acomodações temporárias, onde às vezes 15 ou 20 pessoas dormem no chão. Agora, com o trabalho suspenso na maioria das empresas por ordem do Estado, eles encaram um dilema: estão sem dinheiro suficiente para voltar para casa e sem trabalho que lhes permita sobreviver aqui. Entregas para restaurantes, supermercados, farmácias e serviços de remessas estão entre as únicas oportunidades que restam. As vozes dessas pessoas praticamente não são ouvidas, nunca, nem na mídia oficial, nem nas redes sociais. Os debates das últimas semanas sobre a necessidade de reequilibrar a relação entre liberdade e segurança, e as inevitáveis perdas daí resultantes, são conduzidos por pessoas que efetivamente têm escolha, e que estão na confortável posição de não precisar sair de casa.

“O debate sobre a necessidade de reequilibrar a relação entre liberdade e segurança é conduzido por pessoas que efetivamente têm escolha, e que estão na confortável posição de não precisar sair de casa.

De nós oito que estamos conversando aqui, cada um sabe nestes dias exatamente o que os outros sete estão fazendo: estamos todos sentados em nossos apartamentos, entre estas paredes que de repente parecem ser tão transparentes. Coisas que costumavam parecer uma questão de imaginação ou suposição (Será que meu interlocutor está viajando, está em outra cidade? Será que ele está no trabalho ou em casa?) são agora explícitas diante dos olhos de todos: de uma forma ou de outra, estamos todos lidando com a mesma situação. Pessoas em cidades diferentes, fusos horários diferentes, formas de isolamento diferentes estão esperando que isto acabe, e todas as coisas normais que elas fazem neste momento servem apenas para reduzir a espera.
 

“As pessoas estão usando metáforas militares para falar da Covid-19: fala-se de guerra, batalha, vitória, heroísmo, libertação e vítimas.

Isto tem algo de tragicômico, pois as pessoas estão usando frequentemente metáforas militares para falar da Covid-19: fala-se de guerra, batalha, vitória, heroísmo, libertação e vítimas. Ao mesmo tempo, não se exige dos cidadãos nesta fase que se tornem ativos, pelo contrário: espera-se que não façam nada, que justamente não entrem nesta guerra – uma guerra que, presume-se tacitamente, está sendo conduzida por outros em nosso nome. Na era da pandemia, a mais importante virtude é a passividade social – a disposição a entregar a ação e a responsabilidade a outros, que estão “cuidando disso”, a disposição a abrir mão do direito de tomar as próprias decisões e fazer os próprios julgamentos neste momento. Mesmo em países que dispõem de políticas sociais e de um sistema de saúde pública altamente desenvolvidos, esta estratégia não está isenta de riscos, mas no que chamam de sociedades problemáticas – e isso inclui a maioria das sociedades hoje em dia – isto pode levar a resultados assustadores. A experiência de vida em um país governado autocraticamente leva as pessoas a encarar com precaução restrições temporárias que são introduzidas sem qualquer tipo de discussão ou justificativa. 

 
What will we give up, for „the good of all“?
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O fato de que as restrições associadas à pandemia são necessárias para o bem-estar público e, portanto, para um interesse maior, parece indiscutível. Interessante é a forma como cada pessoa experimenta essas limitações, a maneira como muda nossa relação conosco mesmo. A realidade de não ser mais possível fazer planos em longo prazo, de sermos obrigados a focar no presente (e em um futuro muito imediato, que parece quase idêntico ao presente), poderia, em teoria, fazer este tempo presente mais intenso, mas aparentemente não é isso que está acontecendo. Minha experiência é similar àquela descrita por Jonas: fechada em minhas quatro paredes, subitamente tenho dificuldade em fazer coisas que tenho feito por toda a vida: pensar, escrever, ler. É possível vivenciar esta falta de capacidade de agir por parte de uma pessoa aprisionada no presente como uma comédia existencial, mas também como um problema individual, afinal, sempre houve gente conseguindo trabalhar sob condições muito mais adversas – na prisão, no hospital, em uma ala psiquiátrica. Só eu, em meu aconchegante apartamento de Moscou, é que não consigo lidar com isso. Por outro lado, o colapso do desejo pessoal (e não menos ou até mesmo acima de tudo do desejo político) é exatamente a reação que o Estado e a sociedade (não importa qual) esperam dos indivíduos na eventualidade de uma emergência súbita.  

 

“Continuo cética em relação a uma mentalidade de segurança que atribui um valor absoluto à vida humana – ou, mais precisamente, à mera sobrevivência literal. Em nome dessa sobrevivência, devemos abdicar de liberdades e direitos óbvios.

Neste ponto, devo provavelmente mencionar que, desde o início do confinamento, tenho seguido de forma consciente até mesmo as regras mais absurdas (e há realmente uma imensidade de absurdos nos estatutos da prefeitura de Moscou). Ainda assim, continuo cética em relação a uma mentalidade de segurança que parece ter se tornado muito abrangente, e que nos últimos tempos parece unir gente com visões políticas extremamente diversas. A mim parece haver uma armadilha nesse pensamento: ele atribui um valor absoluto à vida humana – ou mais precisamente à vida física, à mera sobrevivência literal; e, em seu nome, querem que abdiquemos de liberdades e direitos que por muito tempo consideramos consolidados e não mais questionados. No entanto, a liberdade de movimento e a liberdade de reunião não são commodities abstratas – renunciando a elas, você está abrindo mão dos direitos de planejar sua própria vida e de participar da vida pública. O indivíduo, na pandemia, não tem vontade política. Ele é refém de um estado de exceção sem prazo limite, apoiado não só pela opinião pública como pela própria racionalidade saudável de cada pessoa – essa mesma racionalidade que me faz ficar em casa. 

Ninguém pode tirar de mim o direito de ser leviana com minha própria saúde, meu próprio corpo, minha própria vida. Mas na situação de pandemia, minhas decisões pessoais estão diretamente associadas à sobrevivência e à saúde de outros, estão ligadas ao destino de dezenas, ou talvez centenas de pessoas que nem mesmo conheço. Minha mera existência pode se tornar uma ameaça para elas, pois uma infectada assintomática com o vírus é perigosa pelo simples fato de respirar. Nestas circunstâncias, o isolamento parece ser a única solução prática – para assegurar que outras pessoas possam sobreviver, uma cidadã responsável tem que se colocar em uma forma de estado embrionário, escondida de outras pessoas como ela, tem que parar de interagir e precisa traçar fronteiras não apenas entre países, mas também entre pessoas.

Who cannot afford to stay passive?
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Ainda assim, enquanto fico em casa, armazéns, lojas, entregadores e todo tipo de outros serviços continuam a funcionar, tornando meu isolamento suportável e até mesmo confortável – e isso significa o envolvimento de milhares de pessoas. Essas pessoas são invisíveis, marginalizadas. Na visão popular em preto e branco, que enxerga apenas os médicos e profissionais de saúde na linha de frente da luta contra a pandemia do coronavírus, enquanto todos os outros estão heroicamente salvando vidas ao permanecer em casa, essas pessoas não existem. A sobrevivência delas não conta, e ninguém se importa que elas não possam escolher entre o autoisolamento e o trabalho em benefício da sociedade porque simplesmente não podem se dar ao luxo de não trabalhar.

Além dessas, membros do assim chamado grupo de risco também não tiveram escolha – em outras palavras, pessoas com mais de 60 anos. Na Rússia (e não apenas aqui), essas pessoas estão categoricamente proibidas de deixar suas casas – a sobrevivência física acima de tudo. Essa discriminação etária, disfarçada de preocupação, que tirou de um grupo demográfico inteiro a capacidade de agir e tomar decisões, é fatalmente similar ao raciocínio de robôs de alguns romances antigos de ficção científica: para garantir que as pessoas não causem nenhum dano a si próprias, elas precisam ser mantidas sob um controle tão rigoroso quanto possível.
 
A consequência lógica é que sinto ser cada vez mais uma ameaça à sociedade, uma fonte de perigos, que estaria melhor se estivesse trancafiada. Esse sentimento difuso de culpa, a restrição de direitos fundamentais e a falta de compreensão sobre o cenário geral causam uma distorção da nossa autoimagem – todo mundo é um perigo em potencial e uma vítima em potencial ao mesmo tempo, e todos têm medo por si mesmos e por suas famílias, ao mesmo tempo em que temem causar danos a uma pessoa desconhecida. Para a maioria das pessoas, essa é razão suficiente para entrar em estado de inércia, pelo menos temporariamente.

“O infortúnio compartilhado seguia aparentemente uma lógica de comunidade. Sem inimigo comum, mas com um problema comum, que só pode ser resolvido pela combinação de forças.

Bem no começo da pandemia, eu pensava que, entre todos os cenários distópicos imagináveis, talvez este fosse o mais aceitável. O infortúnio compartilhado seguia aparentemente uma lógica de comunidade, com potencial para fomentar mais preocupações comuns do que alienação e polarização. Mesmo quando todas as fronteiras estavam sendo fechadas e os voos cancelados, isso acontecia em um mundo transparente, no qual era possível ver o que se passava ao redor, e onde todos estavam envolvidos em um sistema circular de solidariedade que não fazia distinções em função de continente, país ou religião. A guerra da qual todos estavam falando não nos fazia procurar um inimigo comum – ao contrário, havia um problema que só poderia ser resolvido pela combinação de forças. Enquanto o problema não fosse personificado, pensava eu, ele poderia ser efetivamente enfrentado – sem despender energia na produção e reprodução de ódio. Mas, acima de tudo, me parecia que, talvez pela primeira vez na história, o mundo enfrentaria um infortúnio compartilhado – como um organismo vivo ciente de sua unidade.
 

“Pelo que parece, o ódio é uma substância que, apesar de tudo, é capaz de se autogerar como produto da incerteza e do medo. Mas como não se materializou nenhuma visão clara de inimigo projetada no horizonte, as pessoas estão procurando pelo inimigo que mora ao lado.

Dois meses e meio mais tarde, após incontáveis horas passadas em várias redes sociais, estou vendo essa nova unidade sob uma outra luz, mais perturbadora. Pelo que parece, o ódio é uma substância que, apesar de tudo, é capaz de se autogerar como produto da incerteza e do medo. Mas como não se materializou nenhuma visão clara de inimigo projetada no horizonte, as pessoas estão procurando pelo inimigo que mora ao lado. As redes sociais estão se tornando um lugar de polarização situacional inabalável, onde unidades e delineações fugazes estão se formando, virtualmente sem relação com os perfis de agendas políticas e partidos na forma como os conhecíamos antes do coronavírus. Essa nova política afetiva fugaz não está se consolidando em um sistema estável – ela se manifesta através de curtidas, compartilhamentos e atos de solidariedade espontânea deflagrados por razões díspares. Nesta situação atual, na qual as pessoas, excetuando-se familiares mais próximos, praticamente só socializam online, a mínima diferença de opinião ou a mais ligeira variação na expressão parece tão alarmante que imediatamente dispara uma agressão verbal que, por sua vez, pode facilmente transbordar para a realidade.
 

“Enquanto eu estava escrevendo esta carta, o Kremlin anunciou o fim da pandemia. Os motivos por trás disso são claros. No dia 1° de julho, o país votaria a planejada mudança na Constituição, através da qual Vladimir Putin pode permanecer de fato como presidente vitalício.

Congratulations, Mr. President!
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Enquanto eu estava escrevendo esta carta, o Kremlin anunciava do nada o fim da pandemia. A partir de 9 de junho, os moradores de Moscou tiveram autorização para voltar às ruas, com cafés, salões de beleza e museus abertos. Nas redes sociais, as pessoas celebrando e discutindo os planos para as férias. Os parques veranis estão cheios de gente, com ou sem máscaras. Enquanto isso, o número de casos de Covid-19 cresce de tal forma que, mesmo de acordo com as estatísticas oficiais, a curva está só começando a se estabilizar. Não está claro aonde essa súbita libertação da população do cárcere vai levar, embora os motivos por trás disso sejam claros. No dia 1° de julho, o país votaria a planejada mudança na Constituição, através da qual Vladimir Putin pode permanecer de fato como presidente vitalício. Para possibilitar essa votação, com seções eleitorais lotadas,  a Covid-19 precisa estar oficialmente superada. A seguir, será certamente preciso enfrentar uma segunda onda de infecção, e as primeiras vítimas dela serão provavelmente aqueles que estão se lançando agora na vida social. Talvez tenhamos sido um pouco levianos demais ao abrirmos mão do direito de tomar nós mesmos decisões importantes.

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