Política educacional e aprendizagem de línguas
"Melhores conhecimentos de matemática com bilinguismo!"
Aprender línguas treina o cérebro. Quando crianças já aprendem desde cedo duas línguas, suas competências linguísticas se desenvolvem. Mas elas se tornam também mais competentes cognitivamente em outras áreas, como na matemática, por exemplo. A profa. dra. Michaela Sambanis e o prof. dr. Heiner Böttger explicam por que uma mudança de paradigma é necessária e como ela pode dar certo. Para tanto, eles se baseiam nas descobertas das pesquisas sobre o cérebro e nos resultados de seus próprios estudos.
Sr. Böttger, na Alemanha se fala alemão e, portanto, todas as crianças devem aprender na escola primeiro a língua alemã. Isso não é o mais seguro a se fazer?
Heiner Böttger: Frequentemente nós nos comportamos na Alemanha como se todas as crianças aprendessem alemão como primeira língua. A primeira língua, no entanto, costuma ser a língua materna e esta não é sempre alemão. A linguista Rita Franceschini detectou, por meio de técnicas de imagem, que crianças que crescem bilíngues já sabem com dois meses, ou seja, em fase pré-lingual, que existe algo como a língua do papai e a língua da mamãe. Elas naturalmente não podem nomeá-las, mas no cérebro apresentam-se diferentes potenciais de ação quando os pais falam suas respectivas línguas. Segundo Franceschini, pode-se falar também em um crescimento bilíngue quando a família, além da língua culta, também fala um dialeto marcante como o suíço-alemão.
O que significa esse multilinguismo?
Heiner Böttger: Não reconhecer o multilinguismo dessas crianças significa, no fundo, separá-las de sua cultura e, além disso, fazer com que empobreçam linguisticamente. Pois já houve um desenvolvimento cognitivo com a aquisição da língua materna. As crianças precisam de uma língua com a qual outras possam ser contrastadas. Esta é a língua materna. É importante que se leia para as crianças nessa língua, que a aula e outras atividades ocorram nessa língua. Se fizermos isso, podemos dizer, segundo as descobertas de pesquisas atuais, que essas crianças seriam — comparadas a outras que crescem monolíngues — potencialmente melhores aprendizes de línguas e, segundo nossas descobertas, em média também melhores matemáticos.
Um ambiente bilíngue leva a uma melhora do desempenho cognitivo
Um momento: o senhor está dizendo que crianças bilíngues são potencialmente melhores em matemática que monolíngues?
O que os resultados mostraram?
Heiner Böttger: Não há uma redução do desempenho em alemão, apesar de até 9 horas a menos de inputs pedagógicos em alemão. Pelo contrário, a aprendizagem em duas línguas leva a um aumento da capacidade e da sensibilidade linguística. Além disso, essas crianças têm melhores habilidades matemáticas. Elas são melhores no teste comparativo padrão de matemática, DEMAT, do que a média nacional, e não apenas um pouco, mas significativamente melhores.
Como o senhor explica isso do ponto de vista neurológico?
Heiner Böttger: Isso tem a ver com a plasticidade do cérebro, ou seja, com a constituição e o fortalecimento das estruturas neuronais devido à maior demanda ao processar duas línguas e com o consequente desenvolvimento cognitivo mais rápido. Para tanto, é absolutamente indiferente quais duas línguas temos: alemão e polonês, alemão culto e alemão-suíço — o ambiente bilíngue leva a uma melhora do desenvolvimento cognitivo e, consequentemente, também faz com que as crianças sejam muito melhores em matemática.
Não há um risco de sobrecarregarmos as crianças? Principalmente no caso de línguas mais complexas?
Nós precisamos de uma mudança de paradigma
Heiner Böttger: Esse sistema ultrapassado da escola primária, secundária e superior — mesmo que ela tenha uma outra denominação — é persistente. Esse é um sistema de educação hierárquica que, além de tudo, ainda separa fortemente, divide em categorias fixas, que faz com que as chances à educação sejam desde cedo desiguais. Separar as crianças em classes por idade também é, de acordo com as pesquisas atuais, e já há muito tempo, algo ultrapassado.
Nós precisamos de uma mudança de paradigma. E isso começa, no fundo, no jardim de infância. Mas como os educadores do jardim são formados? Depois de uma formação especial, universitária ou em uma escola profissionalizante, eles deveriam saber mais, ser mais capazes, saber integrar melhor línguas. Deveria haver, para isso, uma formação especial em didática de línguas no programa, que tornasse possível um acompanhamento bilíngue.
A formação de professores também deveria mudar para que eles pudessem lidar com esse multilinguismo?
Heiner Böttger: Sim, mas isso não acontece. Todos os professores deveriam adquirir competências em alemão como segunda língua ou como língua estrangeira. Mesmo que apenas para que pudessem explicar e ensinar sua própria língua como alemães. Nós precisamos capacitar os professores a desenvolver muito mais cedo outros formatos de atividades mais individuais e formatos de testes correspondentes. Pois o que nós fazemos atualmente é simplesmente ensinar tudo de forma muito explícita aos aprendizes e depois — eu vou exagerar agora, pois às vezes temos que fazer isso na didática — avaliá-los com textos com lacunas a serem preenchidas. Nas atividades escolares quase sempre é testado e avaliado apenas o conhecimento reprodutivo. Criatividade? Transferência? Para tanto seriam necessárias atividades de formatos muito diferentes que fossem implícitos e nas quais o desempenho fosse possível. No entanto, nós nos agarramos com muita frequência aos formatos de testes antigos, de eficiência aparentemente já comprovada.
O sistema, a formação, o formato das atividades e dos testes — o que ainda é necessário para uma mudança de paradigma?
Heiner Böttger: A chave para tanto são os pais. Os pais não são incluídos, ninguém lhes explica que seria bom para seus filhos aprender duas línguas. Por isso, ainda não há uma perspectiva para uma verdadeira mudança de paradigma no momento. Nós saberíamos como realizá-la, mas ainda não nos é possível levar esse conhecimento para o nível social. Uma exceção e um grande sucesso: na Bavária, a Escola do Ensino Fundamental I Bilíngua foi agora institucionalizada como parâmetro. Um salto quântico, na minha opinião.
Michaela Sambanis: Atualmente toda a nação presta atenção a virólogos. Espero que logo todos reconheçam: gente, existem pessoas que fazem pesquisas na área de didática! Vamos ouvi-los também e levá-los a sério!
entrevistado:
Heiner Böttger é professor de didática do inglês na Universidade Católica de Eichstätt-Ingolstadt. O foco de suas pesquisas se concentra atualmente em multilinguismo e nas chamadas Language educational neurosciences.