Qual alemão? Finalidades comunicativas e contextos Transmitir competência linguística

Nas comunidades linguísticas existem expectativas mais ou menos fixas em relação às formas típicas de falar e escrever. Quais papéis desempenham nisso as diversas finalidades e contextos de comunicação verbal? O que isto significa para a escolha do estilo adequado?

Resumo

As expectativas relativas à forma de falar e escrever “corretamente” variam de acordo com a situação de uso da língua e da finalidade comunicativa. O conhecimento desse tipo de expectativa é um componente importante na aquisição da língua e uma expressão central do que é conhecido como competência comunicativa, necessária para poder usar uma língua estrangeira de forma autêntica. Este artigo explica a relação entre o idioma e a situação empregando vários exemplos da língua alemã.

Quem fala bem alemão, pode recorrer a diversas possibilidades da expressão oral. Em Linguística, essa diversidade é descrita como uma diferenciação “vertical” e “horizontal”. A primeira refere-se a toda a extensão das variedades linguísticas, desde a língua padrão até os dialetos regionais e sociais, que se movem em diferentes níveis (“vertical”) de acordo com o alcance e o status social. A diferenciação “horizontal”, por sua vez, designa o leque estilístico da língua alemã atual de acordo com a finalidade e o contexto da comunicação. Os dois eixos são importantes para alunos de alemão como língua estrangeira (DaF, na sigla em alemão); a partir de certo nível de competência, o domínio no nível “horizontal” passa a ser obrigatoriamente esperado e também é comprovado nos exames.

IDIOMA E SITUAÇÃO

Para que a diversidade de estilos “horizontal” do alemão seja transmitida na aula de alemão como língua estrangeira, é necessário que os tipos de situação respectivos e os meios verbais-comunicativos esperados sejam levados em consideração na mesma medida. Isto inclui apontar a dependência de determinadas formas de falar e escrever de contextos específicos e finalidades comunicativas e chamar a atenção para o fato de que várias formas de expressão idiomática estão ligadas a situações típicas de uso no consciente da pessoa que fala. O conhecimento desse tipo de expectativa pertence impreterivelmente à aquisição da língua estrangeira. Ele é um componente central do que é conhecido como competência comunicativa, que deve acompanhar e complementar constantemente a competência gramatical, para que uma língua possa ser empregada de forma autêntica em diversas situações.

 Para avaliar as situações comunicativas, é importante levar em consideração os seguintes fatores: A quem se está dirigindo ou escrevendo (destinatário)? São amigos, membros da família, sócios ou desconhecidos que se comunicam entre si (relação entre papéis)? Qual é o nível privado ou público da situação? O que é comunicado (assunto)? É uma comunicação oral, escrita, por telefone ou digital (meio)? Com base nesses critérios, é possível diferenciar situações de proximidade comunicativa (por exemplo, uma conversa privada entre pessoas de confiança) daquelas de distância comunicativa (uma audiência, uma correspondência oficial, um texto técnico ou similares).

PROXIMIDADE E DISTÂNCIA

Pesquisas científicas em Linguística provaram que a proximidade comunicativa em todos os níveis da formação de estruturas da língua resulta em outros meios de expressão oral que a distância comunicativa. Na pronúncia, formas sintetizadas (“hat's” em vez de “hat es”) e a eliminações de vogais não pronunciadas (“ich brauch” em vez de “brauche”) são indícios típicos de proximidade. Na morfologia, advérbios de direção, entre outros, têm formas reduzidas nas conversas informais (“rein” em vez de “herein” ou “hinein”, “rüber” em vez de “herüber” ou “hinüber”).
 
Na sintaxe, a proximidade comunicativa se caracteriza, entre outros, pela preferência por frases subordinadas, muitas expressões com valor de frase (“Einfach toll!”) e construções sintáticas, como o deslocamento para a esquerda ou direita, em que o sujeito é preposto ou posposto e substituído  por um pronome. Frases como “Mein Kumpel, der ist Rennfahrer” (Meu colega, ele é piloto de corrida) “Das sieht ja hübsch aus, dieses Täschchen!” (Ela parece bonita, essa bolsinha) são típicas de conversas espontâneas. A estrutura da conversa também pode ser bastante diferenciada de acordo com a situação. Para isso servem, no contexto da proximidade, várias partículas de conjunção (“also”, “naja”, “so”) enquanto, nas situações de distância, normalmente são usados advérbios, como “einerseits” e “andererseits”, ou expressões, como “im Folgenden”. Em alemão, esse tipo de diferenciação de estilo pode ser observado em todas as pessoas que falam o idioma. O estilo de proximidade não é, de forma alguma, “pior” que o de distância, mas sim a escolha esperada em muitas situações e, portanto, a preferência comunicativa adequada.
 
A comunicação técnica entre especialistas é outra área de diferenciação de estilo. Características disso são recursos linguísticos, como palavras estrangeiras (“Enzephalitis”), palavras compostas (“Intonationskonturen”) ou abreviaturas (“TCP/IP”), mas também recursos de formação de palavras, como terminações nominais (“-ierung”), uma sintaxe mais oral-escrita com hipotaxes ou frases nominais complexas, assim como tipos de texto, como dissertações técnicas e relatórios de perícias. Neste caso, os termos técnicos específicos não são empregados apenas no âmbito distanciado de palestras ou textos científicos. Termos simplistas entre colegas no bar também podem apresentar as características mencionadas e, ao mesmo tempo, ser descontraídos por meio da proximidade comunicativa. Os meios orais de distância e proximidade não são opostos aqui, mas se conectam e se complementam no caso específico.

DIVERSIDADE IDIOMÁTICA E MEIO

Mesmo em um campo de linguagem fortemente normatizado como o da pontuação, pode haver diferenciação de estilo. É principalmente na Internet que a pontuação mostra grandes diferenças em relação à língua escrita padronizada. Na maioria dos casos, isto não significa desconhecimento das regras, mas sim, é feito a partir da necessidade de expressar proximidade comunicativa no diálogo digitado com a ajuda da pontuação. Os sinais de interrogação e exclamação são aplicados repetidamente para poder sinalizar participação (“o que?????!!”). Nas redes sociais, as mensagens são escritas muitas vezes sem ponto final ou diretamente encerradas com três pontinhos - as reticências - que devem indicar que o que está escrito foi formulado de modo casual e não deve ser entendido como totalmente vinculante. Esses fenômenos são interessantes para alunos de alemão como língua estrangeira, porque mostram que os novos contextos comunicativos levam a inovações linguísticas e, com isso, a uma utilização muito mais diversificada da língua alemã.
 
A diversidade do alemão é comprovada diariamente nas mídias “tradicionais”. Enquanto na radiodifusão de antigamente dominava a linguagem culta de oradores profissionais, hoje é possível ouvir na rádio e na televisão uma ampla diversidade de variedades e estilos da língua alemã. Geralmente, os programas matinais são realizados por vários moderadores que conversam em tom descontraído; nos programas de “reality” aparecem diversos dialetos e socioletos, os dialetos sociais. Dessa forma, jornalistas e moderadores simulam uma proximidade com seus ouvintes, oferecendo-lhes assim possibilidades mais intensas de identificação. No caso dos alunos de alemão como língua estrangeira, esses programas são interessantes porque oferecem várias perspectivas da variedade da língua alemã.

 

Literatura

Androutsopoulos, Jannis: Online-Gemeinschaften und Sprachvariation. Soziolinguistische Perspektiven auf Sprache im Internet. Zeitschrift für Germanistische Linguistik 31:2, 2003, S. 173-197

Fandrych, Christian / Thurmair, Maria: Textsorten im Deutschen. Linguistische Analysen aus sprachdidaktischer Sicht, Tübingen 2011

Koch, Peter; Wulf Oesterreicher: „Schriftlichkeit und Sprache“. In: Günther, H./ Ludwig, O. (Hrsg.): Schrift und Schriftlichkeit. Handbücher für Sprach- und Kommunikationswissenschaft. Berlin/ New York. Bd. 1. 1994, S. 588-604