A banda
Raggabund: “O futuro é das bandas multiculturais”

Raggabund Foto: Paolo Sarti.

Há mais de 15 anos eles cantam em espanhol, alemão e inglês. E não querem se ater a um único estilo musical. Em entrevista, os irmãos Don Caramelo e Paco Mendoza, da banda Raggabund, declaram seu amor pela América Latina e explicam por que gostam de trabalhar preferencialmente com artistas de outros países.

Em 2013, vocês estiveram pela última vez no México e na Guatemala. Por que essa preferência por turnês na América Latina?

Caramelo: Nossa mãe é peruana e nosso pai é paraguaio de origem alemã. Passamos os primeiros anos de nossas vidas no Brasil, na Argentina, na Nicarágua e em Honduras. E depois de mudarmos para Munique, viajamos sempre para o Peru e para o Paraguai para visitar parentes. Por isso a gente se sente em casa na América Latina. Além disso, temos no continente a possibilidade de fazer shows inteiros em espanhol. É um tesão quando as pessoas entendem as letras e, por isso, reagem ao som de outro jeito.

Paco: Mas nos shows na América Latina as pessoas costumam pedir que a gente cante nossas canções alemãs. Tem alguns fãs latino-americanos que sabem cantar de cor nossas canções alemãs de ouvido, embora não entendam uma palavra do que está sendo dito.

Vocês falam alemão e espanhol fluentemente. Como vocês decidem se vão escrever uma determinada letra de música em alemão ou espanhol? Tem algumas coisas que são mais fáceis de serem ditas em uma língua que na outra?

Paco: Não. Tudo depende de com quem a gente está querendo falar. Um bom exemplo é a nossa canção Refugee, resultado de uma inspiração que tivemos durante os protestos de refugiados em Berlim e na Baviera. Com essa canção, a gente se dirige principalmente aos alemães que protestam contra os alojamentos de requerentes de asilo no país. A gente quer dizer a eles: “Acordem! Há 70 anos, vocês próprios eram desterrados vindos de outro lugar. Como é que podem, agora, ir às ruas contra os refugiados?” Esse é um problema que existe menos na América Latina, onde as pessoas mudam mais de um lugar para outro.

Caramelo: Tem também os assuntos que independem da língua, como as canções para festas, por exemplo. É possível festejar em qualquer língua. E quando você quer cantar sobre o amor, isso é absolutamente possível tanto em alemão quanto em espanhol.

Paco: Sendo que eu muitas vezes escrevi canções de amor em alemão, porque a menina pela qual eu estava apaixonado era uma alemã.

Nas letras das canções, vocês se pronunciam com frequência sobre temas de teor social. Vocês sentem uma responsabilidade social na condição de músicos?

Paco: Nós não nos sentimos obrigados a nada, afinal, não somos políticos. Mas há tantos males neste mundo que nos tocam e, quando estamos no clima, escrevemos a respeito. Música significa sempre também descarregar emoções.

Qual é a importância das suas raízes familiares para a sua música?

Caramelo: Nossos pais são, os dois, muito ligados à música. Foram eles que nos levaram à música. Nas nossas canções, mixamos até hoje aspectos latino-americanos e europeus, transformando tudo numa mistura unicamente nossa. E o reggae nos serve como elemento de ligação entre estilos tão diferentes.

Nos seus projetos, os músicos e produtores vêm quase sempre de países diferentes. Por que vocês se sentem atraídos por pessoas que têm outras origens culturais que vocês?

Caramelo: A gente acredita que o futuro é das bandas multiculturais. O mundo é simplesmente uma aldeia global. Restringir-se a nacionalidades ou a estilos musicais seria para nós uma limitação. Você não cozinha só com cebola e tomate, mas tenta misturar todos os ingredientes. Só assim fica boa a comida.

Paco: Quanto mais global, melhor. Achamos legal conhecer gente nova e sermos convidados para fazer shows no mundo inteiro. Mas hoje os músicos não precisam mais estar no mesmo lugar para darem início a projetos legais.

Caramelo: A internet acabou com todas as distâncias. Você pode fazer conferências virtuais e mandar arquivos com uma rapidez absoluta de um lado para o outro.

Paco: Já gravei singles com produtores que nunca conheci pessoalmente.

Para a produção do seu novo álbum “Buena Medicina”, vocês reuniram recursos através da plataforma de crowdfunding Startnext. Por que vocês quiseram seguir por esse caminho?

Caramelo: Nós percebemos que as estruturas musicais de hoje são diferentes daquelas de 15 anos atrás, de quando começamos a fazer música profissionalmente. Você precisa fazer tudo muito mais sozinho, mas pode conseguir também muita coisa quando tem uma comunidade que apoia o que você faz. Funcionou super bem na nossa ação e foi ótimo receber um retorno direto dos fãs no Facebook.

Paco: O resultado foi um álbum alemão de reggae de raiz – isso não acontecia na Alemanha há muito tempo. As letras são, como sempre, em espanhol e alemão. Parece muito artesanal, porque abdicamos de beats digitais. E todas as canções foram gravadas com a banda The Dubby Conquerors. Agora estamos curiosos para saber qual vai ser a recepção do que fizemos.