Série policial "Tatort" Novos desafios, audácia redobrada

ARD/HR "Tatort": "Im Schmerz geboren" – Donny (Alexander Scheer)
ARD/HR "Tatort": "Im Schmerz geboren" – Donny (Alexander Scheer)

A série policial Tatort celebra 45 anos de vida. Em 2016, será emitido o seu milésimo episódio. No entanto, a série ainda não esgotou as suas potencialidades – bem pelo contrário

Domingo à noite, 20:15, algures na Alemanha. A banda sonora que dá início a Tatort apela a que todos se aproximem da televisão. Um alvo, um fugitivo a correr e música sugestiva servem de breve apresentação inicial. Quem não acorrer de imediato já terá perdido o homicídio, que, regra geral, se dá logo no começo. Os espetadores sabem disso. A série mais alemã de todas as séries acompanhou-os pela vida fora. Um sem-número de especialistas e de fiéis admiradores vivem espalhados por toda a Alemanha.

A série policial que os alemães preferem vai para o ar desde 1970, sendo a mais antiga de todas as séries policiais no espaço de língua alemã. Em média, são cerca de dez milhões de espetadores que seguem a caça ao criminoso todas as semanas. Os alemães gostam de a ver em companhia, em casa, no café ou em bares. Ao contrário do que é habitual, esta série é vista preferencialmente à hora da sua emissão e não mais tarde, em diferido, em outros meios de comunicação – para que os fãs possam fazer logo os seus comentários no Twitter ou falem sobre ela no dia seguinte. Tatort é o ritual que encerra o fim-de-semana.

Mas a série de domingo é muito mais do que puro entretenimento: Tatort reflete estados de alma do povo alemão, documenta a história contemporânea, tematiza os grandes problemas da sociedade – a violência nas escolas, a situação dos refugiados, o fenómeno cybermobbing ou as obras intermináveis do aeroporto de Berlim-Brandenburgo.

Jovens comissários entram em cena

Se pensa que o público envelheceu com a série, desengane-se! "Os espetadores da série Tatort, emitida a partir de Münster ou com o ator Til Schweiger, são mais jovens do que os que preferem filmes norte-americanos", diz-nos Gebhard Henke, diretor da programação "Teatro, Cinema e Séries Televisivas" da WDR (estação televisiva alemã com sede em Colónia). Após uma descida generalizada a partir de meados dos anos 80, devido à concorrência privada, e de certa estagnação a partir de meados dos anos 90 – estagnação que durou uma boa década –, assistimos, desde 2007, a uma subida crescente das audiências. Se a série já contava com cerca de 7 ou 8 milhões de seguidores, o número subiu, em 2015, para 13 milhões. Não são só, porém, os espetadores que aumentam e rejuvenescem, mas também os próprios comissários no ecrã. As estações televisivas ARD, ORF e SRF (alemã, austríaca e suíça, respetivamente) sempre tiveram a preocupação de que a série policial integrasse diferentes comissários nas mais diversas regiões geográficas. A ARD, por exemplo, conta, de momento, por cada emissora federal, com pelo menos uma equipa de detetives em campo – em 2015, já havia vinte. Só no ano de 2012 entraram em ação dez novas equipas.

O gosto pela novidade

"Não houve, porém", adianta Gebhard Henke, "uma estratégia deliberadamente pensada para o rejuvenescimento das equipas de investigação". Na realidade, e de acordo com o princípio federal que rege a ARD, a emissora de cada Estado alemão é livre de moldar a série Tatort à sua imagem, podendo até afastar determinadas equipas policiais e inventar outras. É isto que torna a série tão diversificada, mas também, é claro, tão imprevisível. Um verdadeiro potpourri, cuja coesão é assegurada pelo horário de transmissão, a imagem inicial de apresentação e o facto de todos os crimes serem desvendados no final. Os espetadores de hoje parecem gostar desta variedade. É isso o que Henke constata, em todo o caso: "Se os espetadores de outrora se identificavam sobretudo com bares como o Platzhirsch ou com comissários famosos como Schimanski (Götz George), Stoever (Manfred Krug) ou Charlotte Lindholm (Maria Furtwängler), os espetadores dos tempos modernos recebem as caras novas de braços abertos, tal como receberiam jogadores da liga alemã de futebol". De qualquer modo, torna-se forçoso que surjam novas equipas policiais, já que alguns atores aclamados, como é o caso de Til Schweiger (Hamburgo), Ulrich Tukur (Wiesbaden) ou Meret Becker (Berlim), não pretendem ficar vinculados para sempre a esses papéis. A profusão de atores e de locais corresponde igualmente ao desejo de uma maior regionalização da série, um dos objetivos da produção – mesmo que os novos comissários principais não falem dialeto e este tenha de ser remetido para papéis secundários.

Uma lufada de ar fresco

Os novos comissários são mais jovens em termos de idade e, não raras vezes, no estilo de vida que praticam. Modernos, urbanos, familiarizados com novas tecnologias e redes sociais, até já se movimentam de scooter e falam fluentemente línguas estrangeiras. E até infringem certas regras da sociedade, ainda que os seus predecessores também não fossem funcionários infalíveis e imaculados – também estes não estavam isentos de pecado, também estes perdiam, por vezes, as rédeas à sua vida privada. Contudo, as jovens personagens não estão tão fortemente interessadas em ganhar a empatia dos espetadores, chegando até, de facto, a dividir as audiências. A comissária Nora Dalay (Aylin Tezel), por exemplo, grávida de um colega seu, decide abortar; o companheiro de Nina Rubin (Meret Becker) decide sair de casa, logo no início da série, depois de Nina viver uma noite repleta de excessos em Berlim.   
 
„Tatort“: „Im Schmerz geboren“ – Trailer (Youtube.com)

A série Tatort tornou-se, ela também, mais experimental e diversificada… O filme "Im Schmerz geboren", uma produção da estação televisiva de Hessen estreada em outubro de 2014, foi aclamado pela crítica e recebeu um sem-número de prémios. A violenta sede de vingança de um antigo comissário transforma-se em arte experimental da mais refinada qualidade, urdida na esteira de Shakespeare e encenada como um western de Quentin Tarantino. No final, após um total de 47 mortes, Ulrich Tukur, no papel de Murot, detetive de Wiesbaden, põe termo à chacina com uma espingarda automática.

Quase tudo admite mudança em Tatort – lugares, comissários, tradição narrativa. O que permanece, porém, sagrado, são os créditos iniciais, inalterados desde o primeiro episódio. Embora, no estrangeiro, sejam muitas vezes omitidos por serem considerados anacrónicos, no espaço de expressão alemã, criticá-los é absoluto tabu. Foi o que o próprio Til Schweiger sentiu na pele, quando qualificou os créditos iniciais de "idiotas" e “antiquados” e propôs a sua abolição. E nem os novos comissários mais intempestivos ousam ultrapassar certos limites…