Mudança de perspetiva:
"And-Ek Ghes" e "Havarie" de Philip Scheffner

"Havarie" de Philip Scheffner
"Havarie" de Philip Scheffner; Seção Fórum | Foto (detalhe): © pong

O realizador alemão Philip Scheffner apresentou dois filmes na seção Fórum da Berlinale – Festival Internacional de Cinema de Berlim 2016. Ambos contam histórias de refugiados e de emigração, de perspetivas inusitadas.

Os refugiados e a migração são temas que há muito fazem parte do repertório da Berlinale, e que em 2016 estiveram em destaque. A contribuição dinamarquesa Les Sauteurs, por exemplo, mostra centenas de migrantes na cerca à volta do enclave espanhol de Melilla, em Marrocos. Neste filme, no entanto, não foram os cineastas a fazer as filmagens, tendo passado essa tarefa e a câmara para as mãos de um dos protagonistas: Abou, do Mali..

Um toque trágico

Esta mudança de perspetiva, muito necessária, é exatamente aquilo que o realizador de documentários Philip Scheffner se propõe a fazer em And-Ek Ghes, em que três famílias da etnia romani, provenientes da Roménia, documentam o seu dia-a-dia após a chegada a Berlim, trazendo na bagagem muita esperança. O resultado deita por terra vários estereótipos e deixando o espetador intrigado, sobretudo, com o charme da narrativa. A fria Alemanha parece um paraíso para os recém-chegados, com as paisagens áridas do leste do país a lembrarem os adorados filmes de Bollywood. Colorado Velcu, um dos protagonistas, mostra ser um observador meticuloso da realidade, anotando as suas impressões do que o rodeia num diário. Organista amador, Colorado tenta incentivar os talentos musicais da sua família e regista em vídeo um musical simultaneamente maravilhoso e meloso.

Tudo em torno de Velcu é permeado por um toque trágico. Os veteranos da Berlinale já conhecem a personagem de outro documentário de Scheffner, intitulado Revision, e exibido no Festival em 2012, no qual o romeno tenta reconstruir e esclarecer a morte do pai, resultado de um misterioso “acidente de caça” na fronteira com a Polónia. Em And-Ek Ghes também nem tudo são flores: durante meses, o operário da construção civil espera pelo seu ínfimo salário e pelo reconhecimento por parte das autoridades alemãs. Alguns membros da família seguem viagem pouco tempo depois, desta feita rumo a Espanha.

Uma verdadeira experiência

Empenhado e versátil, Philip Scheffner apresentou um segundo filme na Berlinale, também exibido no Fórum: em Havarie (Naufrágio), o realizador pegou num clipe de três minutos extraído do YouTube, que mostra o salvamento de refugiados no Mar Mediterrâneo, e transforma-o numa longa-metragem – criando um trabalho verdadeiramente experimental. No documentário, nada se vê para além do barco de refugiados superlotado, um ponto minúsculo, que balança de um lado para o outro na imensidão do oceano, lembrando, pela sua abstração desfocada, a série Lírios D'Água, do pintor francês Claude Monet. Filmada a partir de um navio de cruzeiros, a imagem documenta a perspetiva ocidental de maneira invertida – o espetador percebe que, afinal, nada vê.