Doris Dörrie Palhaços sem fronteiras

"Grüße aus Fukushima" de Doris Dörrie
"Grüße aus Fukushima" de Doris Dörrie | Foto: Mathias Bothor © Majestic

A realizadora alemã Doris Dörrie regressa ao Japão com o filme Grüße aus Fukushima (Fukushima, meu amor).

O Japão já tinha sido palco de dois outros filmes de sucesso de Doris Dörrie: Erleuchtung garantiert e Kirschblüten – Hanami. No entanto, segundo a realizadora, só agora é que ficou a conhecer o país a fundo. Grüße aus Fukushima (Fukushima, meu amor) resulta do envolvimento direto de Dörrie com a catástrofe que teve lugar em 2011: um terramoto, seguido por um tsunami e por um acidente nuclear. A jovem Marie (Rosalie Thomass) viaja até Fukushima através da Clowns4Help, uma organização de solidariedade fictícia, para tentar dar alguma alegria aos sobreviventes que residem em alojamentos provisórios. É uma ideia parva, e o filme admite-o. Marie admite que este plano é mais para a ajudar a si própria do que às pessoas afetadas pela catástrofe. Depois de algumas tentativas falhadas de fazer de palhaço, Marie está prestes a abandonar a zona quando conhece Satori (Kaori Momoi), a "última geisha" do Japão. A velha mulher decidiu retomar a sua vida destruída pela catástrofe na "zona proibida" em redor de Fukushima. 

Não Há diferenças, apenas mal-entendidos

Desde o seu filme de estreia, Männer, em 1985, Dörrie tem conseguido agradar ao público, aliando o filme artístico e comercial como nenhum outro realizador – algo difícil de fazer na Alemanha. Porque é que Grüße aus Fukushima não entrou na competição da Berlinale – Festival Internacional de Cinema de Berlim 2016? Para poder responder a isso, é preciso conhecer a fundo a Berlinale. Este é o primeiro filme a preto e branco da realizadora, que se destaca pelas interpretações de duas grandes atrizes e pela fotografia de Hanno Letz. No filme, diversos planos relembram o trabalho dos antigos mestres japoneses, incluindo o famoso “plano tatami” de Ozu Yasujirō. Os filmes de Ozu, como por exemplo Ukikusa, de 1959, mostram frequentemente famílias destruídas ou actores itinerantes. Embora não consiga resistir a incluir algum exotismo, Dörrie consegue ainda assim estabelecer uma ligação harmoniosa entre o simbolismo japonês e o seu próprio simbolismo. A sofisticação estética de Satori – a personagem sabe como criar uma cena, como se pode ver durante a cerimónia do chá – contrasta recorrentemente com a rudeza de Marie. “És um elefante. És grande demais para a minha casa!”, diz Satori. No entanto, em última análise, a comunicação intercultural nos filmes de Dörrie é bastante simples, algo que a realizadora tem em comum com outros fãs do Japão como Jim Jarmusch e Wim Wenders: nestes filmes não há diferenças, apenas mal entendidos. Ao apresentar imagens opressivas de uma paisagem destruída, povoada apenas pelos fantasmas dos mortos, Dörrie prova também a sua mestria nas abordagens mais cuidadosas.

um filme de autor genuíno

A Berlinale e Doris Dörrie são um pouco como duas mulheres – não precisam uma da outra, mas juntas tornam-se melhores. Assim, não é difícil perceber que a realizadora de 60 anos se revê em ambas as personagens: a velha sábia e a jovem que tem ainda muito para aprender. E esta é a definição de um filme de autor, algo que começa a tornar-se uma raridade, mesmo em festivais internacionais.