Escritores refugiados Escrever ou emudecer no exílio

Aboud Saeed
Aboud Saeed | Foto (detalhe): @ mikrotext

Como os escritores expulsos e perseguidos lutam por uma nova vida literária na Alemanha – e os desafios que têm de superar.

Maynat Kurbanova nunca pensou que um dia iria tornar-se professora de religião para jovens muçulmanos. Na Chechénia, era uma escritora e jornalista de renome, trabalhando no Cáucaso do Norte como correspondente do jornal de Moscovo Nowaja Gazeta. Em 2004, depois de receber ameaças, Kurbanova deixou a Rússia e foi para a Alemanha. Uma bolsa da associação de escritores PEN assegurou inicialmente o seu sustento, mas depois teve de escolher o caminho a seguir. A solução foi reinventar-se: estudou Ciências Islâmicas e formou-se como professora em Viena.

O chinês Liu Dejun também começou uma nova vida. Blogger e activista pelos direitos humanos, Dejun é também um crítico feroz do regime político de Pequim, tendo sido preso e sofrido maus-tratos por diversas vezes. Atualmente, estuda Direito em Nuremberga: depois de ter aprendido alemão em cursos intensivos, conseguiu passar no exame de acesso à universidade.

CONDIÇÕES de vida PRECÁRIAS

Maynat Kurbanova e Liu Dejun são dois escritores que conseguiram vingar após a fuga, mas que são exceções à regra. Poucos são os escritores refugiados que conseguem recomeçar do nada na Alemanha, e muitos vivem em condições precárias. A sua situação também depende das línguas que falam: autores que dominam idiomas europeus têm mais possibilidades de escrever e publicar na Alemanha. Porém, mesmo para eles, é difícil ganhar a vida com a escrita.

Em comparação, aqueles que tiveram de deixar as suas pátrias ainda jovens, têm boas perspetivas: Saša Stanišić, por exemplo, fugiu da Bósnia ainda adolescente, devido à guerra, e veio para a Alemanha com a sua família. Stanišić teve a sorte de encontrar pessoas interessadas, que o incentivaram a apostar na escrita. Hoje em dia, Stanišić é um autor muito lido e reconhecido tendo recebido o prémio na Feira do Livro de Leipzig em 2014. Abbas Khider também conseguiu estabelecer-se como escritor. Depois de uma longa e complicada fuga do Iraque, Khider chegou à Baviera com 27 anos, sem falar uma única palavra de alemão. Desde então, já escreveu vários romances em alemão, tendo ganho numerosos prémios literários. Em 2017, Khider foi escolhido como cronista residente da cidade de Mainz.

O PESO DA TORTURA E DA FUGA

Mas o destino de cada refugiado é individual. Há uma grande diferença entre alguém que teve de deixar a família para trás, alguém que encontra uma comunidade de pessoas do seu país de origem ou ainda uma pessoa cujos representantes do seu perseguidor – serviços secretos, por exemplo – chegam até o país que o acolheu. Outra questão que tem grande influência sobre a vida literária futura é o trauma causado pela fuga, perseguição, prisão e tortura.

Para além disto, os escritores também precisam de estabelecer bons contactos – com editoras, tradutores e revisores. Os escritores refugiados, em especial, precisam de fazer leituras públicas e de participar em debates para poderem apresentar ao público os seus trabalhos visto que, na maioria dos casos, são completamente desconhecidos na Alemanha. Em muitos casos, as editoras acabam por rejeitar estes autores por já terem um ou dois escritores de uma região específica no seu catálogo (por exemplo, do mundo árabe). Restam então as pequenas editoras e as editoras independentes, que têm menos possibilidades de divulgação, mas que compensam com mais coragem para apostar em algo diferente.

OBRAS DE ARTE LITERÁRIAS NO FACEBOOK

Foi desta forma que a mikrotext, uma editora de Berlim especializada em e-books, obteve grande sucesso com os textos de Aboud Saeed. A coleção de notificações de status de Saeed no Facebook teve tantos leitores que até foi publicada em edição impressa: Der klügste Mensch im Facebook (publicado em 2013 e atualmente na terceira edição). Em 2015, seguiu-se a publicação de Lebensgroßer Newsticker. Atualmente Saeed também escreve para a revista VICE Germany e para o jornal diário taz. Com os seus textos curtos e cheios de humor negro, conseguiu conquistar o público mais jovem.

A escritora síria Rosa Yassin Hassan, que vive desde 2012 em Hamburgo, escolheu outro caminho: dedica-se sobretudo a lutar pelos direitos das mulheres. Um romance e um conto da autora foram publicados em alemão: Wächter der Lüfte e Ebenholz, ambos pela editora Alawi-Verlag, de Colónia. A autora escreve sobretudo sobre os tabus que determinam a vida no seu país de origem: política, religião, sexualidade, repressão e violência, especialmente contra mulheres.

Rosa Yassin Hassan afirma que vive das histórias e através das histórias que trouxe da Síria. A Alemanha sempre será sempre um país de exílio e, tal como muitos escritores do mundo árabe, Hassan espera poder um dia retornar ao seu país de origem. Até lá, tem um objectivo a atingir com os seus livros: quer que, por detrás dos números e dados a respeito de fugas, transpareçam os destinos individuais. E para alcançar esse objectivo, nada melhor do que recorrer à literatura.