Quando os professores aprendem "A formação contínua deve ser feita em profundidade"

Uma boa formação contínua incluiu fases de discussão e de trabalho de grupo.
Uma boa formação contínua incluiu fases de discussão e de trabalho de grupo. | Foto (detalhe): © Woodapple – Fotolia.com

Quem quer ensinar deve estar sempre disposto a passar pelo banco da escola. O que distingue uma boa formação contínua? Que efeitos pode realmente ter? E como se vão processando as mudanças na era digital? Estas são algumas das perguntas que dirigimos a Frank Lipowsky, investigador em Ciências da Educação.

Sr. Lipowsky, quando se lembra dos seus tempos de escola, quais eram as disciplinas em que era particularmente bom?

As disciplinas em que era melhor eram, acho eu, Educação Física, Matemática e Química.
 
E isso tinha a ver com as suas preferências ou com os professores?
 
Certamente que teve bastante a ver com os professores, mas também com os meus interesses. No entanto, também me lembro de uma professora de Inglês que estragou bastante a minha aprendizagem e as aulas daquela disciplina.
 
Em que medida é que as competências de um professor têm influência no sucesso da aprendizagem do aluno?
 
Em termos comparativos, têm uma influência grande. Os conhecimentos que os alunos trazem com eles ou a sua motivação são, claro, importantes, mas de entre os aspetos com mais influência no campo pedagógico, os professores e as aulas são os que têm maior peso. As características próprias das escolas, como por exemplo o ambiente que se vive numa escola ou a sua direção, têm menos efeito sobre aquilo que os alunos aprendem. Numa grande meta-análise, verificou-se que a influência dos professores e do seu ensino na aprendizagem é estimada entre 30% e 35%. Ou seja, 30% a 35% das diferenças no desempenho dos alunos podem ser explicadas pela intervenção dos professores e pelas aulas que dão.
 
Por que razão é importante que os professores tenham formação contínua com regularidade?
 
Por um lado, a fase após a formação profissional propriamente dita é a fase mais longa da vida de um professor. Neste momento, muito está a acontecer, do ponto de vista social e técnico. As formações contínuas ajudam os professores a manterem-se atualizados. Por outro lado, as competências profissionais –  aquilo que os professores sabem e a forma como atuam na sala de aula – não dependem da experiência profissional que possuem. Portanto, não se pode cruzar os braços e dizer: se os professores têm cinco ou dez anos de serviço, as coisas funcionam automaticamente.
 
O que distinguem uma boa formação contínua?

A formação contínua deve estender-se por um período longo e deve articular entre si as fases de informação, teste, reflexão e comentário. O professor também deve poder aplicar aquilo que aprendeu na sala de aula e receber comentários. Para além disso, é recomendável que a formação contínua seja feita em profundidade, em vez de se apostar apenas na exaustividade, porque deste modo tanto os formadores como os professores têm a oportunidade de lidar com processos concretos de aprendizagem e compreensão dos alunos. Deste ponto de vista, por exemplo, é mais promissor propor formação contínua sobre o tema "treino de fluência de leitura" em vez do tema "treino de aprendizagem" sem qualquer consideração específica. O “treino” dos alunos exige um feedback bom e construtivo, para o qual importa haver uma articulação concreta com uma matéria. A formação bem-sucedida caracteriza-se também por lidar com temas e aspetos trabalhados na sala de aula, que se sabe serem importantes para a aprendizagem. Por esta razão, os formadores também devem estar a par do estado da investigação nesta área. Além disso, nas melhores formações contínuas, os professores recebem comentários e são encorajados a trabalhar em equipa de forma intensiva.

É possível medir o sucesso de uma formação contínua?
 
É. Nas formações bem-sucedidas, os professores são capazes, após a formação, de descrever por exemplo as dificuldades dos alunos de forma muito mais diferenciada e precisa, e propor melhorias mais adequadas. Para se verificar se o ensino dos professores evoluiu, pode-se perguntar aos alunos ou observar as aulas, antes e depois e, idealmente, em comparação com um grupo de controlo.

Através das gravações em vídeo, os professores podem refletir melhor sobre o efeito do seu desempenho Através das gravações em vídeo, os professores podem refletir melhor sobre o efeito do seu desempenho | Foto (detalhe): © Woodapple – Fotolia.com Qual é a melhor forma de um professor tomar consciência do seu desempenho?
 
As gravações em vídeo são um bom método. São não só um auxiliar de memória como ajudam também a ganhar alguma distância em relação ao desempenho de cada um e a rever determinadas cenas repetidamente. No entanto, os professores não devem ser deixados sozinhos neste processo, precisam do apoio dos formadores para perceberem melhor a relação entre o próprio desempenho enquanto professores e as reações dos alunos ao processo de aprendizagem.
 
E como é que essas gravações em vídeo podem ser utilizadas na melhoria do ensino-aprendizagem?
 
Há, por exemplo, os chamados lesson studies, um conceito de profissionalização originário do Japão. Os professores preparam uma unidade letiva em grupo. Um dos professores do grupo encarrega-se de dar a aula e os outros professores assistem, fazem gravações em vídeo e tomam notas sobre como o que os alunos fazem e como reagem às tarefas e perguntas do professor. Depois avaliam-se os vídeos e as transcrições e faz-se uma nova planificação da aula. O objetivo é “aperfeiçoar” a aula de tal forma que, ao fim de várias tentativas, se possa chegar a uma unidade letiva capaz de funcionar com qualquer turma.
 
Parece ser um processo que exige bastante tempo e recursos.
 
É verdade, mas compensa a longo prazo, especialmente se for possível disponibilizar estas unidades curriculares planeadas a todo o grupo e, por outro lado, se for possível recorrer a elas a qualquer momento. Além disso, espera-se que a satisfação profissional e a perceção de eficácia pessoal aumentem significativamente através do trabalho em grupo e da experiência de desempenho competente enquanto professor
 
Quais são os aspetos específicos a ter em conta na formação contínua de professores de línguas?
 
Curiosamente, neste domínio há menos investigação do que para as áreas das ciências naturais e da matemática. Mas há uma série de princípios fundamentais das boas formações contínuas que se aplicam também ao ensino de línguas estrangeiras. Há certamente aspetos específicos que entram em jogo quando se tematizam determinadas estratégias e abordagens do ensino de línguas estrangeiras nas formações contínuas, por exemplo quando se trata de promover a leitura e compreensão dos textos na língua estrangeira. E será também importante confrontar os professores em formação contínua com estratégias e procedimentos que tenham maiores probabilidades de eficácia na aprendizagem por parte dos alunos.
 
Na era digital, têm-se desenvolvido novas possibilidades no campo da formação contínua. Como avalia este potencial?
 
De forma muito positiva. As formações contínuas online não irão certamente substitui as formações presenciais, mas podem ser um excelente complemento. Um exemplo que ilustra este potencial: há um programa de formação contínua americano que visa melhorar a interação entre professores e alunos. Neste programa, os professores filmam uma aula. De duas em duas semanas, esse vídeo é enviado a um formador através de uma plataforma online. O formador seleciona alguns excertos do vídeo e pede ao professor que se pronuncie sobre eles. De seguida, falam ambos por telefone e desenvolvem um plano, que resulta das observações, e que deverá ser aplicado na prática letiva subsequente. E assim sucessivamente. Este é um tipo de formação contínua que tem potencial para ser utilizado por instituições descentralizadas, como é caso do Goethe-Institut.
 

Frank Lipowsky Frank Lipowsky | Foto: © Frank Lipowsky Frank Lipowsky é professor do primeiro, segundo e terceiro ciclos. Após cinco anos a exercer a profissão docente, voltou aos bancos da universidade. É, desde 2006, professor de Ciências da Educação na Universidade de Kassel. Um dos seus temas principais de investigação é a profissionalização de docentes. .
 

BIBLIOGRAFIA

Lipowsky, Frank (2016): Unterricht entwickeln und Lehrpersonen professionalisieren. Ansätze und Impulse aus der Fortbildungsforschung. In: Pädagogik 68. Jg., H. 7‐8, S. 76‐79.
 
Lipowsky, Frank/Rzejak, Daniela (2015): Wenn Lehrer zu Lernern werden – Merkmale wirksamer Lehrerfortbildungen. In: Lin‐Klitzing, Susanne/Di Fuccia, Daniel/Stengl‐Jörns, Roswitha (Hg.): Auf die Lehrperson kommt es an? Beiträge zur Lehrerbildung nach John Hatties „Visible Learning“. Bad Heilbrunn: Klinkhardt, S. 141-160.
 
Lipowsky, Frank/Rzejak, Daniela (2015): Lehrerfortbildungen lernwirksam gestalten – Ein Überblick über den Forschungsstand. In: ZfL Magazin 1. Jg., H. 1, S. 5‐10.