Casting No limiar do genuíno

Casting
Casting | Foto (detalhe): © Südwestrundfunk

Como trazer o nome sonante de Rainer Werner Fassbinder para a atualidade sem incorrer na desonra? O filme "Casting", uma das mais cativantes propostas a integrar a 15ª edição da KINO, exibe autoconsciência na possibilidade de o invocar em vão. 

Nicolas Wackerbarth manobra o seu Casting com base no célebre As Lágrimas Amargas de Petra von Kant (1972) do prolífero realizador com o qual compartilha bandeira. Uma pequena e agradável surpresa que ronda a feitura cinematográfica na tradição da azáfama. Vera, uma realizadora saída do documentário, brinca com a obra de Fassbinder ao ousar dedicar-lhe um remake. Numa era por demais saturada com continuações de obras há muito suspensas bem como novas versões que conspurcam a memória original, Casting é revigorante na sua humildade autocrítica. A dada altura, Vera questiona o porquê de se acercar do pré-existente em detrimento de um original seu. Trata-se de um telefilme, castrador da sua total liberdade criativa. Ainda assim, Vera não se coíbe de prolongar no tempo a escolha da atriz a interpretar Petra von Kant, de forma a atingir o seu ideal de perfeição. É nesse mesmo casting que ao título empresta significado, que se contam as atribulações de uma produção de estúdio tida em contrarelógio.  

Apogeu e Queda

Do guarda-roupa às cadeiras a integrar o cenário, todos os elementos carecem do parecer seguro da realizadora. Uma após outra, as atrizes de renome desfilam na humilhação de se verem como mera possibilidade por entre as contempladas para o papel. Recai no diálogo a idade como entrave. Ao entrar numa determinada faixa etária, as oportunidades para uma atriz reduzem-se em número. Passa a exibir o rótulo “mãe de…”, resvalando gradualmente em importância para o plano secundário. A ser possível um elo de ligação com as demais propostas que preenchem a 15ª edição da KINO, esse cabe ao esquecimento. No filme Herbert, de Thomas Stuber, o pugilista que carrega a narrativa às costas cai gradualmente no esquecimento, remetido ao canto pela doença e novidade. Outrora motivo para aplausos, não mais é agora que rosto emoldurado. No austríaco Wild Mouse, de Josef Hader, a personagem principal vê-se destituída do seu cargo como um influente crítico de música. O seu despedimento caminha de mãos dadas com o próprio envelhecer, sendo alvo fácil para uma sociedade que deixa de o contemplar e contabilizar. Subtilmente, Casting traz à tona o esquecimento das velhas atrizes a favor de um rosto jovem tantas vezes inexperiente. 

Modernizar Fassbinder

Não obstante a abordagem do sexo feminino como principal lesado, Casting entrega o seu arco principal a um homem, cabendo a este interpretar o interesse amoroso de Petra. Ainda que os diálogos originais não aparentem sofrer alterações, a maior metamorfose do original de Fassbinder para o filme no interior de Casting passa pela mudança no sexo daquele que suscita a obsessão de Petra. Ousadia lésbica no distante 1972, que se vê transportada para o presente como espelho do amor no sentido lato. A determinada altura, aponta-se As Lágrimas Amargas de Petra von Kant como não sendo intencional no abordar da orientação sexual como tema maior. Ao invés, não mais é que estudo sobre a condição humana por entre ruínas de sucesso e falhanço. Casting faz-lhe jus com as problemáticas trazidas pelos próprios atores para o instante da representação. O protagonista masculino exibe constante insegurança, rejeitando qualquer elogio que o glorifique. Vê-se obrigado a beber um pouco de si mesmo, qual fingimento artístico que tenta alcançar o autêntico. Nesse aspeto, Casting faz eco de Salaam Cinema (1995), de Mohsen Makhmalbaf. Do iraniano ao alemão, ambos usam e abusam dessa vontade máxima em conseguir um papel. Exigem a vivência real como veículo à credibilidade máxima na interpretação. Trabalham a utopia do genuíno. Casting deambula nesse mesmo limiar, jogo à identidade. 

O filme de Nicolas Wackerbarth preocupa-se em modernizar o clássico de Fassbinder, retirar-lhe um pouco do desgaste de corpos que não se tocavam como nos dias de hoje. Nunca querendo ser complemento a um filme que não o pede, Casting acaba por usá-lo somente como ponto de partida para seres autênticos que tentam viver da memória das personagens delineadas por Fassbinder.