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Geração Z
Os nativos digitais já estão a trabalhar

Multitasking
Multitasking | Imagem: Lemberg Vector studio © Colourbox

Os media chamam-lhe a “geração Z”, distinta da “millenial”, que a antecedeu. Mas do que falamos quando falamos destas gerações?

De Francisca Gorjão Henriques

Bruno Garcia está a descascar um aipo, que antes de ser assado foi ao fogão até ficar com a casca completamente preta – "depois, cobre-se com massa de pão e vai ao forno a 180 graus, durante três horas", faz questão de explicar. Trabalha no restaurante Porto de Santa Maria, no Guincho, como cozinheiro. Tem 20 anos e sabe exatamente onde quer estar na próxima década e meia: à frente de uma cozinha. "Todos os dias trabalho para isso". Mas para já não é ele quem está aos comandos e a conversa é interrompida por um pedido do chef que o faz transitar para a bancada do lado e preparar um misto de marisco.
 
Bruno estudou na Escola Profissional de Hotelaria e Turismo de Lisboa, depois de afastar a possibilidade de tirar o curso de Fisioterapia Desportiva. "Os meus pais sempre trabalharam até tarde e eu tinha que fazer o jantar". Trabalha das 10h00 às 15h30 e das 18h30 às 23h30, mas nada disto é fixo. É frequente estar aqui dez, onze horas por dia. Desde os 16 anos que ajuda a servir em casamentos e batizados, e talvez por isso não tem medo do trabalho. Mas não vê o mesmo esforço na maioria das pessoas da sua idade. "Acho que estão cada vez mais preguiçosas e que tudo é muito fácil."
 
Por ter nascido em 1997, Bruno pertence ao grupo de mais de 2,5 milhões de portugueses que fazem parte daquela que se convencionou chamar de "geração Z" ou "pós-millenial" (veremos como estas distinções não são lineares). Nasceram entre 1995 e 2012, e nunca conheceram o mundo sem Internet. Há 99% de utilizadores na população entre os 16 e os 24 anos, segundo dados da Pordata e do Instituto Nacional de Estatística. As redes sociais sempre fizeram parte da forma “normal” de relacionamento e convívio.
 
Os mais velhos desta “geração Z” têm então 23 anos e começam a integrar o mercado de trabalho (os números também mostram que 33,9% da população ativa portuguesa tem menos de 25 anos). Ao contrário dos millenials que cresceram numa época de maior prosperidade, viram os pais a lutar contra a crise financeira e viveram tempos de maior privação. Diz-se que a palavra “estabilidade” não tem para si o mesmo peso. Também se vaticina que seja uma “geração” mais virada para trabalhos por conta própria, com uma forte componente empreendedora, menos focada nas hierarquias e com uma capacidade de adaptação considerável, sobretudo quando se trata de lidar com novas tecnologias. Mas será mesmo assim? 
 

A ideologia do generacionismo

O sociólogo Vítor Sérgio Ferreira, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, começa por questionar a noção de uma “geração Z”, distinta dos millenials. As definições “surgem da literatura pop e estão ancoradas em estudos de marketing”, que tentam homogeneizar os jovens como “consumidores naturais” de certos produtos. “Seria difícil pensar que haveria transformações tão profundas em tão curto espaço de tempo”. Ainda assim, coloca a hipótese de “nos últimos 15 anos estarmos a assistir a mudanças que têm condições para originar uma nova geração [devido à] digitalização do mundo e do quotidiano”.
 
O que também acontece é o chamado “fenómeno do generacionismo”. “Querem que os jovens sejam conotados com determinados valores e consumos, e naturalizar o que não é naturalizável”. Ou seja, mascarar a precariedade laboral e falta de empregos com uma suposta predisposição desta geração para a mobilidade e aquisição de “novas experiências”. O sociólogo chama a atenção para uma “certa ideologia da igualdade que trespassa as relações mediadas pela digitalização”: já não se fala em “trabalhadores”, fala-se em “colaboradores” e “parece que deixa de haver chefia. Mas ela existe”.
 
No mesmo sentido, a insistência de que esta será uma geração de empreendedores é perigosa, porque depende sempre do contexto socio-económico – é mais fácil empreender se há dinheiro para lançar o próprio negócio. “Este tipo de discurso vem responsabilizar o indivíduo pelo seu fracasso e não a estrutura social. 'Não arranjou emprego porque não tem capacidade de empreender', em vez de 'não arranjou emprego porque não há'”.
 

Geração com mais lata?

Vamos agora conversar com Camila Botelho. Nasceu em 1995 e ainda passou a infância sem tablet nem smartphone. Tirou o curso de Gestão e agora trabalha numa consultora multinacional (prefere não dizer o nome), onde a média de idades é particularmente baixa – entre os 25 e os 35 anos, num universo de quase três mil pessoas. Trabalha entre 10 e 12 horas por dia. “Quero fazer alguma coisa com um impacto social, ligado à tecnologia, talvez educação”, afirma. Camila já fez seis meses de voluntariado em Timor-Leste. A sua carreira passará, muito provavelmente, pelo estrangeiro, tal como a de muitos amigos. “Somos mais globais, no sentido em que não temos medo e até temos a ambição de trabalhar lá fora. Estamos conscientes que provavelmente no início de carreira até vamos ter que o fazer”. Isto trará à sua geração “uma visão mais aberta do mundo”.
 
“Já não se trabalha a vida toda numa empresa, como na geração dos meus pais”, afirma. “Mas temos uma pressão muito maior em termos de formação: ter um mestrado é um requisito, antes era só uma mais-valia”. Isso não quer dizer que sejam mais competentes, mas “como vamos mais tarde para o mercado de trabalho, também vamos com outra maturidade e com mais experiências. Somos mais flexíveis. Talvez com mais 'lata'. Quando saímos da faculdade vamos com imensa confiança e ambição, a pensar que já sabemos muita coisa.” Daqui resulta uma certa diluição das hierarquias, que, na opinião de Camila, também tem que ver com o facto de “as empresas estarem a ficar menos burocráticas, mais ágeis, por causa da rapidez com que a tecnologia está a crescer e da necessidade de se adaptarem constantemente.”
 
Os trabalhadores serão realmente mais autónomos e contestatários? Mais uma vez, “não podemos homogeneizar”, responde o sociólogo. “É preciso ter condições favoráveis para se ser mais desobediente”.