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Setembro 2021: Convites para um regresso
Olhar para debaixo do tapete

Fear seeps (Ivana Miloš), monotype, gouache, and pastel on paper, 42 x 18 cm
Fear seeps (Ivana Miloš), monotype, gouache, and pastel on paper, 42 x 18 cm | Imagem: © Ivana Miloš

O realizador Nicolai Zeitler convidou-me para ver um filme que o havia perturbado. Onde e como ver e discutir sobre estas imagens de pesadelo? Encontrámos o nosso próprio cinema, que a imaginação colocou à nossa disposição. Uma conversa entre a angústia e o sonho, entre visível e o abjecto, entre a perturbação que pode provir dessa experiência de ir ao cinema e o prazer da partilha.

De Carlos Natálio

O jovem realizador alemão Nicolai Zeitler perguntou-me na troca de emails que tivemos  antes do nosso encontro imaginário no cinema, se queria que propusesse outro filme. Incialmente, não compreendi bem. Ainda não tinha investigado sobre a sua proposta  e disse-lhe que não era necessário. E só bem a posteriori, já à saída da sala de cinema, todo suado de nervos, inequivocamente sujo e perturbado, compreendi verdadeiramente os seus receios. Este era um daqueles filmes que não se mostra. É violento, sórdido, foi banido em vários países aquando do seu lançamento. Um filme que é espelho podre da humanidade, que permanece debaixo do tapete. Mas que filme é, afinal? Espreitemos debaixo do tapete...

Este era um daqueles filmes que não se mostra.


Filme único do realizador austríaco Gerald Kargl – como deixar que uma mente que imaginou este pesadelo pudesse continuar a filmar, a expor-nos ao seu imaginário? – Angst (1983) é uma obra que se baseia no caso verídico de Werner Kniesek, um assassino perturbado que, certa vez, numa saída em liberdade condicional da prisão, entrou numa mansão e matou sadicamente os seus três habitantes. Um pesadelo que parecia sair directamente do universo de Marquês de Sade [mais tarde, haveria de me falar das irmãs de Justine (1787). Quando soube que filme me estava a propor, disse ao Nicolai que aceitava a dificuldade da sua escolha, que era importante que pudéssemos continuar a ver e a discutir em torno de filmes errados, “desencaixados” de uma postura de arte reflexiva, exemplar e educadora.

Mas onde ver estas infames imagens, abusivas, gráficas e abjectas? Zeitler tinha pensado no cinema City Kino München, do qual me mandou umas fotografias. Uma delas revelava uma sala de luz dourada e cadeiras vermelhas, impecavelmente limpa. Outra mostrava jovens sorridentes bebendo em cadeiras ao ar livre, numa esplanada que fica entre as salas de cinema, um café e penso que uma livraria. Era aqui que teria lugar o visionamento do nosso filme? Perguntei-lhe se Angst poderia ser programado ali? O Nicolai diz-me que talvez em colaboração com um festival, mas que não faria parte da programação habitual…

FILMES CONFINADOS, SESSÕES CLANDESTINAS

E pronto, tínhamos um problema entre mãos. Um filme sem sala, um filme confinado a um retângulo de um laptop. Mas nisto do cinema e da imaginação muitas vezes é uma questão de refazer o plano; ou de mudar a posição da câmara; ou mesmo enxaguar o olhar para ver mais, com outros olhos. O Nicolai, que até tinha trabalhado num cinema, conseguiu arranjar a chave de uma das salas do City Kino München – a mais pequena, pois era importante ninguém dar por nós – e pedimos a um amigo que tratasse da projecção em película. Se estamos no campo do fetichismo – e não falta quem refira hoje o gosto pela projecção em película como um mero desejo nostálgico e fetichista de algo já ultrapassado pelo digital –, não dispensamos os saltos, os riscos, o som da película a ser projectada.

Lembro-me que a sessão foi clandestina, de madrugada, e eu, que nem fumo, apeteceu-me um cigarro para comemorar o regresso às salas de cinema. Havia algo de transgressão neste acto invasor que rimava com a acção tresloucada do protagonista assassino. Mas que outras coisas são as salas de cinema senão câmaras de sonho e pesadelo, onde a carícia e a tortura podem seguir-se no espaço de minutos? À saída da sessão, ou melhor à saída do filme, pois ficamos à conversa no interior da sala, Nicolai contou-me que a primeira vez que viu Angst foi no ecrã do computador. Contou-me que soube que era um dos filmes favoritos do Gaspar Noé (como é possível ter este pesadelo como um filme de cabeceira, perguntei-me) e ficou curioso em espreitar. Tinha planeado ver meia-hora mas acabou por assistir ao filme até ao fim, terminando estarrecido, chocado, no meio de uma noite solitária, há já vários anos.

Falámos de como o cinema que connosco comunica (estamos para lá do “bem” e do “mal”, do cinema certo e errado) acaba por transcender a sua tecnologia e colocar o espectador nessa espécie de séance espiritual, num transe hipnótico em que os minutos passam sem ponteiros. Transe que é aliás o que o realizador Gerald Kargl trabalha para nos dar acesso à subjectividade do psicopata, brilhantemente executado pelo catálogo de esgares, tremeres, olhares e correrias do actor Erwin Leder. Estamos sempre dentro da mente deste homem que, devido a um passado familiar traumático, quer satisfazer uma fome sexual, de dominação e violência, tendo outros seres humanos como objectos à disposição.

PATOLOGIAS DE PODER E LOUCURA

Falámos das patologias do poder – daqueles que, como Donald Trump, ao contrário dos verdadeiros líderes, precisam que os outros reconheçam a sua pretensa superioridade, que a ele se submetam, para preencher uma falta sempre impreenchível. Mas também das patologias da loucura daqueles que vivem na sua mente e já não se relacionam à realidade como um fora, estão presos em si mesmos. E não é essa a tendência das bolhas das redes sociais, das tecnologias que individualizam os seres humanos coabitando por vezes no mesmo espaço? Ou o custom made world que transforma a existência num gigantesco buffet, com liberdades à la carte, removendo as dificuldades, os atritos, as experiências de dureza, de dificuldade, de aborrecimento? A privatização crescente do individuo não tem como essa última paragem um momento em que o outro não é companheiro de existência ou membro da comunidade, mas mero competidor inimigo, descartável? Uma existência auto-sustentável, onde tudo se torna disponível, e que caminha nesse passo da loucura, do sem fora.

A construção da interioridade, mas também a percepção do psicopata em matéria do cinema (sons e imagens) fazem de Angst um filme tão inteligente e habilidoso quão perturbador.

O psicopata de Angst está preso no seu universo alternativo – a quem vamos acedendo, como que por magia, através de uma voz off que vai guiando as suas atrocidades, desejos, impulsos. Mas, ao mesmo tempo, a câmara de Gerald Kargl acompanha tudo a partir de uma ideia de estranheza perceptiva. Ora está demasiado alta – se fosse outro o tema, seria seguro dizermos que se trata do “olhar de Deus” – ou demasiado baixa. E treme e corre e sobe escadas, passa por corredores, mostra as gotas de suor, o sangue dos mortos, a água com que o louco se lava freneticamente depois de “pecar”. A construção da interioridade, mas também a percepção do psicopata em matéria do cinema (sons e imagens) fazem de Angst um filme tão inteligente e habilidoso quão perturbador. Conversava com o Nicolai que a perturbação, que inspirou Noé, mas também Michael Haneke certamente (Funny Games, parece declinar esta ideia da casa invadida, da casa como palco de sequestro e tortura) tem muito que ver com a capacidade de resistir ao terror como espectáculo e entretenimento. Com frequência, o género de terror vai fazendo evoluir aquilo que a sociedade considera como ameaça – o alien, o comunista (no caso do cinema norte-americano isso é bem evidente no período da Guerra Fria), o vizinho do lado, o diferente como monstro, etc. Todos eles têm algo em comum: a ameaça provém de um exterior, é o Outro a ameaça. Parte desta intransigência do terror de Angst é que subverte este esquema. O espectador sente que a ameaça pode provir da psyche humana. Por outras palavras, o monstro somos (podemos ser) nós.

PARTILHAR A ANGÚSTIA E O SONHO

 Naquela noite tivemos – imaginariamente - uma sala do City Kino Münche só para nós. Não era apenas um acto de invasão, mas também o ter um espaço à nossa disposição para o cinema. Um cinema ocupado pelo nosso desejo de estarmos numa experiência partilhada, em algo que contrariasse a progressiva degradação do cinema em conteúdo. Discutimos uma frase muito citável de Gilles Deleuze na qual, numa entrevista [1] cuja transcrição obteve o nome “O que é o Acto Criativo?” diz: “temos de ter cuidado com os sonhos dos outros, por se somos capturados pelos sonhos deles estamos perdidos.” Intuitivamente, compreendemos como esse processo de captura está na origem dos fetiches, por exemplo.

De dispor do outro a seu bel prazer, que no caso dos meros sonhadores tem uma dimensão imaterial, mas que, tratando-se de pessoas que “passam ao acto” entramos na esfera do crime. Curioso é que esta reflexão sobre o poder dos sonhos surge umas linhas depois de Deleuze falar do “inocente” Vincente Minelli e da sua ideia cinematográfica de que quem é afectado pelos sonhos são as pessoas que não estão a sonhar. E, não é esse, o estatuto do espectador de um filme, que recebe na sua carne e na sua mente os efeitos de um sonho de outrem? Gerald Kargl trabalha isso em Angst. Aponta a origem da ameaça para o trauma no interior do ser humano e depois - usando a câmara irrequieta e sempre no lugar “errado”, os efeitos sonoros de disrupção, por exemplo, as gotas de água que abrem o filme, os esgares de Erwin Leder – coloca-nos no interior desse pesadelo subjectivo e frenético de um assassino.

Estar no cinema não é, nunca foi, fácil. Preservemos essa indecência, essa experiência intraduzível em formatos comercializáveis.

Estar no cinema não é, nunca foi, fácil. Preservemos essa indecência, essa experiência intraduzível em formatos comercializáveis. Nessa noite, o Nicolai quis partilhar esta “Angústia” comigo. Sentados no cinema, cada um em silêncio, olhando a parede de luz, pensamos: “Para o que der e vier, estamos nisto juntos.” Para que serve a arte senão para ligar os seres uns aos outros? Estamos juntos como dois fotogramas que formam um só gesto, estamos juntos como dois planos montados back to back. E é essa a nossa loucura sã.

[1] In Two Regimes of Madness, Texts and Interviews 1975-1995 Gilles Deleuze (1925-1995), edited by David Lapoujade.