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Cinema e sustentabilidade
«Virar mar» - Uma conversa em postais

Virar mar - Filmstill
Imagem: Helena Wittmann © Flumenfilm

O ensaio fílmico virar mar / meer werden, uma longa-metragem algures entre o documentário e a ficção, da autoria de Philipp Hartmann e Danilo Carvalho, move-se entre as terras desérticas do sertão brasileiro e as paisagens de Dithmarschen, no norte da Alemanha, uma região sujeita a inundações. Numa era de alterações do clima, revela-nos situações dramáticas mas também observações do quotidiano. A filósofa Anne Döring e o realizador Philipp Hartmann conversam a respeito do filme e da sustentabilidade.

De Anne Döring e Philipp Hartmann

Postal virar mar - O inícioFoto: Philipp Hartmann © Flumenfilm
Caro Philipp,
 
o facto de ser precisamente através de postais que trocamos impressões sobre o teu trabalho relativamente ao tema da água parece-me de todo em todo estimulante, sobretudo por ter sido também através de um postal – enviado pelo nosso amigo comum, o Tim — que a minha consciência foi despertada para o nexo, tão banal quanto perturbador, que existe entre a água e a atividade económica. Já lá vão decerto uns vinte anos, mas ainda me lembro do efeito imensamente frio e brutal que surtiu em mim aquela imagem impressa num postal de Marrocos, de aguadeiros tradicionais com toda a espécie de recipientes presos em faixas a tiracolo, com um olhar alegre, diante de um enorme painel publicitário da Coca-Cola. Por essa altura já há muito que tinhas seguido em diante, tinhas ingressado no curso de Ciências Económicas, tendo acabado por fazer um doutoramento em que, por assim dizer, abordaste as interseções entre a água e a economia. Talvez estivesses então — e estejas ainda hoje — um passo à frente em relação a isto, na medida em que consegues dedicar-te ao tema não só com o olhar frio do homem de ciência, mas também com o olhar incansável e quase travesso do artista. Não te parece ser assim? E o teu trabalho cinematográfico virar mar / meer werden, juntamente com o Danilo [Carvalho], não parte também de um trabalho científico?
 
Cordialmente,
Anne
Zweite Postkarte Meer werdenFoto: Philipp Hartmann/Helena Wittmann © Flumenfilm
Cara Anne,
 
se o olhar científico é realmente frio é, por si só, toda uma outra questão. No entanto, virar mar / meer werden parte efetivamente de um estudo no âmbito das ciências económicas que nós os dois (o Danilo e eu) tomámos como base e amplificámos, e que constitui um pano de fundo do nosso filme. Esse estudo indica que em algumas partes da região de Dithmarschen, no Norte da Alemanha, em breve deixará de valer a pena construir diques cada vez mais altos para tentar contrariar o aumento do nível das águas do mar, resultante das alterações climáticas, já que os custos associados excederão em muito os benefícios económicos que daí advenham. Isto é, por assim dizer, um raciocínio lógico do mais básico, ou do mais «frio», se preferires. E essa lógica pode, de modo igualmente básico, ser aplicada ao sertão brasileiro, no que diz respeito ao combate das consequências das secas periódicas e cada vez mais frequentes, também aí em resultado das alterações climáticas.

Foi esse, entre outros, um dos assuntos abordados na minha tese de doutoramento em Economia Ambiental. Referi também, em termos gerais, os diferentes tipos de custos e benefícios associados à proteção e distribuição de modo justo dos escassos recursos hídricos. No entanto, cientes de que uma mera análise de custo e benefício representa naturalmente apenas um entre vários outros critérios de decisão quando se visa criar uma política hídrica e ambiental que seja sustentável, ocupámo-nos neste filme ainda do valor da água, numa abordagem que cientificamente é talvez menos palpável, mas que coloca as perguntas num plano mais existencial:

Qual o valor da força mitológica da água, do modo como esta se reflete na religião e na filosofia? Que dizer a respeito da «água metafórica», tal como esta surge, desde sempre, na história da arte, enquanto fonte da vida, enquanto rio para lá do qual se situa o mundo inferior, enquanto força de renovação, meio de conhecimento e tantas outras coisas? Também aí se trata obviamente da nossa ligação existencial à natureza, enquanto seres humanos; não de uma ligação existencial de cariz físico ou económico. Talvez antes uma ligação metafísica?
 
Cordialmente,
Philipp
Dritte Postkarte Meer werdenFoto: Philipp Hartmann/Helena Wittmann © Flumenfilm
Caro Philipp,
 
Obrigada pelos muitos convites à reflexão. Vou então tentar, partindo da ciência e passando pela filosofia, chegar à arte, detendo-me nos teus trabalhos a propósito da água. Estou perfeitamente de acordo, claro, quando distingues simples análises económicas de custo-benefício de outras abordagens da ciência e da investigação, da filosofia, por exemplo. A mim interessa-me sobretudo Walter Benjamin, ou seja, uma filosofia exploratória, que busca métodos, que através do estranhamento ajuda a conferir expressão às próprias coisas. A metafísica enquanto disciplina não me interessa de todo e arriscar-me-ia até a dizer que também a ti, nos teus filmes, ao invés da metafísica interessam mais os factos, concretamente sob a forma de histórias, tradições e mitologias ou fenómenos. Na verdade, não são menos parte integrante da realidade pelo simples facto de não serem, por assim dizer, feitos de madeira ou de pedra. Não me quero deter demasiadamente na palavra «metafísica», até porque tenho a certeza de que, no fundo, estamos de acordo neste assunto. No entanto, acho que aquilo que virar mar / meer werden aborda é algo eminentemente político, mais do que qualquer outra coisa que pertença ao sobrenatural. Os teus filmes proporcionam uma outra perceção dos factos, já que os transferes para uma forma de artificialidade, os montas e com eles formas constelações. A «arte como processo» foi a expressão que um teórico russo usou para designar isso.
 
Cordialmente,
Anne
 
PS: Para mim resulta muito bem a combinação do motivo de alguém a trepar uma cascata com esse tal processo da tua arte. No teu filme as palavras são: “É no subir do avesso o cachoeiro, que o homem aprende a parar o tempo.” A interrupção do decorrer do tempo, por conseguinte do decurso das coisas, parece-me ser uma qualidade especial do processo de criação dos teus filmes ensaísticos, na medida em que estes organizam o respetivo material em constelações, ao invés de o disporem em sequência. Nesse sentido, virar mar / meer werden é, muito simplesmente, a negação concretizada da linearidade temporal.
Vierte Postkarte Meer werdenFoto: Philipp Hartmann/Helena Wittmann © Flumenfilm
Cara Anne,
 
Sim, acertaste em cheio — é claro que «metafísico» não é a palavra certa. Consegues pôr melhor por palavras aquilo que pretendo transmitir com os meus filmes: em todos eles — e o filme é o meio linear por excelência — tento superar a linearidade temporal. E, através disso, tento criar algo que torne percetível nexos e causas ou, dito de uma forma mais banal, «qualquer coisa maior» — era neste sentido que estava a usar a palavra «metafísico» —, enfim, qualquer coisa que não conseguimos explicar com critérios científicos — frios —, mas que talvez possamos pressentir: o filme ou a arte em si «faz qualquer coisa connosco», proporciona-nos estímulos para refletir, franqueia-nos espaços de consciência, impressiona-nos enquanto observadores, ativa-nos. Nesse sentido — e já que no filme se fala também de problemas ambientais — , talvez este meio seja até mais convincente e mais sustentável do que alguma vez o conseguiria ser, por exemplo, um apelo no sentido de se empreender qualquer coisa contra as alterações climáticas.

E, a propósito de sustentabilidade e da «interrupção do decurso das coisas», como tu escreves: se em resultado das alterações climáticas a região de Dithmarschen não tardar a «virar mar» — e é desse princípio que partimos no filme —, enquanto na outra parte do mundo o sertão seca por completo, ou seja, se se aceitar o fim do mundo como algo mesmo inevitável, então o assunto da sustentabilidade também não tardará a estar arrumado. Nenhuma política ambiental deste mundo irá já conseguir evitar tais situações de declínio. Então, vendo as coisas por esse prisma, o único elemento sustentável, a única coisa que perdurará, será talvez a recordação que as pessoas guardarem desse seu mundo em declínio. E, claro está, também essa recordação só continuará a existir enquanto as pessoas visadas forem vivas e puderem recordar-se de alguma coisa. Depois disso, já não restará absolutamente nada.
Fünfte Postkarte Meer werdenFoto: Philipp Hartmann/Helena Wittmann © Flumenfilm
A menos que o filme conserve esse testemunho das paisagens de Dithmarschen e do sertão, antes de as terras ficarem submersas pelo Dilúvio ou se transformarem por completo num deserto. A menos que o filme registe o som e a imagem dos últimos habitantes, antes de a humanidade desaparecer destes dois lugares (e, num futuro talvez não muito distante, também de outros). Desse ponto de vista, este filme seria então o tal elemento sustentável. (No entanto, sabe-se lá durante quanto tempo se conservará um filme que consiste em dados digitais…)
 
Desejo-te uma vida longa, como — de um modo tão belo — se costuma dizer!
O teu
Philipp