Acesso rápido:
Ir diretamente para o conteúdo (Alt 1)Ir diretamente para a navegação secundária (Alt 3)Ir diretamente para a navegação principal (Alt 2)

Entrevista com Thomas Melle
Um palhaço com o cérebro frito

Thomas Melle
Foto: Gene Glover

Thomas Melle foi por diversas vezes nomeado para o Prémio Alemão do Livro. Em 2011 integrou a longlist com "Sickster", em 2014, com "3000 Euros", chegou à shortlist. No seu novo livro fala pela primeira vez e com total franqueza da sua doença psíquica.

De Tobias Becker para a revista Der Spiegel

O seu livro tocou-me como há muito nenhum outro conseguia: tive de lê-lo num café, no meio de outras pessoas, pois à noite, sozinho em casa, senti dificuldade na leitura. Deixou-me apreensivo, triste, mas por vezes não pude deixar de rir alto e bom som. Certas histórias aí relatadas são tão absurdas que, depois de ler, me sentia como se tivesse fumado uma ganza.

E ainda há quem diga que a literatura não tem qualquer efeito! Agora a sério, o que disse agrada-me e é bem verdade. Com efeito, fumar uma ganza pode favorecer a paranoia e é particularmente perigoso para pessoas como eu.

Escrever o livro deixou-o num estado de entusiasmo?

A escrita remeteu-me para um espaço de desnorteamento que me era já familiar, mas no qual entrei como se levasse vestido um fato de proteção: a postura da narração. Estava de novo tudo ali, à minha frente, como os bastidores de um palco que abandonara e tinham ficado esquecidos. Contudo, envergando o fato de proteção, não corria perigo.

Escreve neste livro acerca da sua perturbação bipolar.

Não me agrada essa expressão, por ser tão imprecisa. A sua função consiste em reunir sob uma mesma designação todas as formas que essa doença assume, mesmo as mais ligeiras, sem discriminar ninguém. No entanto, as pessoas não entendem o que «bipolar» significa e quase me quer parecer que até preferem que assim seja. «Maníaco-depressivo» é mais sincero. Primeiro estou maníaco, depois fico depressivo.

Thomas MelleFoto: Gene Glover
Qual o tipo exato de bipolaridade de que padece?

Chama-se bipolaridade de tipo I. É a forma mais extrema da doença e, para mais, tenho-a numa das variantes mais fortes, pelo que tanto a fase maníaca quanto a fase depressiva tendem a ser mais demoradas, durando até um ano e meio, e particularmente intensas. Além disso, chego a sofrer de alucinações. É a forma da doença em que se fica literalmente «louco», em que se dá cabo de si mesmo, se arruína a própria vida.

O que é que já fez durante essas fases maníacas?

Andava por aí, feito selvagem, começava a embebedar-me logo de manhã, contraía dívidas: fazia viagens, ia a restaurantes, andava de bar em bar. Também gostava de comprar livros, para os desbaratar logo no dia seguinte. Por vezes era tão pouco o dinheiro que tinha que despejava na boca uma embalagem de Maggi só para sentir o gosto de comida.

Como é que fazia para arranjar dinheiro?

Enquanto maníaco, dispõe-se de uma quantidade tremenda de energia e de capacidade de convicção, sem quaisquer inibições. Consegue-se até chegar a convencer um banqueiro de que dali a meio ano se irá estudar para Harvard. É-se um ator que se representa a si próprio.

Era agressivo?

Sim, por vezes. Cheguei a agredir fisicamente a minha editora de então. Num evento público, ela estava com um braço envolto em gesso, eu achei que o gesso era falso.

E então?

O gesso era verdadeiro. Depois disso tive de mudar de editora.

Mudou-se da Suhrkamp para a Rowohlt Berlin. Enquanto leitor, é-me permitido rir de tais episódios?

Não só pode, como deve, não há como não fazê-lo. Apesar de toda a vergonha e de todas as consequências trágicas que isso acarretou para mim. De outro modo, não há como lidar com isso. É um palhaço com o cérebro frito que anda por aí à solta na cidade, que vai acumulando uma catástrofe a seguir a outra. Um slapstick existencial.

Enquanto escritor, cede à tentação de descrever alguma das suas experiências de um modo mais original do que elas na realidade foram?

Não vejo nelas nada de original. Não quererá antes dizer «mais loucas»? Não, não descrevi nada de maneira ainda mais louca do que na verdade foi. É tudo verdade.

Chegou mesmo a achar que encontrara Picasso na discoteca Berghain, em Berlim?

Não o Picasso mais velho; Picasso enquanto jovem. O tipo que eu tomei como sendo ele estava sentado numa sanita, a falar com uns hipsters, no cinto tinha letras, a dourado, em que se lia «F.U.C.K». Entornei-lhe um copo de vinho tinto no colo, nunca suportei o Picasso e os seus desenhos.

Acreditou ter encontrado Thomas Bernhard em Wuppertal.

Num McDonald’s na estação de comboios, sim. Bernhard estava a comer um Big Mac. Mas não o apreciou.

É mesmo verdade que teve sexo com a Madonna?

Naquela altura estava convencido disso.

E como era ela, a Madonna?

Ainda me lembro de, no início, ter ficado surpreendido, ao constatar como ela estava enxuta, em boa forma, quase tal e qual como nas fotografias que tirara nua em finais da década de setenta.

Atualmente é capaz de rir a respeito disso?

Para mim, o mais importante é, tanto na vida como na escrita, não me tornar amargo nem cínico, apesar de tudo. Acho piada a certas coisas, mas uma piada que não deixa de ser absurda. Há qualquer coisa de assustador.

Que ideia, que conceção do mundo estava na base disso tudo?

Era o cliché paranoico de uma visão messiânica: tudo convergia na minha direção, rumo a mim, toda a história da humanidade. Em todos os textos, canções e documentos conseguia encontrar vestígios de que estava para vir alguém, por alturas da viragem do milénio, a quem o mundo se revelaria na sua essência. E esse alguém era eu. Em 1999, no meio da histeria do novo milénio, foi quando vivi o meu primeiro episódio maníaco. Seguiram-se outros dois, em 2006 e 2010.

Foram sobretudo as canções pop que desencadearam essas fases. O que faz com que tais canções pareçam destinadas a servir de ponto de partida para as alucinações?

Para um maníaco agudo, cujos pensamentos são demasiado fugazes, é muito difícil ler um livro de Tolstoi de uma ponta à outra. A brevidade das canções pop, pelo contrário, tem um impacte imediato, a facilidade com que ficam no ouvido, a lógica de insinuação das suas letras, para além da forma como se dirigem a quem as ouve: na maioria dos casos, o destinatário é um «tu». E cada «tu» poderá ser um «eu». O que faz com que se prestem mesmo bem a gerar pequenos impulsos no sentido da paranoia.

Por que razão estava a sua atenção tão fixada em artistas célebres?

Nesse aspeto sou um produto do tempo em que vivo. Eles acompanham-nos a toda a hora, publicam no Twitter o que comem ao almoço. Projetamo-nos nas vidas deles e queremos novidades a toda a hora.

Bernhard não usa o Twitter. Está morto.

Temos de olhar para isso no contexto messiânico que referi: secretamente, era eu a celebridade. Todas essas pessoas, cujas obras falavam a respeito de mim, acorriam para me ajudar. Apareciam por breves instantes na rua, olhavam em redor, transmitiam-me sinais. Mesmo os mortos, que aparentemente não o estavam. Algures nos Alpes, achava eu, haveria uma qualquer estância onde viveriam o Thomas Bernhard, a Ingeborg Bachmann, o Samuel Beckett.

Soa a uma ideia que serviria de ponto de partida para um romance fantástico.

Só que tratava-se da minha vida... Como se poderá imaginar, o papel de um tal messias é tudo menos fácil; de repente, à nossa volta, tudo gira, uma espiral que sucumbe à escuridão.

No seu livro coloca a pergunta: «Como se conta uma história acerca de si mesmo como um idiota?»

Olho para quem fui como a figura principal de uma série televisiva meio absurda. A tal ponto que acabo por pensar: «Mas esta série é a minha própria vida!» E aí a ironia é sempre possível. No entanto, seria errado, quase obsceno, relatá-la apenas enquanto tragicomédia, com muito humor. Afinal, trata-se de um drama com muita amargura.

Tentou, por duas vezes, pôr fim à sua vida.

Se existe alguma certeza na vida de um maníaco, é a depressão que se segue à fase maníaca. Quanto mais intensa e demorada a mania, mais intensa e demorada será também a depressão. Esta última torna-se muito pronunciada na medida em que se tem consciência da vergonha, do terror de não termos sido nós mesmos, de termos arruinado a nossa própria reputação, a nossa vida.

Com que frequência teve de recorrer aos serviços de psiquiatria?

Com certeza umas dez vezes. Foram internamentos que chegaram a prolongar-se durante meses, aquando das depressões, mas que noutros casos duraram apenas alguns dias. Nas fases maníacas não se reconhece a presença da doença, eram amigos que insistiam para que fosse internado, por vezes até com a ajuda da Polícia. Olhando hoje para a situação, foi a atitude certa a tomar, mas na altura foi horrível.

Como era o relacionamento com outros pacientes?

Como louco é frequente conseguir-se reconhecer a loucura dos outros; já a própria passa-nos completamente despercebida. A uma rapariga que tomava o Osama Bin Laden por seu pai disse eu, na cara, que isso não era verdade. No entanto, nessa mesma altura andava convencido que era filho do Sting, a estrela pop.

A ala de psiquiatria é um lugar envolto em mitos.

Quando já a conhecemos, a ala de psiquiatria é o lugar mais aborrecido do mundo. Um lugar de grandes tensões, mas também de um grande vazio: por vezes dos piores ataques de fúria e das piores hostilidades. Na maior parte do tempo, porém, é um veículo em ponto morto, uma estrutura sem sentido. Está-se à espera de coisa nenhuma. Um pouco como um serão a assistir a uma peça de teatro de Christoph Marthaler, só que ao longo de semanas e meses.

Quem sofre de depressão é olhado de lado. Há de novo a tendência de tratar os doentes psíquicos como criminosos.

Como é que lidou com o facto de ninguém perceber ao certo o que se passa de errado no interior da cabeça de um maníaco-depressivo?

Quando o efeito dos medicamentos se faz sentir, não é necessária qualquer prova. É mesmo uma questão de vida ou de morte. Na verdade, é inquietante constatar que, em relação a certas questões, nem mesmo os médicos fazem a mais pequena ideia. Pretendo, através do meu livro, retirar à doença um pouco desse seu aspeto sinistro, lançar alguma luz que esclareça o horror, fornecer um módulo narrativo que tente explicar algo que, no fundo, é completamente incompreensível.

Ficou satisfeito com os cuidados recebidos na ala psiquiátrica?

Parte do que ali acontece é desumano. Do ponto de vista mental, é-se desligado, do ponto de vista físico, é-se fixado, e depois há uma visita rápida por parte do médico. Como nos piores estereótipos. Seria preciso mais dinheiro, mais instalações, mais pessoal. De igual modo, seria importante para a nossa sociedade que se repensasse o modo como se lida com antigos pacientes, os que já passaram pela experiência da ala psiquiátrica. Atualmente são pessoas estigmatizadas. Muita gente pensa que, tendo-se estado uma vez doente, é-se doente para todo o sempre. Em teoria, as pessoas demonstram muita abertura, claro, mas na prática são bastante tacanhas. E nos dias que correm isso tem piorado.

Em que se baseia para essa constatação?

Também as doenças estão sujeitas a modas e tendências. Na primeira década deste milénio, quando as depressões de alguns desportistas se tornaram conhecidas, como foi o caso de Sebastian Deisler ou Robert Enke, gerou-se uma vaga de empatia. Só que isso já acabou. Quem sofre de depressão é olhado de lado. Chega mesmo a haver de novo a tendência de tratar os doentes psíquicos como criminosos. E, no entanto, a maioria destas pessoas é apenas gente arruinada que gostaria de conseguir voltar a pôr-se de pé. Existe uma histeria em relação à necessidade de explicação que, em si mesma, é completamente maníaca.

Está a referir-se à discussão que se seguiu ao atentado em Munique em julho de 2016.

Não apenas a isso. Observei com atenção o modo como em 2015 decorreram as discussões em torno do piloto da Germanwings. De repente, a depressão, de um modo que é contrário à sua essência, serve de justificação para um crime. Enquanto pessoa afetada pela doença, sinto-me visado. Face ao clima atual, nenhum desportista tomaria a iniciativa de assumir o seu estado depressivo.

Como é que explica esta nova tendência?

Naqueles que, de um momento para o outro, cometem um desvario poder-se-á presumivelmente diagnosticar sobretudo perturbações narcisísticas da personalidade. No entanto, tais perturbações não são raras; nos tempos em que vivemos, a era das selfies, são até um problema que se estende à generalidade da sociedade. Ao colocar a ênfase na depressão do autor de um crime, cria-se uma distância entre o problema e a sociedade. O problema é remetido para a alçada do hospital, cria-se um distanciamento clínico, ao mesmo tempo que no discurso se estabelece uma estigmatização ainda mais profunda.

Quais as causas da sua doença?

Certos investigadores referem que o número total de células nervosas que os doentes bipolares possuem no tronco cerebral e no tálamo é superior em um terço em relação às pessoas saudáveis; em simultâneo, porém, parecem dispor de menos massa encefálica cinzenta e branca em determinadas regiões, por exemplo no córtex cerebral. Assim, há demasiada coisa a acontecer no local onde a perceção sensorial se concentra e as atividades cerebrais são reguladas, é como um formigueiro. Como se todo o conjunto fosse demasiado poroso em relação ao exterior, demasiado aberto, pouco protegido, o córtex é demasiado delgado.

A minha pergunta era mais no sentido de saber por que razão a doença o atingiu a si em particular?

Para isso teria de lhe ler o livro inteiro, que é precisamente uma busca pelos motivos, mas com perfeita consciência de que jamais conseguirei conhecê-los por completo. Ao fim e ao cabo, um projeto romântico.

Escreve que muito doentes bipolares teriam uma história prévia de consumo de drogas. Também é o seu caso?

Tenho uma tendência para o consumo de álcool, por vezes até em excesso, mas de resto nada de outras drogas.

Refere-se a si mesmo como um viciado em informação. Que efeito têm os e-mails, o Twitter e o Facebook sobre um maníaco?

Há um input constante, um desfiar que se esmiuça em cada uma das fibras. Acima de tudo, servem de válvulas, mas com consequências devastadoras, pois é demasiado fácil ceder a um ímpeto e emitir, mundo afora, um disparate qualquer. Um impulso e um acesso à internet e poder-se-á ter estragado tudo com certas pessoas para o resto da vida.

Encontra na sua biografia motivos que possam explicar a doença?

Não acredito em estradas de sentido único, que explicam tudo mediante uma só causa e reduzem tudo às experiências da infância. Se assim fosse, haveria muito mais doentes bipolares procedentes de meios difíceis do que de outros meios mais privilegiados. E não é o que acontece. Os três a cinco por cento da população – consoante a fonte – que irão, no decurso da sua vida, sofrer de uma das formas da doença bipolar estão espalhados por todas as camadas da sociedade.

Mas existem motivos na sua biografia.

Claro que sim, a monocausalidade é um disparate, mas também a anticausalidade o é. Provenho de um meio difícil, pequeno-burguês, tive um padrasto que era alcoólico, frequentei depois um colégio jesuíta em Bona.

O AloisiusKolleg, uma escola de elite, onde também andaram Thomas de Maizière, Florian Henckel von Donnersmarck, Johannes B. Kerner.

Sim, o filho de proletários entre os ricos e a nobreza. Fui o melhor da turma, prossegui os estudos superiores, desde cedo quis ser escritor. Há uma tese que aponta para a possibilidade de a bipolaridade estar relacionada com uma tendência da pessoa para um esforço de adaptação excessivo. Quer-se tanto estar à altura do que esperam de nós que se acaba por sucumbir, esgotado face às exigências. Anda-se constantemente para cá e para lá, dividido entre esses dois polos, a sobreadaptação e a obstinação da individualidade.

O colégio interno reforçou o seu anseio por um sentimento de pertença.

Bem, a coisa agora assume contornos de terapia, e isso deixa-me receoso. Dizer qualquer coisa a esse respeito em poucas frases seria bom para si e para a revista Der Spiegel, mas seria mau para mim. Precisaria de submeter isso a um tratamento literário para conseguir ser suficientemente preciso.

Há alguns anos, o Aloisiuskolleg esteve nas primeiras páginas dos jornais por causa de um escândalo de abusos sexuais. Também foi afetado?

Não, de modo direto não. Mas foi com os jesuítas que começou o meu próprio Bildungsroman, o meu romance de formação pessoal. O escândalo acabou por abalar a base da narrativa que é a minha vida. Esmigalhou a solidez dessa base.

O seu segundo episódio maníaco surgiu no decurso de um dos seus projetos teatrais. Foi uma coincidência?

O teatro é, por excelência, um ambiente de copofonia, sobretudo na província, além de proporcionar também solo fértil para perturbações psíquicas. Durante os ensaios estão em jogo fenómenos psicodinâmicos que se assemelham aos de uma família disfuncional, só que ainda mais acelerados. Recordo-me de um ensaio em que todos os participantes se passaram, desataram aos gritos uns com os outros, houve uma atriz conhecida que mostrou os seios. Até eu, aquele que na verdade é louco, pedir a todos que se acalmassem.

De que modo é que a doença moldou os seus romances?

Há sósias de mim mesmo em tudo o que escrevo, incluindo as peças para teatro. O jornalista Magnus do romance Sickster é um tipo maníaco e psicótico. Anton, o antigo estudante de Direito de 3000 Euros, que se torna um sem-abrigo e contrai dívidas, bate no fundo durante um episódio maníaco. No entanto, no caso de Anton, não o refiro assim tão diretamente; quis permitir-lhe manter a dignidade.

Escrevia durante as fases da doença, fossem as maníacas ou as depressivas?

Só nos anos em que a doença não se manifestava. Na fase depressiva não se faz absolutamente nada, na fase maníaca só se faz disparates.

Seria capaz de apostar que muitas das passagens de Sickster foram escritas por um maníaco. Faz aí malabarismos com os significados das palavras, cria metáforas, diferentes planos do enredo, um romance a altas rotações.

É claro que as minhas experiências se refletiram na forma do romance. No entanto, lamento desapontá-lo, mas os textos que surgem nas fases maníacas são, na melhor das hipóteses, um emaranhado dadaísta.

A literatura costuma esbater as fronteiras entre a realidade e a ficção. Algo de semelhante se passa na cabeça de alguém com uma doença psíquica. O trabalho do escritor será perigoso para quem sofre de bipolaridade?

Com efeito, existem semelhanças. Até porque a literatura tenta sempre atribuir múltiplos significados às palavras e enriquecê-las com ambivalências. Quando alguém bipolar escreve esse tipo de literatura, tal pode produzir efeitos bem singulares na sua psique porosa. A ficção infiltra-se na realidade e saqueia tudo o que vê. Ocorre um excesso de significação, um cancro semântico.

Deveria parar de escrever.

Desculpe?! Para mim o mais difícil sempre foi a vida, não a escrita. Escrever era, antes de mais, um modo de conferir ordem às coisas. Ou de recriar uma desordem, para que esta deixe de parecer assustadora.

Diz-se que há muita gente bipolar entre os escritores e os artistas.

É provável que sim. A psiquiatra americana Kay Redfield Jamison, ela própria bipolar, escreveu a esse respeito. Herman Melville terá sido maníaco-depressivo, tal como Heinrich von Kleist e Virginia Woolf. E, entre os mais recentes, Sarah Kane.

Num ensaio da escritora Sibylle Mulot, publicado na revista Der Spiegel há alguns anos, falava-se dos «maníaco-criativos». O que é que bipolares e artistas têm em comum?

Talvez seja o facto de ambos tenderem para o pensamento «em grande», fazem tudo «larger than life». São recetivos a momentos de êxtase, gestos grandiosos, conceitos transbordantes. No entanto, a maioria dos artistas bem-sucedidos que têm a doença sofre de bipolaridade de tipo II, ou seja, têm as manias mais atenuadas. São «apenas» hipomaníacos, não se prejudicam sem a consciência de que estão a fazê-lo. Conseguem, até certo ponto, concentrar toda a sua atenção no trabalho.
Thomas MelleFoto: Gene Glover
 

Tenho de reconquistar a minha própria história. Tenho de me estigmatizar para me poder desestigmatizar

Isso quer dizer que demasiada loucura prejudica, mas um pouco até ajuda.

Recuso aceitar a ideia estereotipada da genialidade e da loucura. Acaba por, ao mesmo tempo, glorificar e demonizar quem sofre da doença. É como acontece com os «cientistas loucos» da banda desenhada e dos filmes: afasta-os ainda mais das pessoas normais, saudáveis, capazes de funcionar.

Há uma porção de loucura presente no mito do artista.

Isso pode até ser verdade, do ponto de vista de uma perceção externa. O mito serve-se do anseio que as pessoas têm por intensidade, emoção, excesso. No entanto, elas esquecem-se de que o preço a pagar é elevado. De bom grado me desvincularia, com efeito imediato, da minha condição de membro deste clube ilustre.

De que modo se relaciona o seu novo livro com os anteriores?

É literatura, só que tudo ali é verdade, nada daquilo foi inventado. Não se trata de criar um efeito, de apresentar as coisas de um modo drástico, trata-se da minha vida, da minha doença, no seu estado puro. Tenho de reconquistar a minha própria história, torná-la narrável e, desse modo, contrariar o tabu. Tenho de me estigmatizar para me poder desestigmatizar.

Até agora, havia muita gente que soubesse da sua doença?

A questão é que eu próprio nunca sabia quem já sabia. Fui cada vez mais dando-me conta de um certo sussurro. A doença é um tabu, as pessoas ficam embaraçadas, sem saber que perguntas podem fazer, ou então, depois de virarmos as costas, limitam-se a julgar-nos. Quem quiser saber alguma coisa, pode agora ler a esse respeito.

E como é que as coisas lhe correm atualmente?

Respiro fundo.

Voltou a ser outra vez o mesmo de antes?

Esse nunca existiu. Mas há uma pequena brasa, um cerne que resta do eu, que estava presente antes de todas as doenças e a que me mantenho agarrado. É como uma música, um êxito de tempos passados, Peter Maffay: algures, bem no fundo de mim, mantive-me o estudante de 1999. Aquele que era antes de a doença se manifestar. Até nem acho isso desagradável. Não tenho de crescer da mesma maneira que todos os outros.

Quem ou o quê é que o salvou?

Houve um amigo que se manteve sempre ao meu lado. Houve o meu agente. Houve, apesar de todas as complicações, a minha mãe. E houve a boa fortuna de um amor em tempos que foram dos mais sombrios. Além disso, houve também o «argumento indie», como eu lhe chamo: um médico-chefe chamou-me a atenção para o facto de o lítio surgir naturalmente na natureza, pelo que nenhuma grande empresa farmacêutica poderá lucrar muito com ele. Então pensei: «Muito bem, isso poderá ser uma ajuda».

Que consequências têm os medicamentos?

Salvam-me a vida, mas ao mesmo tempo funcionam contra mim. O lítio desencadeou uma acne bastante intensa, razão pela qual o substituí pelo ácido valproico, só que também esse tem inúmeros efeitos secundários: aumento de peso, queda de cabelo, apatia, uma atenuação dos sentimentos e dos pensamentos. Houve uma altura em que a minha líbido era quase inexistente.

Que efeito teve a medicação na sua escrita?

Não sei ao certo, mas por vezes questiono-me até que ponto o meu estilo não acabou por ser regulado para alguns graus mais abaixo, se tornou mais «clássico». Será apenas a idade, o fim da tempestade e ímpeto, do Sturm und Drang, que me leva a escrever com menos irascibilidade, de um modo menos estridente e expressivo? Ou será o ácido valproico, que serve afinal para limar os picos aguçados da vida afetiva, tanto para cima quanto para baixo? Suspeito que a medicação se infiltre, gota a gota, nas minhas frases, até ao nível da estrutura. No entanto, sinto-me melhor, cada vez melhor. A alternativa poderia ser subir pelos ares e acabar por ser consumido pelas chamas.
 
Tem medo de uma recaída?


Espero e, sim, posso dizer que rezo para ser poupado a isso. Contudo, se alguma vez voltar a ter um episódio maníaco, haja alguém que me ponha na mão o meu livro. Poderia ser uma salvação.

Senhor Melle, os nossos agradecimentos por esta conversa.