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Uma experiência de escrita
Pode a inteligência artificial contar histórias?

Autores e Inteligência artificial
Imagem: © Canva

Coisas estranhas acontecem quando a inteligência artificial tenta escrever uma história. O autor Daniel Kehlmann conta a sua experiência em ser coautor de um conto com um algoritmo, refletindo sobre as potencialidades desta colaboração, e também sobre as suas limitações.

De Fabian May

No início de 2020, o escritor e romancista germano-austríaco Daniel Kehlmann escreveu as linhas de abertura de um conto: "Estava à procura de um apartamento. Não estava a correr bem”. Das profundezas da computação em nuvem, o seu coautor - um algoritmo de escrita chamado CTRL - respondeu-lhe desta forma: "Ei meu, tens um rabo apertado, e não tens medo de nada". Essa, aparentemente, foi a visão do CTRL sobre o enredo. Kehlmann tentou manter-se no bom caminho, respondendo: "Isso é verdade, mas sobre o apartamento..." Mas o seu coautor deixou de colaborar.

Nem sucesso nem fracasso

Daniel Kehlmann descreveu estas experiências com prosa mecânica em fevereiro na palestra "Stuttgart Future Speech", a primeira de uma nova série em que personalidades da ciência, cultura e política refletem sobre o futuro. O discurso “Eu e o meu algoritmo” foi agora também publicado em livro. Nele, Kehlmann descreve a sua experiência: em fevereiro de 2020, voou para Silicon Valley para se encontrar com o algoritmo CTRL e o seu criador Bryan McCann, a convite do Open Austria.

Kehlmann não considera esta experiência de escrita um fracasso, uma vez que produziu vários fragmentos belamente absurdos. Mas torna-se claro que a inteligência artificial tem as suas limitações quando se trata de criar enredos ou desenvolver personagens. Nas relações diretas com um algoritmo, compreende-se gradualmente que não se está "a lidar com um ser humano disfarçado”, disse Kehlmann no seu discurso, "mas com algo muito mais estranho - uma entidade de resolução de problemas sem um interior". De forma concisa, Kehlmann resume: "Nota-se que não há ninguém em casa".

A Inteligência artificial faz teatro

Um salto para o palco do pequeno teatro do Styvanda Theatre em Praga, ou melhor, em tempos de pandemia, para uma transmissão ao vivo na internet. Em fevereiro, a peça AI: Když robot píše hru (AI: Quando um robô escreve uma peça) teve a sua estreia virtual. Por detrás está um grupo de linguistas, peritos em informática e teatro que permitiu à inteligência artificial escrever 90 por cento da sua peça.

Também aqui foram introduzidas algumas reviravoltas completamente absurdas do enredo, mas depois, dá-se um golpe de génio da IA, vindo das profundezas do seu "inconsciente", como Kehlmann lhe chama. "Vou contar-vos o segredo da representação”, diz o robô. “Mas não tenho a certeza se o quero revelar”.

Lições desta experiência de escrita com a Inteligência artificial

Estas são apenas duas das muitas experiências de escrita a nível mundial que mostram o caminho a seguir da inteligência artificial enquanto geradora de texto. Em primeiro lugar, constata-se que a humanidade recupera da inteligência artificial o que a própria humanidade colocou online. O algoritmo CTRL foi parcialmente treinado com texto retirado do Reddit. Esta popular plataforma tem fóruns de discussão sobre quase todos os tópicos, incluindo alguns que podem ser ofensivos. Se os programadores não proibissem abertamente algumas expressões, a inteligência artificial CTRL poderia reproduzir rapidamente o discurso do ódio. Afinal de contas, falta à inteligência artificial uma compreensão inata do que os humanos consideram inadequado.

Em segundo lugar, a inteligência artificial não tem qualquer conceito de subtileza linguística. Apesar de todos os dados utilizados para a sua formação, faltam-lhe pistas sobre o que é importante ao contar uma história, fazer uma piada ou tentar encontrar uma metáfora adequada. Isto exigiria conhecimento contextual, um catálogo de sentimentos e experiências construído ao longo do tempo.

Então o que podem os algoritmos fazer? Podem calcular muito bem e produzir textos estatisticamente normais. Por exemplo, é mais provável que a palavra "eu" num texto seja seguida da palavra "meu" ou "acreditar"; palavras subsequentes como "veneno" ou "lâmpada" são bastante improváveis, explica Kehlmann no seu discurso.

Falta de uma consistência narrativa

Kehlmann acrescenta que a inteligência artificial carece de "consistência narrativa". O linguista checo Rudolf Rosa, que fez parte da equipa por detrás da peça de Praga, chama-lhe "falta de consistência narrativa”. Parte do problema: tanto o algoritmo CTRL usado por Kehlmann como o sistema GPT-2 mais avançado do OpenAI usado em Praga sofrem de perda de memória. Só se lembram das últimas 500 a 1000 palavras, esquecendo tudo o que foi dito antes disso. O algoritmo CTRL bloqueia regularmente após uma página de texto.

A inteligência artificial, com as suas inabilidades óbvias, é também um espelho do que é, de facto, contar histórias. Significa muito mais do que encadear superficialmente palavras e frases de acordo com as distribuições de probabilidade. Os críticos gostam de falar de "urgência", "significado existencial" de um texto ou da "própria voz" dos autores. Em termos mais técnicos: "Narrar significa planear com antecedência", segundo Daniel Kehlmann. "Ou ainda mais: significa criar uma coerência interior que percorre todas as frases, parágrafos e voltas. É exatamente isso que o algoritnmo CTRL não pode fazer, por definição. O algoritmo CTRL procura a reviravolta mais provável da língua, mas não do enredo”.

Será que kehlmann falhou com a IA?

Assim, o que a inteligência artificial alcança artisticamente é bastante sóbrio. Mas talvez seja também uma linha de visão errada perguntar, de todas as coisas, como é que a inteligência artificial se sai bem no campo das competências humanas nucleares. Talvez devêssemos antes explorar a estética que ela traz consigo, sugere o poeta digital e autor alemão Hannes Bajohr.

Bajohr tem uma visão crítica da experiência de Kehlmann - basicamente, diz ele, o autor falhou com ainteligência artificial. "Penso que Kehlmann não se envolve realmente com a inteligência artificial, pelo menos não esteticamente", diz Bajohr. "Não lhe ocorre que tenha de escrever literatura de forma diferente com máquinas, e que talvez tenha mesmo tenho de fazer um tipo diferente de literatura." Basicamente, ele usa a inteligência artificial como uma espécie de "bot Kehlmann" que, tal como ele próprio, está orientado para o realismo literário.

Novas perspetivas para a literatura

Bajohr aponta o grande potencial da inteligência artificial para a escrita experimental ou surrealista. Como no caso de Allison Parrish, poetisa e programadora de Nova Iorque: ela deixa que os algoritmos inventem novas palavras entre as existentes. Por exemplo, "North", "East" e "West" tornam-se "eaurth" ou “woerth”.

Abordagens não convencionais como estas são muito mais produtivas para o trabalho artístico com a inteligência artificial, diz Bajohr. "Metáforas ou piadas - bem, isso é mais complicado. Mas não sei se isso é necessário. É mais interessante ver o que a inteligência artificial pode fazer bem e que tipo de literatura resulta disso"