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Prémio do Livro Alemão 2021
Uma mulher entre mulheres

Antje Rávik Strubel, vencedora do Prémio do Livro Alemão 2021
© picture alliance/dpa/dpa POOL | Sebastian Gollnow

Blaue Frau, de Antje Rávik Strubel, foi escolhido como o melhor romance do ano. Em 2021, o Prémio do Livro Alemão foi atribuído a uma escritora ambiciosa e empenhada.

De Marie Schmidt

A escritora e tradutora Antje Rávik Strubel foi agraciada com o Prémio do Livro Alemão na passada segunda-feira, dia 18 de outubro. O prémio, que distingue o melhor romance do ano, foi atribuído a Blaue Frau (A mulher azul), a história de uma mulher que, após ter sido violada, tem de recuperar a sua capacidade de pensar e falar. Para o fazer, refugia-se num bloco de apartamentos em Helsínquia, no extremo norte da Europa. A partir daí, a narrativa regressa no tempo e reflete sobre as experiências que Adina teve como estudante e estagiária em Berlim e numa estância de férias na região de Uckermark. Com muitas das pessoas que encontra, as origens checas de Adina tendem a espoletar imagens em vez de suscitar um interesse humano genuíno.

Falando sobre violência

Rávik Strubel cria neste livro uma estrutura temporal não linear composta por antecipações e reversões, pondo a linguagem jurídica em que as agressões sexuais são julgadas em contraste com a experiência da sua protagonista, que é forçada a procurar exaustivamente palavras para expressar o que aconteceu. A "mulher azul" que dá ao livro o seu título aparece em capítulos intercalados ao longo do romance; uma figura etérea que é um contraponto ao narrador, figura com quem fala sobre como escrever sobre violência.

Blaue Frau é uma obra de elevadas ambições formais e estéticas que provavelmente é melhor compreendida por um público já sensibilizado pelo movimento #MeToo, embora a natureza auto-reflexiva da sua escrita seja um impedimento ao seu aparecimento em debates mais recentes.

Em todo o caso, Rávik Strubel não se esquivou a entrar na arena política no seu discurso de agradecimento. Ele protestou contra o facto de tanto os desejos de sensibilidade à violência estrutural - que são de facto óbvios - como as designações auto-escolhidas serem vilipendiadas como "politicamente correcto".

Escrita feminina

A autora citou Ilse Aichinger, dizendo: "Talvez o óbvio, para permanecer óbvio, deva primeiro tornar-se novamente incompreensível." Também referiu Virginia Woolf e agradeceu à sua mentora, Silvia Bovenschen, que morreu em 2017 e a quem o livro é dedicado. A ela devemos um estudo que ainda hoje é canónico, Die imaginierte Weiblichkeit (Feminilidade imaginada), de 1979, sobre o que poderia ter silenciado as vozes das mulheres na história da literatura. Rávik Strubel, que traduziu Joan Didion e Lucia Berlin para alemão, refere-se assim à escrita feminina que não reage simplesmente a isto com auto-afirmação, mas está decididamente interessada nas incertezas e na mutabilidade da linguagem e das relações sociais.

O Prémio do Livro Alemão é único na medida em que o seu júri é composto por membros da associação de livreiros, por organizadores de eventos e por críticos literários. Knut Cordsen, crítico literário da Bayerischer Rundfunk, presidiu ao júri este ano. A cerimónia de entrega do prémio em Römer, Frankfurt, é o primeiro grande evento da semana da Feira do Livro de Frankfurt, e em 2021 foi possível realizá-la novamente perante uma pequena audiência. Os restantes autores nomeados para a shortlist, Norbert Gstrein, Monika Helfer, Christian Kracht, Thomas Kunst e Mithu Sanyal também estiveram presentes.