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Norbert Gstrein
Quando eu era jovem

Carl Hanser Verlag, 2019
352 páginas
978-3-446-26371-0

EXCERTOS:

 

Als ich jung war

Sobre o livro

© 2019 Carl Hanser Verlag GmbH & Co. KG, Munique

De início, apenas um beijo, nada mais. Mas haverá sequer isso, «apenas um beijo»? A infância e adolescência de Franz são passadas na região austríaca do Tirol. Fotografa casais de noivos no «mais belo dia das suas vidas», até que numa dessas festas de casamento a noiva perde a vida. E que terá isso a ver com Franz? O facto de ter acontecido no mesmo local onde, semanas antes, ele beijara uma rapariga? Confrontado com estas questões, Franz acaba por partir para a América, aparentemente em fuga. Porém, também aí ocorre, passados alguns anos, a morte de um seu amigo, cuja vida poderá ter sido pautada por atos violentos, embora a inocência seja uma possibilidade igualmente provável. Que sabemos nós dos outros? E de nós próprios? Movido pela nostalgia de uma felicidade almejada , o protagonista do romance de Norbert Gstrein trilha caminhos em que todas as certezas se tornam questionáveis.
 

DIREITOS INTERNACIONAIS 

Friederike Barakat
Carl Hanser Verlag, Munique
friederike.barakat@hanser.de
Direitos de tradução vendidos para as línguas francesa, grega e turca


Crítica

Paulo Rêgo (tradutor)

Quando eu era jovem gira em torno de duas mortes — ocorridas em momentos distintos da vida de Franz —, mas mais do que isso em torno de todas as circunstâncias que as precedem.

Há mais de uma década, após uma festa de casamento conturbada, uma noiva caiu de um precipício. O que de início parece um acidente, ou talvez um suicídio, suscita dúvidas que levam a que a investigação explore a possibilidade de homicídio. Embora apenas tenha estado a fotografar os noivos nesse dia junto ao precipício, paira sempre a dúvida sobre se o envolvimento de Franz se terá ficado por aí. Mais tarde, Franz parte para os EUA, onde irá trabalhar como professor de esqui no Wyoming. Aí trava amizade com Jan, um aluno bastante mais velho que, anos mais tarde, se suicida, embatendo deliberadamente numa árvore ao praticar esqui.

Regressado ao Tirol, Franz terá de lidar não só com as dúvidas que subsistem acerca da morte de Iris — a noiva caída do precipício —, como com as consequências de, semanas antes, noutra festa de casamento, ter beijado Sarah — uma menor que ele acreditava ser mais velha do que na realidade era — contra a vontade desta.

As circunstâncias que precedem a morte de Iris e de Jan, bem como as do próprio avanço (ou abuso?) sobre Sarah, jamais deixam de ser uma constante da narração, realizada na primeira pessoa por Franz, um narrador cuja credibilidade se afigura por vezes questionável. A identificação e simpatia geradas no leitor em relação a Franz não ajudam a manter a objetividade necessária na apreciação dos factos (cuja apresentação depende obviamente do filtro do narrador). Tal pode não ser ideal para um policial (que o livro não deixa de ser), mas serve o propósito de explorar a vida psicológica do protagonista.

Não é com indiferença que o leitor reage às experiências passadas que terão feito de Franz o que é: abusos humilhantes de que foi vítima, um ambiente familiar em que o pai despreza a mãe e esta, infeliz, procura consolo no álcool… A nostalgia por tempos passados que o título do livro sugere é melancólica, anseia por uma felicidade não vivida. A felicidade (idealizada) parece projetar-se na figura de Sarah.

No fundo, Franz e Jan são personagens aparentemente normais à superfície, mas que se desviam de normas sociais e apresentam óbvias dificuldades no relacionamento com o sexo oposto. Franz vai gradualmente conhecendo os traumas passados de Jan, mas vai-se também revelando: por exemplo, toma consciência de que a vítima que foi poderia transformar-se em predador.

Norbert Gstrein tematiza em Quando eu era jovem aspetos sombrios da sexualidade, mas também sentimentos de culpa. Numa época em que tantas vítimas de abusos corajosamente se assumem como tal e em que discussões sobre toxicidade nos relacionamentos assumem merecida relevância, o autor não nos propõe vítimas dotadas de uma qualquer superioridade moral, levantando antes questões como: «Quanto poderá alguém conhecer acerca dos seus próprios abismos? Ou dos de quem lhe é próximo?»

A mestria, segurança e delicadeza com que Gstrein narra a história e aborda esta temática são, por si só, argumentos que justificam que este livro tenha uma tradução em Portugal. Afinal, quantos livros são capazes de, como este, despertar o inquietante desconforto que perdura após o fim da leitura?


Norbert Gstrein

Norbert Gstrein Foto: © dpa Norbert Gstrein nasceu a 3 de junho de 1961 em Mils bei Imst, na Áustria. Estudou Matemática em Innsbruck. Em 1988 estreou-se na narrativa literária com a publicação de Einer. Em 1992 seguiu-se o primeiro romance, Das Register. As primeiras obras que publicou passavam-se todas na região austríaca do Tirol, de que é originário. Gstrein recebeu diversos prémios pela sua obra literária, entre os quais o Prémio Literário de Rauris, o Prémio Ingeborg Bachmann, o Prémio Alfred Döblin e o Prémio Uwe Johnson. Em 2019 foi-lhe atribuído o Prémio do Livro Austríaco pelo romance Als ich jung war. Norbert Gstrein vive em Hamburgo.


Prémios:
2019: Prémio do Livro Austríaco para Als ich jung war
2013: Prémio Anton Wildgans da Indústria Austríaca
2004: Prémio Franz Nabl
2003: Prémio Uwe Johnson
2001: Prémio de Literatura da Fundação Konrad Adenauer
1999: Prémio Alfred Döblin
1994: Prémio de Fomento da Fundação Friedrich Hölderlin
1994: Prémio de Fomento do Prémio Friedrich Hölderlin
1994: Prémio de Literatura de Berlim
1989: Prémio de Literatura da Cidade de Bremen
1989: Prémio Rauriser Literaturpreis
1989: Prémio Ingeborg Bachmann

Obras publicadas (seleção):
Als ich jung war. Romance. Carl Hanser Verlag, München, 2019 
Die kommenden Jahre. Romance. Carl Hanser Verlag, München 2018
In der freien Welt. Romance. Carl Hanser Verlag, München, 2016
Eine Ahnung vom Anfang. Romance. Carl Hanser Verlag, München, 2013 
Die ganze Wahrheit. Romance. Carl Hanser Verlag, München, 2010
Die Winter im Süden. Romance. Carl Hanser Verlag, München, 2008
Das Handwerk des Tötens. Romance. Carl Hanser Verlag, München, 2003
Die englischen Jahre. Romance. Suhrkamp Verlag, Frankfurt, 1999 (Os anos ingleses. Tradução de Paulo Rêgo. Difel, 2004)
Das Register. Romance. Suhrkamp Verlag, Frankfurt, 1992