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Peter Stamm
Terra afora

S. Fischer Verlag, 2016
223 páginas
978-3-10-002227-1

EXCERTOS:

Weit über das Land

Sobre o livro

© 2016 S. Fischer Verlag, Frankfurt am Main

Ao deixar tudo para trás, estar-se-á a começar de novo?

Um homem levanta-se de onde está sentado e afasta-se. Por momentos, Thomas ainda hesita, mas a seguir deixa a sua casa, a mulher e os filhos. Com um sorriso repleto de espanto no rosto, prossegue simplesmente e desaparece. Astrid, a sua mulher, começa por se questionar onde Thomas terá ido, a seguir quando ele voltará, por fim se ainda estará vivo.

Toda a gente o conhece: o desejo de fugir, de largar a vida de sempre, de poder ser outra coisa, porventura o que realmente se quis ser. Peter Stamm é um mestre na narração destes sonhos que simultaneamente exercem fascínio e temor, que simultaneamente oferecem as possibilidades mais belas e implicam as perdas mais terríveis. Terra afora é um romance que coloca a mais quotidiana de todas as interrogações: aquela em que nos questionamos acerca da nossa própria vida.
 

DIREITOS INTERNACIONAIS (PORTUGAL)

Sandra Rodericks 
Agentur Ute Körner, Barcelona
sandra.rodericks@uklitag.com 
Direitos de tradução vendidos para as línguas espanhola, inglesa e árabe


Crítica

Paulo Rêgo (tradutor)

Thomas e a família regressam a casa, após algumas semanas de férias que decorreram com harmoniosa normalidade. Quando Astrid, a sua mulher, sobe para ir ver das crianças, já deitadas, Thomas simplesmente levanta-se e, sem plano prévio nem razões aparentes, sai do jardim e afasta-se de casa.

Mais do que «ir comprar cigarros e nunca mais voltar», mais do que fugir, Thomas sai e segue em diante, terra afora. Não quer ser reconhecido, mas também não apaga metodicamente todas as pistas. Não parece saber para onde vai, nem porquê, mas de quando em quando pensa em Astrid e nos filhos.

De início, a mulher tarda em dar por falta dele, encontra para si mesma desculpas para a ausência. No entanto, rapidamente se convence de que Thomas não pretende regressar. Jamais sequer o recrimina. Cada um mantém a capacidade de pensar ternamente no outro.

A narração não fornece motivos «satisfatórios» para as ações, apenas indícios. Ocorre segundo a perspetiva ora de Thomas ora de Astrid, com neutralidade, sem juízos nem ironia do narrador. O leitor apenas fica a conhecer os estados de espírito de um e de outro, que poderá, dadas as circunstâncias, considerar até «desadequados». Se, enquanto leitores, exigirmos mais do que a mera constatação de que Thomas parte em busca de um recomeço, mais do que a interpretação que ele se expulsa a si mesmo de um tipo de paraíso para ir em busca de um outro, a leitura pode tornar-se desconcertante. Se pretendermos explicações exaustivas, à medida que progredimos na leitura e persistimos em obter esses resultados, apercebemo-nos de que tal esforço está condenado a ser feito em vão.

Porém, a leitura revela-se compensadora quando, após um acidente sofrido por Thomas no cimo da montanha, o leitor se dá conta de que nem tudo será o que até então pareceu ser. As perspetivas bem delimitadas dos dois intervenientes confundem-se, torna-se necessário aprofundar alguma reflexão. Começa um jogo em que tudo pode ser questionado pelo leitor. A qual dos relatos deverá atribuir veracidade? Qual deles será realidade, qual ficção? Ou, sendo no fundo ambos ficcionados pelo autor, serão ambos realidade? Ou ambos ficção?

Relativamente simples na ação, relatada de modo breve e conciso, o romance (ou novela?) de Peter Stamm impressiona antes pela segurança com que é narrado. E pela capacidade de surpreender a um quarto do final. E por provar que é perfeitamente válida uma narração que se torna mais complexa não pelo que diz mas pelo que fica por dizer. E, por último, por não se achar na obrigação de explicar em pormenor o porquê das ações das suas personagens


Peter Stamm

Peter Stamm Peter Stamm | © dpa Peter Stamm nasceu em 1963 em Scherzingen, na Suíça. Teve formação em gestão e trabalhou em contabilidade antes de iniciar os seus estudos em Anglística. Mudou mais tarde a sua atenção para a psicologia, tendo estudado Psicopatologia e Informática. Durante vários anos trabalhou como jornalista freelancer para diversos jornais e para uma revista literária.
Recebeu em 1999 o Prémio Literário de Rauris pelo seu romance Agnes (1998). Seguiram-se outros romances, bem como narrativas breves e peças radiofónicas. Tem sido distinguido com diversos prémios, entre os quais o Prémio do Livro Suíço de 2018, pelo romance Die sanfte Gleichgültigkeit der Welt. Peter Stamm vive em Winterthur.

Prémios:
2018: Prémio Suíço do Livro por "Die sanfte Gleichgültigkeit der Welt"
2017: Prémio Literário Johann Friedrich von Cotta Literaturpreis por "Weit über das Land"
2014: Prémio Friedrich Hölderlin
2013: Prémio Maizer Stadtschreiber
2013: Shortlist do prémio Man Booker International Prize
2012: Prémio Literário Bodensee
2011: Prémio Alemanischer Literaturpreis
2002: Prémio Carl Heinrich Ernst Kunstpreis für Literatur
2000: Prémio Literário Rheingau

Obras Publicadas (seleção):
Marcia aus Vermont. Eine Weihnachtsgeschichte. S. Fischer, Frankfurt am Main, 2019
Die sanfte Gleichgültigkeit der Welt. Romance. S. Fischer, Frankfurt am Main, 2018
Weit über das Land, Romance, S. Fischer Verlag, Frankfurt am Main, 2016
Der Lauf der Dinge. Contos. S. Fischer Verlag, Frankfurt am Main, 2014
Nacht ist der Tag. S. Fischer Verlag, Frankfurt am Main, 2013
Seerücken. Contos. Fischer Verlag, Frankfurt am Main, 2011
Sieben Jahre. Romance. S. Fischer Verlag, Frankfurt am Main, 2009
Wir fliegen. Contos. S. Fischer Verlag, Frankfurt am Main, 2008
An einem Tag wie diesem. Romance. S. Fischer Verlag, Frankfurt am Main, 2006
In fremden Gärten. Contos. Arche Verlag, Zurique, 2003
Ungefähre Landschaft. Romance. Arche Verlag, Zurique, 2001
Blitzeis. Contos. Arche Verlag, Zurique, 1999
Agnes. Romance. Arche Verlag, Zurique, 1998