Pandemia do Coronavírus
Como o vírus muda a nossa vida

“The world is temporarily closed”: A pandemia do coronavírus paralisou temporariamente grandes setores da vida social e económica.
Photo (detail): Edwin Hopper/Unsplash.com

Desde fevereiro de 2020 que a pandemia pelo SARS-CoV-2 parou o mundo inteiro. As limitações drásticas na vida do dia a dia servem para tentar controlar o coronavírus. Vários domínios da nossa sociedade podem vir a ser afetados pela pandemia de forma prolongada. Um balanço.

De Petra Schönhöfer

Ambiente: Apenas um breve respiro de alívio

Golfinhos onde normalmente só passam navios gigantes de cruzeiros – esta, supostamente, boa notícia vinda de Veneza percorreu o mundo durante a pandemia do coronavírus. No entanto, a organização ambientalista Greenpeace esclareceu rapidamente: o muito divulgado vídeo não mostrava golfinhos em Veneza, mas sim no porto da cidade de Cagliari, na Sardenha. E lá não são assim tão raros. Mesmo a água supostamente mais límpida de Veneza era devida à ausência de deslocações dos sedimentos a níveis mais profundos e não é indício de melhor qualidade da água. Então a crise da covid não foi útil para que a natureza recuperasse? Menos trânsito nas estradas, a produção industrial parcialmente paralisada, escritórios vazios, aviões em terra – até poderia facilmente dar a impressão de que um vírus estaria a salvar o nosso clima. Mas o Serviço Federal do Ambiente esclarece: «Se a crise do coronavírus tiver um impacto positivo sobre a qualidade do ar, a emissão de gases com efeito de estufa e os riscos para a saúde devido ao ruído, será um impacto de curta duração.» Uma melhoria a longo prazo só será alcançada com uma política ambiental orientada para mudanças duradouras e sustentáveis a nível das infraestruturas, padrões de consumo e mobilidade. Para dizê-lo com clareza: quando a economia voltar a funcionar como antes da crise e o trânsito voltar a aumentar, os danos ambientais vão aumentar de novo.
 

Economia: recessão grave

O confinamento imposto pela covid e a situação grave do comércio externo, sobretudo no que diz respeito aos EUA, levaram a Alemanha à recessão. Segundo dados do Serviço Federal de Estatística, foi sobretudo o consumo interno que contraiu, tal como os investimentos em máquinas, aparelhos e veículos. Logo no primeiro trimestre de 2020, registaram-se perdas no PIB na ordem dos 2,2%. Em comparação com outros países europeus de grande dimensão, a Alemanha ainda está em situação favorável: em França, a segunda economia a seguir à Alemanha na zona euro, a economia registou uma queda, de janeiro a abril de 2020, na ordem dos 5,8%; a terceira economia, Itália, ficou-se pelos 4,7%. Contudo, com a recessão económica no primeiro trimestre do ano, ainda não foi atingido o fundo, segundo estimativas dos economistas. O governo federal calcula que, no ano de 2020 como um todo, será atingida a mais grave recessão da história do pós-guerra. O PIB da Alemanha, de acordo com a estimativa atual do conselho alemão de consultores económicos, na gíria conhecido como os «sábios da economia», encolherá, em 2020, ao todo entre 6% e 7%. Em termos comparativos: na crise económica e financeira mundial de 2009, o PIB descera 5,7%. O desemprego aumentou também na Alemanha durante a crise da covid. A percentagem de desempregados situava-se, em junho de 2020, nos 6,2% e, assim, 1,3% acima do período homólogo de 2019, o que representa mais 640 000 desempregados do que no ano anterior.
 

Universos laborais: soluções híbridas para uma nova flexibilidade

Enquanto muitas pessoas, durante o período de confinamento, tiveram de trabalhar em tempo parcial e, por isso, tiveram de aceitar perdas salariais ou ficaram ameaçadas de desemprego, outros trabalhadores, por exemplo, na área da distribuição alimentar ou dos sistemas de saúde, estiveram sujeitos a uma sobrecarga e a um nível de risco excecionalmente elevado. Para outro grupo da população ativa, o local de trabalho deslocou-se para as quatro paredes de casa, o escritório doméstico. A rede social Twitter fez parte das primeiras empresas que, logo em meados de março, mandaram os seus colaboradores em todo o mundo para teletrabalho. Os escritórios teriam de ficar fechados pelo menos até setembro de 2020 e os colaboradores iriam decidir se e quando regressariam ao trabalho nos escritórios da empresa. Certo é que os escritórios, na sua forma tradicional, parecem ser uma realidade ultrapassada, impondo-se novas possibilidades, e mais flexíveis, de prestação de trabalho. Situações de trabalho híbridas, em que alguns colaboradores estão a trabalhar no escritório da empresa e outros permanecem em casa, em teletrabalho ou em trabalho móvel, parecem indicar os caminhos do futuro, de acordo com um estudo da Adecco, empresa fornecedora de soluções de recursos humanos. Além disso, muitos trabalhadores familiarizaram-se necessariamente com novas tecnologias, como por exemplo a videoconferência. Tal pode significar que, no futuro, nem todas as viagens de trabalho e reuniões presenciais venham a ser necessárias, o que terá, por seu turno, consequências no comportamento de mobilidade: menos engarrafamentos de trânsito dos trabalhadores de e para o local de trabalho, menos voos domésticos durante a semana. O estudo revela, por outro lado, que a crise do coronavírus pode ditar o fim dos contratos com base num horário e nas 40 horas semanais, dado que os trabalhadores já não aceitam a semana rigorosa de 40 horas: mais de dois terços (69%) são favoráveis a um «trabalho orientado para resultados», em que os contratos se baseiem no cumprimentos de objetivos acordados e não num número determinado de horas de trabalho.
 

Media: a televisão linear está de volta

Não é surpreendente que o consumo dos media tenha aumentado durante a pandemia. Canais noticiosos como a Deutsche Welle registaram números recorde de acessos aos seus conteúdos online. As notícias eram o formato do momento e eram procuradas em todas as formas de apresentação. A percentagem de leitores diários de notícias online financiadas por publicidade aumentou 35% em toda a Alemanha, segundo um inquérito na área de Media e Entretenimento, promovido pela empresa de consultoria Deloitte. Por outro lado, havia um maior número de utilizadores dispostos a pagar por conteúdos: a utilização regular de conteúdos premium sujeitos a pagamento subiu 25%, as edições de jornais em formato PDF ou App aumentaram 31%. Além disso, a televisão linear conheceu um renascimento: 21% dos inquiridos pelo estudo da Deloitte afirmaram que a televisão estava ligada mais duas horas do que antes da pandemia. Mesmo os grupos-alvo mais jovens, junto aos quais o consumo televisivo até ali tinha baixado significativamente, redescobriram a televisão linear. Esta revitalização não ocorreu, no entanto, às custas do vídeo on demand (VoD): cerca de metade dos utilizadores de VoD consumiram muito mais conteúdos do que antes das medidas de proteção contra o coronavírus. Também a rádio foi mais utilizada, cerca de 30%, pelos inquiridos. Sobretudo os podcasts conheceram um incremento adicional e saíram do nicho dos amantes das tecnologias. Os programas abordam muitas vezes um tema de forma mais profunda do que as notícias clássicas da televisão ou rádio e tiveram pontuação alta junto dos utilizadores por causa das informações de base relevantes. Na situação ameaçadora da pandemia, muitos utilizadores concentraram-se nos meios de comunicação tradicionais. De acordo com um estudo publicado no verão de 2020 pela agência noticiosa Reuters, estes meios de comunicação beneficiam de uma credibilidade substancialmente superior à das redes sociais. O paradoxo da pandemia é que, apesar da maior utilização, muitas empresas de comunicação registaram problemas financeiros graves, dado que as suas receitas de publicidade caíram por causa da crise.
 

Mercado da arte: mudança para o setor online

Com a Art Fair Mannheim, teve lugar pela primeira vez, em julho de 2020, uma feira de arte 100% virtual. Streaming em tempo real, transmissões via televisão, visitas à exposição via digital – tudo isto são caminhos trilhados pelo mundo da arte em tempos de pandemia. Durante muito tempo, o mercado tradicional dos colecionadores do mundo da economia e da finança olhou com ceticismo para a aquisição de uma obra de arte via smartphone em vez de através do galerista da sua confiança. A crise trazida pelo coronavírus levou a uma mudança de tendências, pois o mercado da arte online ganhou outra importância por via do coronavírus. Thomas Fischer, galerista em Berlim, utiliza a plataforma de vendas BerlinViews.com para apresentar os seus artistas: «A página na internet oferece a cerca de 25 galerias de Berlim a possibilidade de apresentar um artista do seu reportório de cada vez e vender ao mesmo tempo as suas obras.» Enquanto certos observadores temem que as descobertas em galerias underground, espaços alternativos, subculturas e escolas superiores de belas-artes possam passar rapidamente à história com estas abordagens, dificultando a entrada no mercado a jovens artistas desconhecidos, Fischer vê o problema sobretudo no domínio do alto comércio. Leiloeiras de renome, como a Nagel, em Estugarda, estão a passar por dificuldades financeiras; feiras de arte famosas, de Colónia a Bruxelas, até mesmo na Suíça, são canceladas. Os eventos neste domínio que deixam de se realizar, como inaugurações, são para Fischer de menos importância: «O mais importante para a maioria das galerias é a consultoria intensiva de potenciais interessados. Um curador de um museu não vai necessariamente a uma inauguração, marca uma reunião quando necessário.» O encerramento temporário de muitos espaços culturais não fez, de acordo com a sua experiência, com que os artistas deixassem de ser criativos.
 

Teatro: quanto dinheiro é preciso?

Sob medidas de distanciamento social e de higiene, é possível voltar à realização, no verão de 2020, de eventos culturais na Alemanha. Mas os concertos ao ar livre com distanciamento, festivais a céu aberto, formatos mais reduzidos de espetáculos teatrais, em espaços abertos ou filas pouco preenchidas nas salas – todas estas medidas implicam poucas receitas e poucas verbas para produções. Os teatros nacionais são menos atingidos por estas medidas do que os teatros privados, independentes e os artistas independentes. Em mais lado nenhum havia tantos teatros, museus e casas de concertos – por número de habitantes – como na Alemanha antes da pandemia: 130 orquestras públicas, sinfónicas e de câmara, cerca de 6800 museus, 40 espaços de festivais e cerca de 7000 festivais são a herança de uma política cultural federal. Na Alemanha, são sobretudo os municípios os responsáveis pelo setor cultural; contudo, por causa da pandemia, também têm de enfrentar cada vez mais encargos. «Depois da covid vai tratar-se de perceber: quanto dinheiro resta ainda para o teatro? Que apoios continuam a existir?», explica o especialista em políticas culturais Julius Heinicke, numa entrevista concedida à Deutsche Welle. Nos anos de 2020 e 2021 serão disponibilizados mais cerca de mil milhões de euros pelo governo federal para o setor da cultura, no contexto do projeto «RELANÇAR A CULTURA».