O jazz em tempos de pandemia
Distanciamento e autonomização

Ronny Graupe | Foto (detalhe): © Frank Schindelbeck
Foto (detalhe): © Frank Schindelbeck

​O que acontece quando os músicos e o público deixam de poder estar próximos? No ano da crise do coronavírus, os festivais de jazz encontraram estratégias diversas para enfrentar o problema. O mais interessante é ver as ideias que os músicos encotraram para si próprios e para o futuro da música improvisada. É importante escutá-los, porque é a sua existência que está em jogo.

De Franziska Buhre

Como pode soar oca e sem vida uma sala em que, para além dos músicos, só há móveis, onde as paredes e o teto refletem de imediato o som, aumentando ainda mais o vazio e deixando uma sensação insípida no estômago. Diante dos concertos no monitor, a perda da presença física torna-se notória – uma experiência dolorosa por não podermos fazer parte do acontecimento musical. E assim, nos streamings, para além de sentirmos falta do prazer de ouvir a música ao vivo, perdemos a envolvência de uma acústica com alma.

Pizza e fome

O festival Moers, um dos primeiros a ser mais atingido pelos efeitos do confinamento e pelas limitações dos voos internacionais, que afetaram seriamente os músicos, procurou insuflar os streamings dos concertos com algum nonsense no plano visual. Tiveram como parceira nos streamings a Arte Concert. Durante os concertos, o ator Matthias Heβe surgia perante um ecrã verde. Vestido com um fato prateado e de cabeleira loira, espreguiçava-se alternadamente num sofá ou numa corça, projetados no ecrã, repartia pizza ou olhava no vazio sem se mexer. Quando depois se soube que um organizador de festivais berlinense, contrariamente ao anúncio oficial, estava na sala – sendo que só estava autorizada a presença de um número limitado de jornalistas –, e declarou aos meios de comunicação social que a performance do ator não perturbava o prazer da audição, tornou-se evidente para os organizadores de concertos na Alemanha que ainda iriam ter de aprender muita coisa sobre a realização de streamings.

O festival de jazz de Berlim fez mais do que os trabalhos de casa. No verão, foram pedidos dois trabalhos de vídeo ao coletivo de música improvisada e composta (KIM, Kollektiv für improvisierte und komponierte Musik) e convidaram músicos internacionais para falar, em vídeo, sobre a sua situação atual. Nos streamings do início de novembro, também em parceria com a Arte Concert, já era possível ver trabalhos de vídeo dos artistas envolvidos, resultando numa integração interessante entre perceção espacial, interação dos músicos e projeção. A abertura de oito estúdios nas estações de radiodifusão regionais foi uma boa notícia para difusão de concertos grupos locais via streaming, no contexto do festival de jazz. Esta experiência de apoio aos músicos por parte das estações de rádio, com os recursos de que dispõem, parece ter margem de crescimento, aliás, faz todo o sentido enquanto durar a crise do coronavírus. Ronny Graupe não pôde fazer uso destes meios. O guitarrista deu início, em março, à série de concertos Into The Shed. Em mais de 50 streamings, músicos de vários países e diversos estilos musicais juntaram-se na plataforma digital do Berliner Club der polnischen Versager – um sinal para colegas e fãs que estavam isolados em casa, fosse por medo, depressão por causa dos concertos cancelados ou por quererem tentar a fuga em frente e procurar outras atividades. «Para mim era importante que não saíssem coisas ensaiadas do princípio ao fim, mas que fosse tudo improvisado», diz Graupe, em entrevista. «Eu queria que fosse uma cena mesmo rough, tosca, não queria vender os artistas ao desbarato. Queria que as pessoas fossem para casa com fome de mais ou que ficassem em casa. Se fosse tudo de graça ou acabasse tudo bem, não teria sido uma boa sensação.» Graupe tirou muito partido dos diversos encontros musicais. E a sua visão da experiência profissional mudou: «Quando temos de repente outro concerto, é uma coisa que eu encaro de uma forma muito mais intensa.»

De regresso à Alemanha

A pandemia mudou tudo para os músicos, desde as rotinas e locais habituais de trabalho até aos ciclos de lançamento de trabalhos e planeamento de tournées, passando pela mudança de residência. Um dia antes da partida, no outono, o baterista Joe Hartenstein gravou um álbum com uma banda de Nova Iorque. Atrás de si tinha catorze anos de carreira em Nova Iorque, mas continua a manter contactos próximos: «De momento estou a gravar um álbum com uma banda de Brooklyn, em modo remoto», diz-nos em conversa telefónica, em Berlim. «Cada um de nós vai para o estúdio e depois enviamos as faixas uns aos outros para ver se tudo bate certo e se soa bem.»

Em março, Niklas Lukassen teve de dizer adeus aos objetivos a que se tinha proposto durante anos, tendo de deixar precipitadamente Nova Iorque sem o seu contrabaixo. Estudou na Manhattan School of Music, mas Ron Carter continuou a ser o seu mentor, mesmo assim. Lukassen tinha tido contratos para concertos com Mike Stern e tinha sido convidado para ensaios com a Village Vanguard Big Band, sob a direção de John Riley – sem a certeza, porém, de que estas oportunidades se viessem a repetir. Agora está a viver de novo em Berlim, onde encontrou uma situação bem diferente: «Incomoda-me que os cenários sejam tão separados. É uma coisa que tem grandes consequências nas mentalidades. Gosto de tocar música livremente improvisada ou jazz contemporâneo. Tenho muito poucos pedidos para tocar baixo elétrico, porque para os outros sou só o músico de jazz. Quando toco pop ou jazz com uma banda, apercebo-me de que as pessoas não são assim tão boas na improvisação. Em Nova Iorque, as coisas são diferentes. Quando se tem as mesmas pessoas a tocar estilos diferentes, o público também se torna mais aberto.» No entanto, mantém a confiança: «Acho que vai haver muitos álbuns e muito elaborados. O que distingue a cena do jazz de todas as outras é o facto de os músicos serem também compositores. Por isso, vai haver em todo o mudo uma onda muito boa, em que vamos poder brilhar como músicos e como compositores.»

Superar distâncias e hierarquias 

Provavelmente, todos os músicos terão já experiências para contar do seu trabalho à distância com outros, seja por via das aulas online na própria cidade, videoconferências noutro fuso horário ou das gravações produzidas em momentos diferentes no tempo, das quais resultam álbuns. As produções acabadas não satisfazem Nicola Hein. Doutorando da Columbia University de Nova Iorque, o guitarrista vive de momento na Alemanha e pode desenvolver novos formatos: «Para mim é importante procurarmos novos espaços e plataformas para continuarmos a trabalhar a nível internacional. Comecei a improvisar com outros via internet. Tanto no plano puramente musical como na combinação entre música e dança, música e vídeo.»

Em termos concretos, Hein e Claudia Schmitz, artista vídeo, e outros músicos e artistas vídeo, convidam colegas para trabalhar em conjunto. Nos últimos anos, fizeram tournées pela Ásia e pela América do Sul. No início de setembro, apresentaram, no contexto da Ars Electronica, juntamente com uma artista vídeo do México e um pianista da Califórnia, uma primeira versão de uma app que introduz a tecnologia da realidade aumentada: através do smartphone, é possível ver esculturas em vídeo no espaço, ao mesmo tempo que se escuta com auscultadores a música improvisada. No futuro, poderá funcionar com apresentações ao vivo em tempo real, encontrando-se músicos e público em diferentes partes do mundo, estando planeadas colaborações com diversos artistas da Colômbia, Japão e Coreia do Sul.

Maxine Troglauer, que toca trombone baixo, reflete acerca do futuro das experiências entre músicos e o seu público: «Espero que se venham a descobrir novos formatos, que tenham sido pensados para públicos mais pequenos mas que, por necessidade, se tornem automaticamente mais inclusivos e ativos. Em que a hierarquia do palco "clássico", lá em cima, com o público em baixo, separado, se desenvolva no sentido de uma maior criatividade e maior espaço de manobra.»

Em finais de outubro, Troglauer irá regressar a Nova Iorque para prosseguir os seus estudos na Manhattan School of Music, para já num plano puramente virtual. «A minha prática mudou muito. O estudo e a prática musical estão completamente limitados ao espaço de casa. Para alguém que, como eu, toca um instrumento de sopro que pertence aos metais e mora num quinto andar, tive de me habituar, em primeiro lugar, à ideia de ter constantemente gente à minha volta. Sinto-me muito limitada em termos de competências e de personalidade, ensaio peças a solo, improvisações a solo e penso em termos de atuações a solo.» Vê com olhar crítico a entrada de tecnologias de gravação e difusão na casa de quase todos os músicos: «De repente, espera-se que os músicos sejam não só excelentes no domínio do instrumento, mas também que dominem todos os géneros, além disso que sejam capazes de ser autónomos em termos de gravação, streaming, edição, publicitação, promoção, composição, arranjo – e, ao mesmo tempo, façam 20 pedidos de financiamento, porque ninguém lhes vai pagar nada pelo trabalho que fazem. Estas exigências exercem uma pressão enorme sobre mim em determinados momentos e tenho medo de não ser capaz de acompanhar o ritmo desta obrigação de dominarmos a tecnologia num curtíssimo espaço de tempo – que, além do mais, é extremamente cara».

Os entusiastas de música devem entender estas palavras como um apelo, na verdade. E fazer os possíveis para que os músicos não caiam no esquecimento quando desaparecem da tela virtual ou quando não estão presentes. Vamos voltar a ver-nos, juntos numa sala, dentro ou fora, com conversas em pano de fundo ou completamente felizes quando nos apercebermos das pessoas que estão ao nosso lado em plena fruição musical. Não conseguimos fazê-lo de outra maneira.