Francamente... sociável O tempo, a cidade e as pessoas: duas horas antes do toque de recolher

A estação central de trem sempre foi um lugar agitado, por onde passava muita gente – muita gente mesmo. Isso antes da pandemia. Maximilian Buddenbohm observou ali cenas completamente diferentes agora.

Por Maximilian Buddenbohm

Duas horas antes do toque de recolher noturno, uma criança se move em círculos montada em seu triciclo, cantando, no meio da estação central de trem. Os pais estão ao lado, conversam e reorganizam as bagagens. O pai entrega à mãe um jornal, ela o coloca na bolsa. Trata-se de uma imagem simples. Sem uma pandemia, isso não seria possível, não aqui, não em um dia de trabalho, não a esta hora do início da noite. A estação central de trem costumava ser um lugar superlotado, quando tudo ainda estava normal. Ela foi também o primeiro local desta cidade onde foram pintadas no chão setas de direção para pedestres, como hoje se pode ver por todo o centro. Isso aconteceu bem antes da pandemia e parecia estranho para todos naquela época, as pessoas riam disso, lembro-me bem. Setas assim eram para carros. Agora uma pessoa também deveria se limitar a faixas enquanto andasse, era bizarro. Mas havia gente demais, todo mundo ficava no caminho uns dos outros, era um empurra-empurra constante. O prédio não era adequado para essa multidão, a metrópole há muito se tornara grande demais para a velha e apertada estação ferroviária. Nenhuma criança poderia andar de triciclo em círculos em nenhum lugar dali. E nenhuma criança seria ouvida cantando no meio da multidão. Naquela época.

Um raio de sol

Não muito longe da criança no triciclo, um raio de sol entra na estação através da estrutura de aço do teto. A nesga de sol incide sobre uma parede, entre uma lanchonete e uma banca de revistas. Ambas já fechadas, o que também é estranho. Tudo costumava estar aberto nesta estação de trem, quase sempre tudo estava aberto. Uma mulher está posicionada sob o raio de sol. Ela encostou as costas na parede e mantém o rosto ao sol da tardinha, de olhos fechados. Não há nenhuma mala ao lado dela, nem compras, não dá para saber o que faz ali. Permanece lá se aquecendo ao sol. Não parecia precisar urgentemente seguir adiante. Ela encontrou aquele raio de sol e agora desfruta o momento.

Paro e aprecio as cenas. No passado, era difícil fazer isso porque você simplesmente não podia parar. A esta hora, a multidão teria simplesmente me carregado. Agora, algumas pessoas passam ao meu redor, mas não importa – parado, eu não incomodo. Olho para os passantes à minha volta, vejo exatamente como eles andam. Lembro-me de como costuma ser e tenho certeza de que agora caminham mais lentamente. Talvez estejam mais relaxados, talvez apenas mais entediados. Ou simplesmente não têm mais energia sobrando depois de quatorze meses de pandemia, talvez estejam exaustos, não consigo diferenciar. Mas há um ritmo diferente nessas pessoas, há um padrão diferente de movimento. A pandemia desacelerou tudo, o tempo, a cidade e as pessoas.

Pessoas que não fazem nada

Uma vez que você para e presta atenção, percebe ainda mais pessoas encostadas, sentadas ou escoradas em algum corrimão, espalhadas pela estação de trem e não fazendo nada. Alguém agora corre atrás de um trem, mas é o único individuo ágil aqui. Isso chama atenção, alguns o acompanham com o olhar.

Artigos médicos, como máscaras e kits de teste, são oferecidos num estande onde normalmente estariam jornaleiros vendendo assinaturas de periódicos. Uma vendedora está ao lado da mercadoria e parece muito entediada, ninguém quer comprar nada. Logo alguém para e pergunta o preço das máscaras PFF2. Ela diz a quantia, ele ri, faz sinal que não e segue em frente.

Dois homens num banco

Dois homens idosos estão sentados em um banco numa das plataformas de embarque e conversam. Carregam em suas mãos grandes copos descartáveis de café. De vez em quando, levantam as máscaras brevemente e tomam um gole. Um trem vindo de um subúrbio para na frente deles. Pessoas desembarcam, outras embarcam, o trem parte novamente. Os homens permanecem sentados lá, olhando para tudo. Um deles olha rapidamente para os poucos pombos voando acima deles pela estação. O letreiro eletrônico muda, indica o próximo trem daquela plataforma e a hora de partida é exibida. Eles não se importam, sequer olham. Continuam falando, o que, por causa das máscaras, só se pode adivinhar, obviamente. De vez em quando, um gesto acompanha a conversa, um aceno positivo com a cabeça, outro negativo. Estão sentados e conversam, parecem ter tempo.

Talvez uma pessoa faça isso mesmo numa cidade onde todas as atrações estão fechadas e quase nada está acontecendo. Talvez ela vá para a estação de trem – por que não? – e fique sentada um pouquinho onde algo ainda está acontecendo, onde outras pessoas estão passando. E observe e tenha um pouco de vida, de pessoas e movimento ao seu redor.

Acho essa ideia nem um pouco absurda. Também faço isso.

“Francamente …”

Nossa coluna “Francamente…” é escrita alternadamente, a cada semana, por Maximilian Buddenbohm, Aya Jaff, Dominic Otiang’a e Magrita Tsomou. Em “Francamente... sociável”, Maximilian Buddenbohm discorre sobre o quadro geral – da sociedade como um todo – e sobre suas menores unidades: família, amizades, relacionamentos.