Berlim Cultura da memória em Berlim: pedras de tropeço, bunkers e companhia

Berlim é uma cidade cheia de História. Por essa razão, pessoas de todo o mundo chegam ali para contemplar o Reichstag, os museus, os restos do muro, o Checkpoint Charlie e outros locais semelhantes. Mas da cultura da memória não fazem parte apenas as atrações turísticas: também podemos descobrir vestígios da História na paisagem quotidiana da cidade. Onde, exatamente, é o que vos conto aqui.

De Lucas Galindo

Stolpersteine Fotografia (excerto): Lucas Galindo

1. Pedras de tropeço [Stolpersteine]

É fácil não reparar nelas. Mas, mais cedo ou mais tarde, os recém-chegados acabam por se perguntar o que significam aquelas pequenas placas de latão que estão embutidas no chão em frente a prédios de habitação de toda a Berlim. Quem olhar com atenção reconhece nelas nomes e datas de nascimento e de morte. Estas pedras, de aproximadamente 10x10 cm de tamanho, recordam as pessoas deportadas, assassinadas e expulsas pelos nacional-socialistas, entre as quais muitas pessoas de fé judaica, bem como de origem sinti e roma ou homossexuais.

As placas ficam situadas, na maior parte dos casos, em frente às últimas moradias das vítimas e são consideradas o maior monumento evocativo descentralizado do mundo. Não existem apenas na Alemanha, mas também em muitos outros países europeus – em Berlim, contudo, são mesmo muitas. O autor da ideia é o artista alemão Gunter Demnig, que em 1992 colocou a primeira pedra de tropeço em frente à histórica câmara municipal de Colónia.

Percorrendo Berlim, somos confrontados com muitas destas pedras. Ainda hoje continuam a ser colocadas novas pedras regularmente, quando as pesquisas trazem à luz do dia conhecimentos sobre moradores deportados. É através destas pesquisas que se podem produzir novas pedras; além disso, a limpeza das placas de latão é garantida por voluntários.

2. Placas em candeeiros de rua

Vivo na freguesia de Schöneberg, e em parte dela, no Bayerisches Viertel [Bairro Bávaro], encontramos pequenas placas nos candeeiros e nos letreiros toponímicos. Tal como as pedras de tropeço, elas recordam os horrores do nacional-socialismo. São cerca de 80 placas nas quais estão sobretudo citações com leis e decretos dos nazis que retiraram à população judaica os seus direitos. Por exemplo, «os médicos judeus não podem continuar a exercer», de 25-07-1938. O projeto chama-se «Lugares da Memória» e foi posto em prática pelos artistas Renata Stih e Frieder Schnock.
Placas em candeeiros Fotografia (excerto): Manfred Brueckels

3. Vestígios da Segunda Guerra Mundial

No final da Segunda Guerra Mundial, na primavera de 1945, batalhas destrutivas tiveram lugar no centro de Berlim. Os seus vestígios podem ser encontrados ainda hoje na paisagem citadina, pois foram conscientemente preservados por questões de memória. Deles fazem parte, por exemplo, buracos de balas em edifícios, resultado das trocas de tiros entre o Exército Vermelho e os nacional-socialistas. Esses vestígios podem ser vistos de forma particularmente clara no Martin-Gropius-Bau, que é hoje um museu de arte contemporânea: as esculturas na entrada do edifício não têm cabeça, faltam-lhes braços e pés e a pedra está queimada, apresenta uma cor preta.

4. Os bunkers

Em Berlim também existem ainda alguns bunkers. Em 1940, Hitler determinou a construção dos abrigos para a população civil e a companhia de caminhos de ferro foi obrigada a edificá-los em estações de comboios. Assim, alguns estão ligados ao sistema do metropolitano e podem ser alvo de emocionantes visitas guiadas da «Berliner Unterwelten». Esta é a minha grande dica para uma visita a Berlim!

Visível à superfície é, por outro lado, o Anhalter Hochbunker, no bairro de Kreuzberg, que pertencia então à estação de Anhalt. Tinha lugar para 3000 pessoas. Hoje o edifício alberga o Berlin Story Museum, que apresenta uma exposição para interessados em História.

Vistoso é também o Boros-Bunker, próximo do Regierungsviertel [Bairro Governamental], e que originalmente se chamava Reichsbahnbunker Friedrichstraβe. Este edifício simétrico oferece cerca de 120 quartos em cinco andares! Após a guerra foi utilizado, entre outras coisas, como armazém de fruta vinda de Cuba, depois durante algum tempo como clube tecno e atualmente pertence ao empresário Christian Boros, que exibe ali a sua coleção de arte e vive no topo, numa penthouse.

Como vês, na Alemanha, a memória histórica do período nazi e da Segunda Guerra Mundial é um projeto importante. Não apenas sob a forma de atrações turísticas, mas também através de diversas iniciativas distribuídas pela cidade. Em caso de visita a Berlim, podes muito bem ir à sua procura.