Leipzig Transformação urbana em Leipzig

Uma das minhas recordações mais belas da infância são as visitas à minha tia e à sua família em Leipzig. Eles moravam numa grande vivenda no bairro de Abtnaundorf e o jardim e o terreno eram tão grandes que na minha recordação não existem cercas. A minha irmã, os meus primos, a minha prima e eu éramos todos mais ou menos da mesma idade e passávamos o dia inteiro por nossa conta no gigantesco terreno, fazendo todo o tipo de disparates. Em 1995 eles mudaram-se – e não foram os únicos na sua rua. Como em muitas outras zonas de Leipzig, também em Abtnaundorf os edifícios antigos foram reabilitados e os moradores e as moradoras arrendatários foram desalojados. A gentrificação de Leipzig, portanto, começou na verdade logo nos anos 1990.

De Nastasia Herold

Abtnaundorf Abtnaundorf | Fotografia (exerto): Gudrun Vogel

Mas o que é, exatamente, a gentrificação?

A gentrificação é uma transformação estrutural socioeconómica dos territórios das grandes cidades na qual grupos inteiros de população são desalojados em favor de proprietários e arrendatários mais abonados financeiramente. Especialmente atingidas são as cidades nas quais muitos bairros foram construídos durante a revolução industrial alemã de 1871-73 ou nas quais havia muita indústria.

Duas fases da gentrificação em Leipzig

Alte Nikolaischule Alte Nikolaischule | Fotografia: Dietmar Habich / Wikimedia Commons / "Leipzig -- 1980 -- 17" / CC BY-SA 4.0
Em Leipzig podemos falar de duas fases de gentrificação, tendo a primeiro sido mais intensiva. Leipzig era uma cidade industrial importante na RDA. Após a queda do muro, sobretudo nos anos noventa, teve lugar aqui uma desindustrialização, e muitas pessoas abandonaram a cidade. Ao mesmo tempo, muitos proprietários e novos proprietários investiram na restauração dos edifícios construídos durante a revolução industrial alemã. Em algumas áreas, como o Waldstraβenviertel, no centro ocidental da cidade, os investimentos tiveram sucesso, pois em breve passaram a morar ali, principalmente, pessoas com salários elevados (o que continua a acontecer hoje em dia). Considerando toda a cidade, no entanto, a procura por habitação elegante e cara foi sobrevalorizada, pelo que, por volta de 2000, registava-se uma taxa de desocupação habitacional massiva. Mas nessa altura começaram novamente a estabelecer-se em Leipzig grandes empresas – incluindo a Porsche, a BMW e a Amazon. A administração municipal investiu no fortalecimento do centro da cidade e foi colocada em marcha uma reurbanização. E, na verdade, Leipzig voltou a crescer, os números de novos habitantes são enormes sobretudo desde 2011.

Hypezig – crítica às novas tendências

André Herrmann, ele próprio um novo habitante, inventou, por isso, em 2012, a expressão «Hypezig» – por diversão e também, especialmente, como crítica ao facto de todo o hype relativo a Leipzig estar ligado, sobretudo, a objetivos económicos. Porém, como as empresas e as revistas imobiliárias começaram a utilizar indevidamente em publicidade a palavra por si inventada, Herrmann encerrou em 2014 o seu blogue homónimo «Hypezig – Bitte bleibt doch in Berlin!» [«Hypezig – Por favor, fiquem mas é em Berlim!», https://hypezig.tumblr.com]. Aparentemente, nem a crítica artística conseguiu deter a segunda vaga de gentrificação.

O que significa a transformação para a população residente?

Alte Nikolaischule hoje Alte Nikolaischule hoje | © Nastasia Herold
Hoje, em Leipzig, continua a converter-se alegremente os belos edifícios antigos em habitações próprias de preço elevado. É óbvio que, na Alemanha, os arrendatários e as arrendatárias têm direitos. Mas quem se recusar a engolir uma indemnização ridícula tem de se preparar para tramoias que, infelizmente, estão completamente dentro da legalidade. Em muitos casos – como numa residência comunitária de amigos nossos no bairro de Südvorstadt, em Leipzig –, por exemplo, monta-se, simplesmente, um andaime com lona em frente à janela três trimestres antes do início previsto das obras, para obstruir a bonita vista e, ao mesmo tempo, diminuir a sensação de segurança.
 
Naturalmente que também estamos conscientes das poucas vantagens da gentrificação – sobretudo no que respeita à aparência exterior. Mas não terão os que ganham menos também o direito de morar numa casa espaçosa perto do centro da cidade?