"Conversas sobre museus" em Windhoek Estamos falando das pessoas

A infraestrutura cultural africana encontra-se em momento de transição. No discurso de abertura da conferência internacional final “Conversas sobre museus”, em Windhoek, Klaus-Dieter Lehmann, presidente do Goethe-Institut, destacou o interesse positivo e mútuo pelas questões urgentes que dizem respeito ao trabalho pós-colonial nos museus.

Por Klaus-Dieter Lehmann, presidente do Goethe-Institut

O pintor sul-africano Ernest Mancoba, falecido em 2002, afirmou certa vez durante uma conversa: “Apesar da nossa ciência, com tudo que pensamos que sabemos, não conhecemos o futuro, não conhecemos o amanhã. No entanto, artistas e poetas, ou seja, essas pessoas que não pensam matematicamente, podem trazer o futuro para mais perto de nós”.

Conectar o passado e o futuro

A reflexão sobre o mundo de amanhã é parte essencial do empenho do Goethe-Institut em prol da cooperação cultural internacional. Em projetos e iniciativas, temas relacionados ao futuro são identificados e propostos em âmbito global com os parceiros da instituição. Essas comunidades de aprendizado vivem da multiplicidade de perspectivas, de visões e controvérsias, e do intercâmbio para além de fronteiras e barreiras linguísticas. Acreditamos na força da cultura, mas sabemos também que ela não é, por si só, promotora da paz, que precisa abrir-se, dispor de uma apreciação mútua de valores e almejar o entendimento.

Os museus são instâncias adequadas a possibilitar esse diálogo cultural na e com a sociedade, a conectar o passado e o futuro, atuar como locais de educação e aprendizagem, servir de mediadores entre gerações e cumprir funções sociais. Entretanto, seu caráter deve sempre levar em conta especificamente o ambiente social e histórico, e eles precisam ser independentes em termos de conteúdo do seu trabalho. Apenas assim eles serão parte integrante da sociedade e fidedignos.

Klaus-Dieter Lehmann, presidente do Goethe-Institut, durante seu discurso de abertura na Namíbia Klaus-Dieter Lehmann, presidente do Goethe-Institut, durante seu discurso de abertura na Namíbia | © CreativeLab para o Goethe-Institut Namíbia

Planos de futuro para a África devem surgir na África

Já há muito que o Goethe-Institut e seus parceiros pelo mundo vêm realizando grandes projetos ligados a questões afeitas aos museus do futuro e seu papel na sociedade: na América do Sul, através do projeto “Episódios Museais”; no Sudeste Asiático e Pacífico, com o “Museus em Transição”; e na Índia com o “Museu do Futuro”. A África faz parte deste amplo contexto. Além disso, o Instituto organizou conferências internacionais na Alemanha que abordaram o papel dos museus também no contexto da restituição em função da história colonial. Todas essas atividades estiveram marcadas pela perspectiva ampliada de não abordar o passado como um capítulo encerrado, mas sim como comprometimento histórico com o futuro. Isso também se aplica às assimetrias e injustiças políticas e econômicas que se perpetuam desde a era colonial.

Planos futuros para a África precisam surgir na África. Com 47 países, mais de 650 milhões de habitantes e mais de mil línguas, a África subsaariana é uma região muito heterogênea, mas ao mesmo tempo culturalmente rica devido à sua diversidade. O Goethe-Institut dispõe de uma densa rede no continente, operando atualmente em onze institutos e marcando sua presença também através de outras formas. Para o Instituto, é uma circunstância feliz poder trabalhar, através dessa rede, de maneira tão próxima com colegas, cientistas e artistas da África. Foi possível assim, por exemplo, organizar, antes desta nossa Conferência, encontros locais e regionais em sete lugares diferentes: Kigali, Windhoek, Ouagadougou, Kinshasa, Accra, Dar es Salaam e Lagos. Esses encontros aconteceram em completa abertura às vozes africanas e cada vez mais também no contexto de questões globais, com um discurso conceitual abrangente sobre o trabalho dos museus no continente africano. Embora já tenham ocorrido no passado discussões sobre questões museológicas relacionadas ao pan-africanismo, à negritude e à realidade pré-colonial, e tenham sido estabelecidas relações bilaterais entre museus africanos e europeus, este projeto tem uma abordagem e um resultado particular. Graças a sua intensa etapa preliminar em nível regional, o assunto, por um lado, pôde ser enfocado de maneira precisa em suas complexas questões e utilizado de forma concentrada na conferência final. Por outro lado, a conexão entre as discussões na Europa e na África acerca do tema restituição e do significado do legado cultural permite reunir, pela primeira vez, o estado atual desse debate nos dois continentes, e elaborar assim propostas conjuntas de soluções. De maneira geral, a abordagem foi adequada para expandir o círculo de participantes e, assim, entender a cooperação para além das fronteiras como uma oportunidade.

  • Cenas da Conferência Final das “Conversas sobre museus” em Windhoek. © CreativeLab for Goethe-Institut Namibia
    Cenas da Conferência Final das “Conversas sobre museus” em Windhoek.
  • Impressions from the final conference of the Museum Conversations  in Windhoek. © CreativeLab for Goethe-Institut Namibia
    Impressions from the final conference of the Museum Conversations in Windhoek.
  • Impressions from the final conference of the Museum Conversations  in Windhoek. © CreativeLab for Goethe-Institut Namibia
    Impressions from the final conference of the Museum Conversations in Windhoek.
  • Impressions from the final conference of the Museum Conversations  in Windhoek. © CreativeLab for Goethe-Institut Namibia
    Impressions from the final conference of the Museum Conversations in Windhoek.
  • Cenas da Conferência Final das “Conversas sobre museus” em Windhoek. © CreativeLab for Goethe-Institut Namibia
    Cenas da Conferência Final das “Conversas sobre museus” em Windhoek.
  • Cenas da Conferência Final das “Conversas sobre museus” em Windhoek. © CreativeLab for Goethe-Institut Namibia
    Cenas da Conferência Final das “Conversas sobre museus” em Windhoek.

Desafios da globalização, da modernização e da digitalização

Essas redes regionais de museus, com especialidades independentes, bem como nossa conferência principal, são, portanto, muito importantes neste momento, pois a infraestrutura cultural africana se encontra frente a um momento de transição. Isso vale especialmente para os museus.

  • Vários museus existentes na África foram criados por europeus sob um ponto de vista etnológico. As potências coloniais estabeleceram, por exemplo, seis museus na África do Sul entre 1825 e 1892, seguidos de dois museus no Zimbábue em 1900 e 1901, um em Uganda em 1908, um no Quênia em 1909 e um em Moçambique em 1913. Especialistas de várias gerações, mas especialmente curadores, bem como uma elite intelectual jovem, estão agora examinando criticamente esses acervos e sua apresentação em seus respectivos países. Com razão! Essas coleções eram expressão da ideologia dominante, que pretendia legitimar cientificamente relações injustas e desiguais no período colonialista. Elas serviam à hegemonia europeia. A história não acontece, ela é feita. Por isso trata-se aqui de uma mudança fundamental no significado dos museus na África que possibilite a recuperação da história africana.
  • Um segundo grupo de museus foi fundado exatamente quando chegava ao fim a era colonial e se iniciava o período de independência dos Estados. Narrativas nacionais sobre a formação de identidades tiveram muitas vezes um papel relevante aqui. Tanto a primeira quanto a segunda categoria propõem um tema fechado e não reagem aos desenvolvimentos sociais da sociedade de hoje, ou seja, esses museus estão fixados no passado. Para posicionar os museus com as questões do nosso tempo é preciso torná-los móveis, flexíveis e aptos ao diálogo.
  • No momento, estão sendo construídos museus de grande escala na Etiópia, na Nigéria e no Congo, ou já foram concluídos, como em Ruanda, no Chade e na Tanzânia. Alguns dos museus, como o Museu das Civilizações Negras em Dakar, foram fundados com o apoio de países estrangeiros. Mesmo onde a construção de museus é financiada com recursos externos, os museus trabalham de maneira impressionantemente independente. Neste ponto, o colonialismo intelectual chegou ao fim. Esta deve ser a abordagem no presente: o posicionamento central dos especialistas africanos na pesquisa e na apresentação de sua própria cultura.
  • Como o trabalho dos museus nos países africanos é hoje fortemente influenciado pela discussão sobre a restituição de bens culturais, as questões coloniais e pós-coloniais entre as antigas potências e os países de origem dos objetos devem ser negociadas em conjunto. A decolonização do pensamento deve ser o objetivo declarado. Trata-se de mais do que da devolução de objetos; trata-se da perda de autoestima em função do domínio colonial e de suas consequências até os dias de hoje. Não é suficiente simplesmente devolver objetos, estamos falando das pessoas. A despeito disso, arte roubada é arte roubada e deve ser declarada como tal. Argumentos contra as devoluções legítimas devido a instalações inadequadas nas instituições de destino devem conduzir ao fortalecimento dos museus africanos, em vez de cimentar a visão eurocêntrica do mundo.
  • Finalmente, trata-se dos desafios da globalização, da modernização e da digitalização. Não se trata de manter uma enorme máquina de conhecimento funcionando. É preciso haver um manual de instruções compreensível, para que os museus, como parte da sociedade civil, não se fechem em si mesmos, mas de forma que suas coleções encontrem uma continuidade, retratem suas sociedades, sendo capazes de construir um discurso. A participação cultural igualitária é de relevância social.

Chances de um recomeço efetivo

O continente africano deve encontrar respostas para si e em um contexto global, não como um recipiente passivo, mas como uma ativa fonte de ideias. A África não apenas tem um futuro pela frente, mas o moldará decisivamente. Vejo, na situação atual, chances de um recomeço efetivo no planejamento de museus na África: de um lado, na readequação de museus existentes; de outro, na redefinição das estruturas de museus e suas tarefas. Enquanto os museus europeus foram profundamente influenciados pelo Iluminismo e estruturados como templos da arte, e até mesmo como mausoléus, o museu africano pode ser um filho da emancipação: um lugar de ação, diálogo e vivacidade, um museu sem muros, que inclui a rua e seu povo com suas questões, experiências e vivências – um espaço social, que assimila técnicas culturais específicas e dá voz a elas. Assim, o museu não apenas pode se tornar uma parte integrante da sociedade, como ser ao mesmo tempo um espaço produtivo para os debates na África e além dela. Vale a pena repensar o cânon.