Zukiswa Wanner Sutiã azul em cima de uma bolsa samsonite

Jovens modernas em um mercado de Nairóbi (Quênia)
Jovens modernas em um mercado de Nairóbi (Quênia) | | Foto (detalhe): Sandra Gätke © dpa-Report

Por Zukiswa Wanner

J’s. Quinta à noite. Música ao vivo. Onde os wazungu podem fazer parte sem se sentir desconfortáveis. E onde nós, que nos chamamos de classe média como só os nairobianos sabem chamar, nos reunimos. Onde podemos apreciar música ao vivo sem nos preocupar com o couvert. E esperamos que nossos amigos músicos não esperem que compremos seus CDs com nosso escasso dinheiro da bebida. Noite de quinta no J’s. Música ao vivo. Foi onde nos conhecemos.

Noite de quinta no J’s. Um ano depois da música ao vivo. Foi quando finalmente pude desapegar. Pôr um ponto final. Esbarramos uma na outra em um restaurante próximo e discutimos à beça. Em uma certa hora achei que nos expulsariam. Os garçons certamente já estavam a ponto de fazer isso várias vezes. Mas foi no J’s que, depois de termos de certa forma resolvido tudo, extravasei na dança toda a raiva reprimida e o rancor que tinha guardado em mim. E uma ambulância que eu sabia que não chegaria a tempo, não chegou a tempo.

O tráfego pode diminuir à noite na minha Nairóbi, mas ainda é difícil entrar e sair do J’s. Rashid leva para lá tantos músicos memoráveis. É por isso que aplicativos como o Uber, Taxify e Little Cab são uma bênção. Bem, e o fato de muitos dos festeiros não precisarem dirigir depois da noitada. Para uma ambulância que tentasse passar por ali, seria uma maldição.

Então pus um ponto final. Mesmo que nunca fosse deixar ninguém, nem mesmo Nina, saber. Ela me acusa de ser muito barbie. “Nós somos africanas, Aluoch.  Que negócio é esse de ponto final de que você está falando? Às vezes você é mais mzungu do que lhe faz bem.” E talvez eu seja. Afinal, frequentei a Msongari, quando ela ainda era a Msongari. Quando ela era a Brookhouse das escolas para meninas.

Naquele tempo as escolas públicas eram muito mais funcionais do que são hoje. Antes que todo pai ou mãe que pudesse conseguir um empréstimo decidisse que escolas públicas eram medíocres, e colocasse seus filhos em escolas particulares. Mas eram pais como os meus que acreditavam na excepcionalidade das escolas católicas, e duvidavam da capacidade de escolas como a State House Girls de nos educar.

De certa forma, a Msongari ainda é considerada excepcional, suponho. Mas você sabe como as coisas degeneram depois que as deixamos? Foi assim com a Msongari. E com Thandi. Thandi, a razão da minha busca pelo ponto final.

Nina ri toda vez que me refiro à nossa estação de frio como inverno. Ela diz que inverno é um conceito mzungu. E que Nairóbi apenas tem chuvas longas e chuvas curtas ao longo das estações de chuva e seca. Eu juro que, se você a ouvisse falar, não saberia que ela própria é casada com um mzungu. A forma como ela diz “coisas de mzungu” com tanta frequência, e com tanto desprezo. Talvez a intimidade realmente produza desprezo. Estou divagando.

Assim, foi no inverno passado que conheci Thandi no J’s. Camisa polo preta, jeans apertados, uma jaqueta Ankara aberta e botas. A África encontra o Ocidente na moda. Eu me lembro, porque, quando entrei no apartamento da Thandi, a uma pequena caminhada do J’s, não conseguia tirar  tudo dela rápido o suficiente. Eu precisava sentir a pele dela junto à minha. Eu estava com meu ex-namorado, Stan.

A não ser pelo fato de que ele ainda não era ex. Esse foi o dia em que ele se tornou ex. Stan e eu tínhamos brigado bastante. Ele tinha se tornado aquele típico homem de Nairóbi que tanto ele quanto eu tínhamos ridicularizado no começo do nosso relacionamento. Controlador. Excessivamente machista, como se quisesse compensar sua inabilidade em fazer as coisas boas que tinha prometido.

Sim, claro. Eu gosto de nyama choma de vez em quando, e tolero uma ou três cervejas, mas fazer disso um estilo de vida? Os preços de champanhe são ridículos em Nairóbi, mas podemos ter, com mais frequência, alguma coisa espumante que não seja uma cerveja? Um conhaque, se pudermos conseguir um com Chandarana, e garantir que não seja produzido pelas irmãs da morte em Korogocho, como provavelmente seria no nosso Wine and Spirit local? Ele estava assegurando que eu, que era o rosto (e me atrevo a dizer, o corpo) da África, engordasse? Algumas pessoas ficam lindas com carne nos ossos, e pareceriam horríveis mais magras. Eu não sou uma delas, no entanto. Estou confortável no meu corpo, muito obrigada. E eu não permitira que Stan baixasse meus padrões de conforto com seu nyama choma e suas cervejas.

Ele disse que o meu custo de manutenção era alto demais. Como se não soubesse disso quando começamos a nos encontrar. Homens te enchem de vinhos e jantares quando estão te paquerando. Depois começam a reclamar e decidem que teu custo de manutenção é alto demais, quando tudo que você quer deles é que mantenham os padrões que estabeleceram no começo.

Nina me encontrou triste naquela quinta e sugeriu que saíssemos para acabar com a tristeza na dança. A banda Chris Adwar and the Villagers estava tocando. Uma de minhas favoritas.
“Aonde vocês estão indo?”, Stan tinha perguntado. “J’s”, respondeu Nina, antes que eu pudesse dizer a ela para calar a boca. “Vou com vocês. Faz tempo que não dançamos, garota”, ele me disse.

Depois dessas palavras, tivemos que levá-lo. Embora eu preferisse muito que ele não tivesse ido, e que tivesse sido só uma noite de garotas. Por fim acabou sendo uma noite de garotas, graças a Thandi. Thandi, uma Maasai com um nome zulu. Thandi, cujo nome significa amor. Thandi, que eu pensava que fosse amor. Até que ela traísse o nosso amor. Nos conhecemos na fila do banheiro.

Eu sei. Não é o mais romântico dos lugares para conhecer alguém. Depois que a deixei, muitas vezes imaginei se aquele encontro não foi um prenúncio do relacionamento de merda que tivemos depois. Mas tudo bem. Fiquei atrás dela na fila, ela se virou e olhou para mim como se estivesse hipnotizada. “Meu Deus, mas você é tão bonita”, disse com um suspiro. Eu tinha olhado para trás, para ver se havia lá alguém com quem ela estivesse falando. “Não olhe para trás. Estou falando com você”, ela disse, agora claramente se dirigindo a mim. Ela tinha uma voz rouca e sedutora. “Seus traços são tão impressionantes.” Eu não sabia o que dizer.  “Você é a mulher mais bonita que eu já vi.”

Não vou dizer que não é uma coisa de Nairóbi, falar com estranhos. Mas certamente não é uma coisa da minha Nairóbi. Elogios ou comentários aleatórios de estranhos, quando dirigidos a mim, me enchem de desconforto. Aquela mulher não fez com que eu me sentisse desconfortável, no entanto. Acho que até sorri. Como se eu tivesse alguma coisa a ver com a minha aparência. Bem, talvez eu tenha, de certa forma. Alguma esfoliação ali. Alguma hidratação aqui. Uso de filtro solar, quando necessário. Posso ser escura, mas não acredite no que dizem sobre negros não precisarem de filtro solar. Eu sei do que estou falando. Minha mãe é a primeira dermatologista do Quênia. E, para o corpo, 90 minutos de yoga Bikram cinco vezes por semana. Mas, mesmo assim, minha aparência é principalmente um privilégio genético. As pessoas normalmente acreditam que a minha mãe de 73 anos é 20 anos mais nova.

Mas voltemos a Thandi, com um nome zulu. Ela foi ao toalete, e então saiu. Eu fui depois dela, e saí. Ela estava esperando por mim. “Você realmente é deslumbrante.” Sorri abertamente, e disse “obrigada”.

“Vou pegar um drink. Pego um para você?” Era o J’s. Apesar de não se poder confiar em ninguém, eles provavelmente são confiáveis com seus fornecedores. Os três Tuskers que o Stan tinha pedido e eu tinha bebido me davam a sensação de estar inchada.  “Claro. Um conhaque. Duplo.” – ‘Uma mulher bem a meu gosto. Também sou uma garota do conhaque. Conhaque saindo.’

Quando voltou, ela arranjou os conhaques na mesa junto à porta. Ela me olhou diretamente nos olhos e disse: “Não me apresentei para você, linda. Sou Thandi. Isso significa ‘amor’ em zulu, mas sou Maasai.” Quando penso nela, penso nessa frase, porque foi como ela se apresentou o tempo todo. Ela não estava mostrando escrúpulos em me seduzir, e gostei disso. “Como você recebeu esse nome?”, perguntei. “Longa história de um pai exilado da era Moi com um melhor amigo zulu na Tanzânia. Recebi o mesmo nome da mulher dele.”

“É?” Então percebi que não tinha me apresentado. “E eu sou Aluoch”. Estendi minha mão para tocar a dela. Depois pensei em todas as maneiras mais inteligentes que eu poderia ter usado para me apresentar. Faço isso com frequência. Penso, depois do fato, nas coisas inteligentes que eu poderia ter dito. Quando nossas mãos se tocaram, senti algo. Algo me puxando para ela. Quis segurar a mão dela para sempre.

Até então, eu achava que era heterossexual. Mas Thandi era o tipo de mulher que eu me sentia lisonjeada por atrair. Bonita. Com classe. Confiante. Femme. E, como mais tarde eu descobriria, inteligente. Tudo que eu aspirava ser. Naquela quinta, no J’s, parei de me sentir lisonjeada, não fiz uma observação educada do tipo “obrigada, mas gosto de homens…” Eu a puxei para mim e a beijei com a mesma ousadia que ela mostrou quando começou a conversar comigo.

Nos separamos com Stan atrás de mim, puxando meu vestido pelo ombro. “Aluoch. O que você está fazendo? Você está bêbada?”, ele perguntou, confuso. Nina estava sorrindo ao lado dele. “Desista, Stan. Mulheres sabem o que uma mulher quer melhor do que qualquer homem. Você não vai ganhar essa.” – “Mas Aluoch não é…”, ele engasgou, “ela não é lésbica.”
Nina disse, maliciosamente: “Adoro quando uma lésbica ‘rouba’ uma mulher de um homem”. Ela até fez as aspas com as mãos. Finalmente encontrei minha voz. “Desculpe, Stan”, e então olhei para Thandi e perguntei, “para onde vamos?”

Thandi olhava para Stan quando me respondeu. Sua voz escorria aquele tipo de desafio que só ouvimos entre machos cheios de testosterona. “Minha casa fica a uma pequena caminhada daqui. Vamos?” Se Thandi não fosse uma mulher, Stan a teria socado. Ele olhou para mim com expressão questionadora. Dei de ombros e apertei a mão de Thandi. Exibindo a minha escolha. Ele suspirou resignado e então se afastou. Aquela foi a última vez que vi Stan. Tanto faz, pensei então.

Nina, que deve ter pensado que era algum tipo de piada e apenas uma maneira de me livrar do Stan, olhou para mim assim que ele saiu e perguntou: “E aí?”

Nina e eu temos sido amigas desde a creche, e eu a surpreendi algumas vezes ao longo da vida, mas desta vez ela  ficou pasma. “Eu te ligo amanhã. Estou saindo. Mas, antes que eu saia, Thandi, conheça minha amiga Nina. Nina, esta é Thandi.” Elas balançaram as cabeças uma para a outra e disseram educadamente “prazer!”, como fazem os nairobianos.
 
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Eu fico com a minha mãe em Muthaiga, a não ser quando não fico. Nos primeiros seis meses com Thandi, não fiquei. Aquela primeira noite disparou uma coisa que pensei que duraria para sempre. Nossos corpos estavam em sintonia de uma forma que eu nunca tinha sentido com ninguém antes. Ela sabia onde tocar e como me levar a alturas vertiginosas. E assim que eu chegava perto da explosão, ela reduzia a intensidade e começava tudo de novo. Depois das idas e vindas o alívio era sempre alucinante. Aquela primeira noite acabou com Thandi me levando em casa depois de uma semana, conhecendo minha mãe e conversando com ela, enquanto eu enchia minha bolsa Samsonite com algumas coisas essenciais. Se minha mãe ficou surpresa com meu novo relacionamento mulher-mulher, ela não demonstrou.


Naqueles seis meses que passei com Thandi, minha mãe se referia a ela da mesma maneira como que se referia a todos os caras que eu tinha namorado: Stan, que ela dizia que era muito shags, porque seus pais ficaram na região rural de Busia; Mbatian, com quem ela acha que eu devia ter me casado, porque ele era cortês e vinha de uma boa família; Owino, que ela dizia que era muito luo, porque só se dirigia a ela em luo apesar de ela responder em inglês, e usava jaber como um termo carinhoso para se referir a mim; King’ara, que fazia festas demais o que, para a minha mãe, era sinal de que ele não era Kikuyu o suficiente, porque seu dinheiro era gasto antes que ele o recebesse. Ela se referia a todos eles como “seu amigo”. Mantendo a ideia puritana de que sua terceira e última filha não era sexualmente ativa, e de que esses eram apenas meus amigos, apesar do óbvio. Então, como está sua nova amiga, Thandi? Ela precisa de novas hortaliças da horta? – Esbarrei com seu velho amigo, Mbatian. Ele acabou de se divorciar. Tenho o número dele. – Seu amigo Stan veio deixar suas roupas outro dia. Ele parecia estar com muita raiva.

Sei com quanta raiva Stan estava. Ele tentou me embaraçar outro dia no Twitter, postando uma imagem photoshoppada de Thandi e mim com a legenda pouco imaginativa, “Deus fez Adão e Eva e não Madame e Eva”. A favor dele, alguns homens homofóbicos e o presidente do Conselho de Cinema falando sobre o lesbianismo ser contra a nossa cultura, além de anticristão. Como se cristianismo fosse da nossa cultura. A meu favor, os guerrilheiros das redes sociais conhecidos mundialmente como  KOT (Kenyans on Twitter – Quenianos no Twitter) ou faziam piada por ele ter perdido sua mulher para uma mulher (os caras), ou por não saber como satisfazer uma mulher (as mulheres). Por mais engraçado que fosse, tudo era pouco sutil. Antes de Thandi, Nina e eu frequentemente imaginávamos se não havia velhos tios e tias africanos que nunca se casaram, mas tinham amigos íntimos, como diria minha mãe, do mesmo sexo, com quem viviam. Bloqueei Stan em todas as redes sociais.

Thandi trabalhava para um dos principais empregadores do Quênia… o setor de ONGs. Assim, esses seis meses foram mágicos. Preenchidos, como foram, por suas viagens e constantes reuniões que faziam de cada dia uma lua-de-mel. Sou uma estilista de moda. Não. Não como todo mundo em Nairóbi diz que é. Eu realmente sou. Me abasteço de materiais de todo o continente. Apenas o melhor vai servir aos meus clientes. Tenho três alfaiates que trazem à vida os meus desenhos. Mas a maior parte da classe média de Nairóbi não é realmente classe média.

Pessoas que ganham 40 mil shillings por mês proclamam nós, a classe média meramente por terem uma conta no Twitter, uma geladeira e uma televisão, e por poderem ir de vez em quando ao Java. Isso essencialmente torna minhas roupas fora de alcance para muitos que preferem se abastecer com roupas de design de segunda mão no mercado de brechós.

Geralmente só recebo pedidos para ocasiões especiais, como casamentos. Meus maiores e mais consistentes clientes são: minha irmã mais velha, casada, o guru de relações públicas de uma corporação internacional, algumas velhas garotas da Msongari, e minha mãe e seus amigos boas-praças, de todas as comunidades (apenas quando não é temporada de eleições no Quênia). E, é claro, minha outra irmã fará pedidos sempre que conseguir alguém que voe de sua casa daqui para sua casa em Boston. Esses clientes constantes não pagam as minhas necessidades e mais um aluguel. Assim, ficava com a minha mãe. Até me mudar para a casa da Thandi.

A mudança para a casa dela significou que eu tinha um lugar para mim mesma quando ela estava no trabalho ou viajava para fora do país. Eu podia fazer meus esboços à vontade, e meu estúdio de yoga ficava mais perto da casa dela que da casa da minha mãe. Felicidade. Até que deixasse de ser. Minha mãe ficou doente.

Akoth está na América. Atieno tem marido e filhos, e mora do outro lado da cidade, em Karen. Isso me fez deixar meu ninho de amor em Westlands para voltar a Muthaiga e, assim, poder estar com minha mãe.

No Aga Khan disseram que era o Grande C. Câncer. Melhor ir para a Índia. Ainda está no estágio inicial, e os médicos de lá são mais bem equipados. Uma amiga, médica desiludida, disse uma vez que essas referências à Índia são uma farsa. E que nossos médicos se envolvem nisso para conseguir um dinheiro extra. Tentei dizer às minhas irmãs, mas elas não se importaram.  “Olha, Aluoch, qual é o seu problema? Nós vamos pagar, é o nosso dinheiro. Tudo que você tem que fazer é estar lá com a mamãe. Vá com ela para a Índia”, disse Atieno em tom de repreensão.

Estúpida senhora perfeição. Por que ela não vai? Quase perguntei, mas então me lembrei que, como a artista da família, tudo que eu tinha a oferecer era a minha presença. Se elas me pedissem que pagasse um terço das despesas da mamãe, eu não poderia. Sawa tu, pensei, balançando os ombros em aceitação. Thandi foi uma estrela. Me ajudou com os vistos e com todos os preparativos que precisavam ser feitos. Mamãe brincou e a chamou de filho que ela nunca teve. Não acho que ela tenha realmente aberto a cabeça para um relacionamento entre pessoas do mesmo sexo.

Sete semanas. Foi quanto tempo passamos na Índia. Três semanas de ansiedade e quatro semanas de recuperação da mamãe. Foi quando mamãe fez amizade com um médico que compartilhava seu interesse por jardinagem. Foi do médico que mamãe ouviu sobre o inseticida que protegeria suas plantas de insetos. Kurudan. Um potente veneno para plantas e humanos. Mamãe conseguiu algum para suas plantas. Empacotei o inseticida para ela quando deixamos a Índia. Voltamos para casa, com o câncer de mamãe em remissão.

Tentei retomar meu relacionamento com Thandi. Thandi, que tinha sido uma estrela. Até que não fosse. Sete semanas. Não parece ser um tempo muito longo. Mas mesmo assim pode ser. Pode. Uma pausa para o banheiro pode ser um longo tempo, como Stan descobriu uma noite de quinta no J’s.

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A primeira semana foi como os seis meses anteriores à minha partida. Mas então comecei a notar mudanças em Thandi. Ela chegava em casa um pouco mais tarde. Mudava um pouco mais nas pequenas coisas. Soava um pouco mais crítica.

E, então, o dia final. Sexta. Eu a chamei no trabalho. “Escuta, podemos fazer um jantar hoje? Precisamos conversar.” – “Sawa”, ela disse, soando descompromissada. Fiz o jantar. O prato favorito dela. Fiz até mesmo a sobremesa. E eu não gosto de doces.

Consegui duas garrafas de conhaque. Remy Martin. Só o nosso favorito serviria. Encontraríamos o caminho de volta uma para a outra, ou precisaríamos deixar uma à outra. Mas eu não poderia ser acusada de não tentar.

Preparei minha bolsa Samsonite, para o caso de não conseguirmos encontrar nosso caminho de volta uma para a outra. Eu não queria um adeus prolongado fazendo as malas, se fosse o caso. Ou, como foi com Stan, não queria ter minhas roupas deixadas na casa da minha mãe.

Coloquei minha bolsa Samsonite no quarto de hóspedes. O jantar estava pronto. Depois o jantar esfriou. Thandi não veio. Ela não enviou uma mensagem de WhatsApp. Nem um SMS. Ela não atendeu meu telefonema. E quando tentei ligar de novo, seu telefone estava fora de área.

Eu sabia que ela tinha desligado. Thandi, minha então namorada Maasai, cujo nome significa amor em zulu, detestava baterias descarregadas e sempre levava dois carregadores com ela todo o tempo. Ao entrar na casa de alguém sua primeira pergunta, antes mesmo da senha do WiFi, era onde ficava o banheiro: “Posso carregar meu telefone?”

Esquentei um prato para mim. Jantei. Comi até mesmo a sobremesa. Bebi Remy diretamente da garrafa. E chorei. Eu nunca tinha chorado antes por um relacionamento, mas Thandi, uma garota Maasai cujo nome significa amor em zulu, me fez chorar.

Às 6 da manhã tomei uma ducha na nossa suíte. Thandi não tinha vindo para a cama. Talvez ela não tivesse vindo para casa. Eu iria embora.

Não. Thandi tinha vindo para casa. No quarto de hóspedes, quando abri a porta, uma mulher estranha se sentou na cama. Ela esperava por Thandi. Ela viu outra mulher que não conhecia. Ela tinha uma pergunta em seu rosto. Quem é você? Sorri um sorriso amarelo. “Olá.”

“Oi”, ela respondeu. “Thandi ako?”, perguntei. “Toalete”, ela respondeu. Enquanto eu olhava para ela, senti uma facada no peito. Seu aplique barato, sua maquiagem extravagante não retirada antes de dormir... e... e... seu sutiã azul barato, do tipo que se compra no Cinema Globo, em cima da minha bolsa Samsonite.

Se Thandi queria terminar, por que ela precisava descer tão baixo? Aquele sutiã azul em cima da minha bolsa Samsonite. Aquilo, para mim, foi a última gota. Joguei aquilo da bolsa, peguei minha bolsa e fui embora da casa de Thandi.

Hoje foi a primeira noite em que a vi depois de ter ido embora. O kurudan, que transfiro para qualquer bolsa que eu use, não era acidental. O encontro no Manor 540 foi. O restaurante, que agora serve o melhor peixe da cidade, costumava abrigar o governador colonial britânico, Evelyn Barring. Um lugar interessante para levar britânicos de ONGs em Nairóbi, em 2018. Mas britânicos de ONGs precisam comer também. Embora sua habilidade de discernir entre comida boa e comida ruim seja questionável.

Ela se afastou de seus wazungu da ONG e eu, de Nina. Nos sentamos e conversamos enquanto dividíamos um jantar de peixe. A intimidade de dividir um peixe mexeu tão fortemente com a raiva na minha voz. Eu me aqueci. Percebi que os garçons frequentemente queriam intervir. Uma vez o gerente se aproximou e perguntou “está tudo bem?”, com uma voz solícita que nos ameaçava de despejo. Thandi explicou algo ao gerente. Ele se afastou.

Ela me explicou também. Algo diferente. Estava tudo demais, ela disse. Ela não estava pronta para um relacionamento sério, declarou. Ela não sabia o que me dizer, e por isso não foi àquele jantar, acrescentou. A outra mulher não significava nada. Ela nem sequer se lembrava do nome, garantiu. Balancei a cabeça, parecendo entender.  “Por que você e seus amigos não se juntam a Nina e mim no J’s, depois disto?” – “Boa ideia”, disse Thandi, que é Maasai, mas cujo nome significa amor em zulu. Saímos juntos, um grande grupo aparentemente feliz.

Chegando ao J’s, sorri para ela e, “já que finalmente consegui terminar, o primeiro conhaque eu pago”. Ponto final o cu da minha yoga Bikram. Eu trouxe dois conhaques para nós. O J’s está cheio como sempre, nas noites de quinta. O kurudan encontrou seu caminho até o copo dela antes que eu caminhasse de volta para ela. “Obrigada, garota”, ela disse.  “Estou feliz que estejamos bem agora.” Ela bebeu.

Eu seu último minuto antes de desmaiar, vi aquele olhar de reconhecimento. De saber o que eu tinha feito. Na primeira semana do meu retorno da Índia, eu tinha dito a ela que o kurudan tem seus efeitos. Tinha contado como os fazendeiros que não conseguem pagar suas dívidas tomam algum com conhaque. Ela provavelmente nunca tinha imaginado que tinha uma dívida a pagar. Até esse momento, antes do desmaio.

“‘Não acho que Thandi pareça muito bem”, eu disse a alguém dos wazungu. “Meu telefone está morto. Alguém pode chamar uma ambulância?” – “Qual é o número? Qual é o número da ambulância?”, alguém perguntou. Comecei a chorar.

J’s. Noite de quinta. Durante a música ao vivo. A banda está improvisando. A multidão está dançando.
O lugar está cheio. Os wazungu na minha mesa estão gritando. Thandi, uma Maasai cujo nome significa amor, está convulsionando. E eu, eu estou secretamente sorrindo.

Todos à minha volta me veem chorar. Mas eles não sabem. Ponto final. Até que enfim consegui o meu hoje. Por um sutiã azul barato em cima da minha bolsa Samsonite.