Vivendo nos mitos dos outros Carta aos alemães

Achille Mbembe
Achille Mbembe | Foto (detalhe): David Harrison / Buchhandel Bayern © dpa

Quais questões preocupam Achille Mbembe? No diário alemão “Tageszeitung (taz)”, ele descreve seu “pensamento sobre a travessia de identidades”.

Por Achille Mbembe

Não me considero de forma alguma em julgamento na Alemanha. Para quem quiser se engajar em um debate construtivo sobre a minha obra, que teve somente parte dela traduzida para a língua alemã, gostaria de fornecer aqui algumas chaves de interpretação.
 
Compreender a genealogia de uma obra e suas eventuais contradições exige saber em que contexto ela nasceu e se desenvolveu, quais são as questões às quais ela tenta responder, em que idioma, em que grandes debates ela se insere e quais foram seus pontos de virada. Isso vale para todo produto do espírito, pouco importando a região do mundo de onde ele vem, ou a língua em que adquiriu forma.

Para aqueles que realmente buscam entender o sentido da minha abordagem, ou o conteúdo da minha reflexão dentro da perspectiva de um diálogo intercultural, os interrogatórios não têm nenhuma utilidade. Em uma época que busca bodes expiatórios, excomunhões e distribuição de anátemas, espero que estas chaves ajudem a abrir o caminho para um debate racional sobre as grandes questões morais e políticas que colocam alguns de nós em posições opostas.

Minha prática intelectual pode ser definida como uma viagem incessante ou, de preferência, como um movimento sem fim entre uma margem e outra. É o que chamo de “travessia”. Ela exige que a pessoa deixe o conforto do que já sabe e se exponha conscientemente ao que ameaça desestabilizar suas próprias certezas. Pensar, neste contexto, é correr riscos, incluindo o risco de ser mal compreendido ou mal interpretado. E tal estado de espírito é talvez próprio daqueles que, nascidos em qualquer lugar, partiram muito cedo e numa mais retornaram ao berço.

A herança dupla de Camarões

Em Camarões, onde nasci, recebi uma herança dupla. A primeira deriva de minha educação escolar em excelentes instituições cristãs. Não fui apenas exposto à cultura europeia clássica. A Igreja Católica, seus dogmas, seu catecismo e suas mitologias fizeram, desde muito cedo, parte do meu imaginário.

É isso que explica talvez o fato de que, mais tarde, o cristianismo como tal tenha se tornado objeto da minha reflexão. Tendo entendido este, acima de tudo, como um regime de verdade, podemos dizer que aquilo a que me apeguei desde o início do meu percurso intelectual foi uma crítica do Absoluto.

As teologias do Absoluto não são próprias somente das Igrejas. Elas também são próprias dos poderes profanos. Esse foi o caso do Estado nos nossos países. O Estado, sob sua forma colonial, e sob aquela das tiranias pós-coloniais, tornou-se muito rapidamente a outra prioridade do meu trabalho.

A segunda herança, recebi de minha avó, uma camponesa iletrada que havia participado da luta contra o colonialismo e que nela havia perdido seu filho único, assassinado pelo Exército francês em 13 de setembro de 1958. Foi ela que me introduziu na questão do anticolonialismo e também na questão das memórias esquecidas, em particular a memória dos vencidos da história.

Agora, justamente, seja qual for o ângulo a partir do qual examinemos, os povos da África pertencem aos vencidos da história. Como, enquanto comunidade histórica, sair da derrota e aprender a ganhar outra vez? É uma questão que tem retido minha atenção desde a infância.

Acontece que, entre todos os territórios sob dominação colonial francesa na África sub-saariana, Camarões foi o único onde a reivindicação de autonomia terminou em conflito armado. O movimento nacionalista, que havia conduzido a resistência, foi militarmente vencido. Apoiando-se em dispositivos de Estado, os que tomaram o poder no dia seguinte à independência fizeram de tudo para apagar a memória dessa resistência.
 

“Através da Bíblia, que não escolhemos para nós, Israel irrompeu em nosso mundo.”

Meus primeiros trabalhos acadêmicos relacionam-se justamente a essa tentativa de fabricar o esquecimento.

Essa experiência de apagamento da memória dos vencidos desempenhou um papel importante nas minhas reflexões sobre políticas de recordação e sobre as minhas análises do Estado pós-colonial e das figuras contemporâneas da tirania. E foi só aos poucos que acabei compreendendo que isso dificilmente era característico dos poderes africanos.

Devo acrescentar que foi também minha avó que me iniciou na leitura da Bíblia. Adolescente, encontrei na Bíblia um universo extraordinário que pouco a pouco se tornou familiar para mim. Muito cedo, em meu espírito, a história bíblica e a história anticolonialista se conectaram entre si, até o ponto em que terminei mais ligado à Bíblia e suas figuras que à Igreja e seus dogmas, e mais à memória esquecida dos vencidos que à teologia de Estado, que pretende deter o monopólio da verdade.

Uma suspeita insurrecional

Existe, portanto, no cerne da minha abordagem, uma suspeita insurrecional, temperada por uma fibra utópica. Essa fibra utópica, fundamentada sobre a ideia de recusa radical das condições reais e dos jogos de poder, aqueles que me perseguem hoje não sabem que a encontrei em certas tradições do pensamento judaico.

Quando deixei Camarões para dar prosseguimento a meus estudos em universidades francesas, já tinha em meu espírito os grandes temas que iriam orientar meu projeto intelectual nos anos 1980-2000.

O primeiro tratava de uma crítica política do cristianismo. Muito mais do que uma instituição dotada de um poder centralizado, acabei concebendo o cristianismo como um sonho e uma visão ao mesmo tempo.

Eu queria saber o que restaria desse sonho se o despíssemos de suas expressões dogmáticas. A Igreja com suas hierarquias é, em última instância, a expressão da comunidade? Ou podemos imaginar comunidades que não têm o exercício do poder como tarefa principal, mas sim o compartilhamento, o serviço e o cuidado com os mais frágeis entre nós?

Para além da Igreja, eu queria refletir sobre a possibilidade do comum, do “em comum”, de comunidades que sejam fundamentadas não sobre a fé e o parentesco, mas sobre a razão e a solidariedade. Não sobre a ideia do Um, mas sobre a da multiplicidade. Não sobre a absolutização da memória do sofrimento e da derrota, mesmo que provisória (o Calvário), mas sobre a antecipação da ressurreição, o que quer dizer a esperança de uma outra vida, nunca realizada por estar sempre à frente de nós.

Aqueles e aquelas que leram com atenção Afriques indociles (Paris, Editions Karthala, 1988) sabem que se trata de um momento-chave nessa investigação. Para escrever esse livro, fui obrigado a prestar toda a atenção possível na história dos monoteísmos.

Fui obrigado a ver em que medida o monoteísmo se definiu, em nosso contexto na África, não contra o politeísmo como o grego, mas contra o que chamamos de animismo.

No prolongamento dessa problemática, passei muito tempo estudando os sistemas de pensamento da África pré-colonial, para construir uma ideia sobre a maneira como, naquela África, o cosmo e o universo inteiro faziam parte integral das forças vitais.

Não se pode compreender quase nada do que digo e escrevo se não se souber que tudo que digo e escrevo tem suas origens na metafísica africana das coisas vivas, nos conceitos africanos de energia vital, da circulação dos mundos e da metamorfose dos espíritos. Uma grande parte da minha reflexão enraíza-se precisamente nesses sistemas onde o princípio da multiplicidade prevalece sobre o do Um.

Contra a política da identidade

O trabalho sobre a memória dos vencidos ou, ainda, sobre a política da recordação, se traduz em La naissance du maquis dans le Sud-Cameroun (Paris, Karthala, 1996). A crítica à tirania do Estado deságua em De la postcolonie (Paris, Karthala, 2000). Este trabalho, diga-se de passagem, não faz de mim um pensador pós-colonial, como afirmaram com frequência muitos comentaristas da imprensa.
 
Foi em 2001 que me instalei na África do Sul. Vivendo nesse país, por muito tempo dei aulas nos Estados Unidos em parte do ano. Ao mesmo tempo, eu havia guardado profundos laços com a França, para onde vou com frequência, e onde toda minha obra foi publicada
 
Entre 2001 e 2010, minha vida na África do Sul e o curso do mundo me forçaram a aprofundar o tema da memória, não mais sob o ângulo do esquecimento e da derrota, mas sob aquele das identidades que sofrem em sua relação com a ética da liberdade. Isso me levou a examinar de perto dois casos: a experiência dos afro-americanos nos Estados Unidos e a história da segregação racial na África do Sul.
 
Diante dessas duas trajetórias muito diferentes, tratava-se de reinterrogar o conceito de identidade negra (blackness), de parar de fazer dela o paradigma por excelência da diferença, ou de um mundo à parte. Eu queria, pelo contrário, voltar às tradições do pensamento africano e diaspórico que insistem na semelhança, na similaridade e na abertura para o vasto mundo. Queria colocar o dedo sobre o que, na experiência do mundo moderno, terá feito a universalidade da condição negra.
 
Relativizando as identidades raciais, recusando-me a essencializá-las e virando as costas às ideologias da diferença, eu procurava desenvolver uma teoria sobre o que chamei de “em comum”. Esse trabalho se traduziu em duas obras: Sortir de la grande nuit (Paris, La Découverte, 2010) e Critique de la raison nègre (Paris, La Découverte, 2013). Cada uma dessas obras, assim como todas as que se seguiram, terminam com um chamado à esperança e à reparação.
 
Desde então, minha reflexão trata resolutamente das condições para o surgimento de um mundo comum nas condições atuais, marcadas como são pela escalada tecnológica, a crise climática e a lenta combustão do planeta. Quando, em Critique de la raison nègre (Crítica da razão negra, na tradução para o portugês), falo da “universalização da condição negra”, é precisamente para dar as costas à política identitária, uma das fontes contemporâneas de inimizade. As teorias da diferença e da identidade já serviram no passado como alavancas para as lutas por igualdade e justiça. Não é mais o caso hoje. Elas foram capturadas pelas forças do conservadorismo e se tornaram instrumentos de divisão absoluta.  
 
Nessas condições, o imperativo é retomar com um novo impulso, novas forças, e a partir de todos os arquivos do mundo, a pesquisa sobre as possibilidades de uma humanidade solidária com o conjunto de seres vivos.  Tento articular esse retorno a uma ideia de “raça humana” com a ideia do ser vivo em seu conjunto, com um esforço que integre esse outro componente indivisível que é a biosfera. Toda a crítica à inimizade feita em Politiques de la inimitié (Políticas da inimizade, na tradução para o português) e em outros textos recentes visa apenas a esse objetivo. 

Através da Bíblia Israel se enraizou em nós

Esses que hoje me perseguem sem razão válida, e que me devem desculpas públicas, alegam ter encontrado, em uma nota que escrevi ao retornar de uma viagem a Israel, em 1992, a prova de que foi Israel que me forneceu o ponto de partida de minhas reflexões.  
 
Ao fazerem isso, eles nem mesmo estão conscientes do racismo e do paternalismo que veiculam. A verdade é que me esforço para desenvolver um pensamento de travessia – travessia dos mares, travessia das fronteiras, travessia das identidades e desfetichização das origens. Pode ser que é a isso que eles, ao fim, se oponham efetivamente, convencidos que são de que é hora das fronteiras e das fortificações. 
 
Há, no Ocidente, uma longa tradição de relatos de viagem. Os relatos de viagem não são tratados de história ou sociologia. Muito frequentemente, trata-se de anedotas. Seu objetivo é servir de dica a quem quer se autoquestionar.  
 
A literatura europeia está cheia desse gênero de textos, nos quais o viajante evoca a África, a China, a Pérsia ou outras regiões do mundo. Essa evocação não tem por objetivo dizer quem são verdadeiramente os africanos, chineses ou iranianos.  
 
 

“O que significa viver nas tradições de outros? Toda pessoa colonizada se faz essa pergunta.”

É sempre como em um espelho que engorda, ou, mais frequentemente, que deforma, que eles se referem a si mesmos com o objetivo de se assegurarem sobre o que efetivamente são, ou para reforçar o sentimento do que acreditam ser. Na minha nota de 1992, conto de maneira muito furtiva, ou até mesmo ingênua e romanceada, por vezes hiperbólica e por vezes poética, minhas impressões de viagem logo após um seminário em Israel. 

Aqui e ali, adoto conscientemente a atitude de uma criança maravilhada, com o objetivo de sugerir ao leitor camaronês a parte onírica e a parte de sonho da qual falo. Ao fazer isso, tento enviar o leitor a esse momento de minha infância em que devia ler extratos da Bíblia para minha avó iletrada. 

De fato, através da Bíblia, que não escolhemos para nós, Israel irrompeu em nosso imaginário e lá se enraizou. Como aconteceu com todos os elementos culturais que recebemos com a colonização, abrimos espaço para Israel no nosso imaginário, em particular no dos cristãos. Todos os que se deram ao trabalho de observar nossas sociedades e de estudar nossas culturas podem testemunhar que essa hospitalidade jamais foi simulada. 

A colonização do pensamento

As questões que me preocupavam na época eram as seguintes: o que significa viver nos mitos e tradições de outros? O que acontece quando nos damos conta de que esses mitos e sonhos, que tomávamos por verdades, no fundo eram apenas lendas? Nós os rejeitamos inteiramente, ou os assumimos na esperança de que orientem a existência de uma forma produtiva de vida?

Essas perguntas, todos os colonizados se fazem. Elas não são abstratas. Elas condicionam a existência. Nas tradições culturais às quais eu pertenço, elas retiveram a atenção de cada geração. Pois, no que nos concerne, trata-se frequentemente de heranças impostas. Muitas vezes, elas não são escolhidas. Esse é notadamente o caso da religião, da língua e do Estado.

Nessas condições, uma parte do trabalho realizado por pensadores provenientes de países antigamente colonizados consiste em organizar essa crítica, muitas vezes tateando, pois não existem respostas definitivas.  Como também não existem perguntas definitivas. As perguntas devem ser constantemente reformuladas e, no ato de reformular as questões, aceitamos que possam ocorrer erros e aproximações.   

Isso, em todo caso, foi o que me ensinou a África do Sul. Israel faz parte dos mitos que herdamos. Para alguns de nós, Israel se tornou um mito indispensável. Como vivê-lo com conhecimento de causa, e não como um dogma, quando ao mesmo tempo tentamos nos desconectar de todas as filosofias do Absoluto? Foram essas as questões compartilhadas com os leitores logo após a viagem a Israel. Elas não tratam da natureza exata de Israel, mas do mito que herdamos, da parte do mito que pode servir como orientação, e dessa outra parte que podemos dispensar.

Contra os defensores das verdades prontas

Acredito, por fim, que nosso mundo se divide em dois. De um lado, há aqueles que, como eu, estão convencidos de que somos apenas passantes, que caminham sabendo que caminhar é procurar na incerteza e no desconhecido. Do outro, há os que acreditam deter as verdades sobre todos os fatos, e buscam impor essas verdades a todos, pouco importando a diversidade das experiências e das situações. O abismo entre nós não cessa de aumentar.

Hoje, ainda se coloca a todos nós a questão de saber se os sofrimentos de um povo pertencem a ele a um tal ponto que apenas esse povo pode se referir a esse sofrimento? Existe alguma possibilidade de compartilhamento das memórias do mundo e, caso exista, quais são as condições? Encontrei essas questões quando cheguei à África do Sul no início dos anos 2000, assim como as do perdão, da reparação e da reconciliação. Elas não deixaram de me habitar.

Para finalizar, devo lembrar que não sou alemão? Não aspiro nem viver nem trabalhar na Alemanha. Sob a ótica dos grandes problemas morais e políticos do nosso tempo, não me cabe ditar à Alemanha sua conduta em um mundo plural onde numerosos povos aspiram ainda à liberdade.

Tudo o que posso trazer a este debate é uma voz em meio a outras, uma voz vinda de fora, de uma dessas regiões do mundo que erroneamente pensamos que não têm nada a dizer, e que deveriam ouvir, de outras, o que deveriam pensar.

Cabe à Alemanha decidir se ela está disposta ou não a escutar outras vozes ou se, dando as costas às nossas aspirações mais profundas, ela quer nos ditar até a nossa consciência.

A Alemanha não precisa de bodes expiatórios estrangeiros para enfrentar suas numerosas mazelas. Uma parte da Alemanha, que de qualquer maneira parece ser hostil a mim por princípio, não tem o direito de tomar meu pensamento como refém. Quanto antes ela deixar meu pensamento se exprimir em seu próprio nome, a partir de seu idioma e na multiplicidade de línguas e sotaques, melhor será para todos nós.

Copyright: Este artigo foi publicado inicialmente no Tageszeitung (taz) em 11/05/2020.
Maio de  2020