Pandemia versus tecnologia Resposta(s) africana(s) a uma crise global

Membros da equipe médica se ajudam a colocar equipamentos de proteção em uma clínica da Médecins Sans Frontières (Médicos Sem Fronteiras) na comunidade de Mathare, em Nairóbi, Quênia, 28 de maio de 2020.
Membros da equipe médica se ajudam a colocar equipamentos de proteção em uma clínica da Médecins Sans Frontières (Médicos Sem Fronteiras) na comunidade de Mathare, em Nairóbi, Quênia, 28 de maio de 2020. | Foto (detalhe): Brian Inganga © AP Photo

Já transcorreram alguns meses desde que a chuva que é a pandemia de Covid-19 começou a cair sobre o continente africano. Cada dia, desde então, tem sido percebido como uma era. Para combater a nova ameaça, temos visto confinamentos totais e parciais introduzidos em muitos países. Em outros, tudo corre “como de costume”. O “corona” entra numa longa fila de problemas que precisam ser abordados; há questões mais urgentes para resolver, como eleições e construção econômica.

Os primeiros casos reportados na África confirmadamente vieram através da Europa – assim que o continente se tornou o novo epicentro da epidemia. Tem havido infinitas previsões e ‘preocupações’ sobre a ‘vez da África no centro das atenções do coronavírus’. Narrativas ‘internacionais’ sobre a África e a Covid-19 oscilam como um pêndulo: por um lado, as que antecipam e profetizam o dia do juízo final, enquanto outras compensam desnecessariamente elogiando a ‘resposta da África’, desprovidas das complexidades sutis e como se as respostas do continente fossem homogêneas.
 
Estamos vivendo o que pode vir a ser gravado na história como a primeira pandemia da era digital. A Covid-19 foi se espalhando pelo globo através da interconectividade criada pela hiperglobalização. Nossas respostas e mecanismos de reação são predominantemente baseados em tecnologias digitais, e nas ações dos respectivos governos.

A miragem das soluções digitais

A internet e nossos aparelhos de conexão têm fornecido uma linha vital que nos mantém informados e permite a nossa comunicação, o trabalho, a educação, e mesmo o acesso a serviços de saúde. Telefones celulares são onipresentes em todo o mundo. Na África subsaariana havia aproximadamente 456 milhões de assinantes de planos individuais de telefonia celular em 2018, sendo 239 milhões com acesso à internet móvel e 39% com utilização de smartphones, segundo a associação da indústria de telefonia móvel GSMA. Esses números podem, em uma primeira análise, dar a impressão de que muitos africanos transitaram para o ‘mundo virtual’ durante esse período. A promessa e a realidade continuam, no entanto, a diferir.
 
Divisões digitais entre os conectados e os desconectados, assim como os níveis díspares de conectividade dos primeiros, têm sido expostos mais claramente durante a pandemia, tanto em países desenvolvidos quanto nos países em desenvolvimento. O aprendizado, em particular, tem sido imensamente tumultuado por esta pandemia.  Onde é possível, soluções de ensino virtual têm sido aplicadas para dar alguma continuidade aos calendários escolares, embora esse processo não seja fácil. Em alguns contextos, os sistemas educacionais não têm se mostrado capazes de “se digitalizar” do dia para a noite. Em outros, eles são simplesmente impossíveis, pois em determinadas regiões as tecnologias digitais são tecnicamente indisponíveis ou financeiramente inacessíveis a professores e alunos. Algumas soluções alternativas que vêm surgindo em toda a África incluem o uso de meios de comunicação em massa (TV e rádio) para veicular as lições.
 
Há um surto paralelo do que tem sido chamado de ‘infodemia’. A internet está repleta de desinformação e informações falsas, teorias da conspiração e uma explosão de falsos especialistas, elixires etc. O fato de que esse tipo de conteúdo tóxico constitui uma parte importante, se não a única, da dieta de informação de milhões de pessoas, é um problema grave. Ele se compõe do déficit de confiança na sociedade e é agravado ainda mais pelas câmaras de eco e bolhas de filtros que são componentes estruturais de redes sociais populares e plataformas de mensagens.

Barreiras linguísticas e ingenuidade africana

Medidas de mitigação incluem ajustes técnicos em plataformas online populares para amplificar ou redirecionar buscas sobre o coronavírus para websites oficiais, como o da Organização Mundial de Saúde. Isso pode funcionar, digamos, para conteúdo disponibilizado em línguas como inglês e alemão, mas o sucesso é mais difícil no caso das milhares de línguas nativas espalhadas pelo Sul Global, já que as plataformas mais populares não dispõem de capacidade técnica e humana para analisar conteúdo nesses idiomas e dialetos.  Além disso, redirecionar uma população que não fala inglês a um site inteiramente redigido nessa língua ou em outra língua ocidental popular é o mesmo que levar essa população a um conteúdo que ela considera irrelevante. Isso poderia desincentivar sua busca por informações factuais confiáveis.
 
Assim como ocorre na educação, nem tudo pode ser feito virtualmente. Isto é evidente no trabalho essencial realizado durante este período, como o atendimento médico e a entrega de bens e serviços. Antes do surgimento da Covid-19, a Organização Mundial do Trabalho estimava que até 2 bilhões de pessoas trabalhavam informalmente, a maioria em países emergentes ou em desenvolvimento. A precariedade de seu trabalho sofreu um golpe adicional nesta pandemia. Quem pode está utilizando tecnologias digitais, como as redes sociais, para buscar oportunidades. Por todas as redes sociais na África, essa resiliência é vista na amplificação do número de mensagens particulares de pessoas que oferecem seus serviços ou colocam bens à venda para conseguir o sustento. No meu país, isso é incorporado no  Twitter pela hashtag #IkoKaziKE. Ela é usada para anunciar oportunidades de trabalho (formal e informal), assim como para permitir às pessoas expor seu discurso, compartilhar suas qualificações etc. Um aspecto gratificante é quando as histórias de sucesso são compartilhadas novamente, em um círculo virtuoso bem-vindo.
 
Na África, como no resto do mundo, a fadiga do confinamento é real e está crescendo. Estamos todos impacientes para dar prosseguimento às nossas vidas. Em muitos países, as estratégias para flexibilização de confinamentos e concessão de liberdade de movimento são baseadas no uso de várias tecnologias digitais, principalmente no uso dos nossos celulares como proxies para monitoramento da nossa saúde.
 
Embora venham surgindo propostas intrigantes, muitas são completamente impraticáveis no meu canto do mundo. Para começar, a penetração dos smartphones continua baixa. Além disso, a popularização de recursos como Bluetooth e aplicativos de celulares para rastreamento da Covid-19 consome energia; fontes de eletricidade para recarga das baterias nem sempre estão disponíveis, sobretudo em áreas rurais. Uma alternativa técnica já utilizada envolve monitorar o Sistema de Posicionamento Global (GPS) dos nossos telefones para rastrear os nossos movimentos. Essa solução ainda é desafiadora, pois poderia normalizar a vigilância.

Visão versus realidade

Estamos vendo uma duplicação do solucionismo tecnológico.  Quem busca soluções tecnológicas para ordenar nossas vidas durante e após a pandemia considera a tecnologia uma finalidade em si mesma. É verdade que algumas dessas tecnologias emergencialmente implementadas têm servido como pontes para manter a aparência de normalidade durante esta pandemia, e têm transformado o futuro do trabalho, da educação, de conferências, e mais. Isso, no entanto, só se aplica a quem dispõe de condições adequadas de acesso a uma internet de qualidade, de conexão dos equipamentos, uma eletricidade confiável, a casas seguras e tipos de trabalho que podem ser feitos remotamente e que permitem manter distanciamento físico.  
 
Prosseguir com as transformações digitais que não consideram a desigualdade, a indisponibilidade e a insegurança de acesso para bilhões de pessoas é arriscar ampliar e até normalizar as divisões entre quem pode colher os benefícios da digitalização e quem não pode.  Na medida em que caminhamos para um borrão entre o que é analógico e digital, é importante lembrar que as desigualdades digitais espelham aquelas que existem ‘offline’.

Valores humanos são cruciais

A Covid-19 tem mostrado que há uma transformação digital globalmente em curso, embora distribuída de forma desigual. Na linha de frente, temos visto que são os trabalhadores da saúde o maior suporte às pessoas. Ironicamente, a tecnologia necessária – equipamentos de proteção, ventiladores, e mesmo hospitais em determinados lugares – tem estado pouco disponível. Na África, as adversidades não nos são estranhas. Estamos enfrentando esta pandemia através da resiliência humana e de nosso senso de solidariedade. Nenhuma tecnologia, por mais avançada que seja, pode replicar ou substituir isso. Fundamentalmente, são as pessoas e sua vontade de superar que darão fim a esta pandemia. Isto vale para líderes e cidadãos: nossa determinação de aderir ao que funciona e buscar o que é justo para todas as pessoas, direcionando as tecnologias digitais para apoiar medidas de alívio e restauração.