Elvira Dyangani Ose Cidadania radical

Navine G. Khan-Dossos, instalação There is No Alternative (Não há alternativa), vista da instalação, The Showroom (2019)
Navine G. Khan-Dossos, instalação There is No Alternative (Não há alternativa), vista da instalação, The Showroom (2019) | Foto (detalhe): © Navine G. Khan-Dossos, The Showroom e Dan Weill Photography

“Você diria que a conscientização é suficiente?” – Elvira Dyangani Ose

Radical Citizenship (Cidadania radical) é um projeto criado pelo espaço The Showroom. Sua programação original para 2020 havia sido pensada para incluir exposições, performances e oficinas, envolvendo processos sociopolíticos, teóricos e artísticos para a reinvenção da ingerência popular e da autogovernança dentro do ambiente de nossas cidades contemporâneas.

Uma conversa curatorial

Uma conversa promovida por The Showroom, no contexto de Ecos do Atlântico Sul: Carnaval em construção.

Conversa promovida por Elvira Dyangani Ose, diretora do espaço The Showroom, em diálogo com a arquiteta e teórica cultural Blanca Pujals, a curadora Lily Hall e o gerente de desenvolvimento e advogado Raúl Muñoz de la Veja, e mediada por Katherine Finerty, curadora e gerente de comunicação.
 
Essa é a gravação de uma conversa online, realizada no dia 1° de dezembro de 2020, dentro da programação realizada e ainda por realizar do espaço The Showroom.

The Showroom e “Cidadania radical”

Images: 1. Recetas Urbanas, Usted Está Aquí, (Você está aqui, 2018). MUSAC (Museu de Arte Contemporânea de Castela e Leão) © Recetas Urbanas e MUSAC 2. Recetas Urbanas e The Showroom, Community Invitation (Convite à comunidade), setembro de 2020. Cortesia: Recetas Urbanas e Juan G. Pelegrina 3. Navine G. Khan-Dossos, There is No Alternative (Não há alternativa), workshop realizado no espaço The Showroom, no dia 13 de julho de 2019, com o fórum da juventude Duchamp & Sons, da Galeria Whitechapel, um programa colaborativo para jovens de 15 a 24 anos em preparação para o evento Nocturnal Creatures (Criaturas noturnas). Fotos: cortesia do espaço The Showroom

“O que significa ser um cidadão do mundo e o que significa manter alianças com pessoas distantes de nós?”  – Elvira Dyangani Ose

Na vizinhança

 
Imagens: 1 e 2. Recetas Urbanas, Affection as Subversive Architecture – Unauthorised Entry Permitted (Afeto como arquitetura subversiva – Entrada não autorizada permitida), vista da instalação, The Showroom (2020) | © Cortesia: The Showroom e Recetas Urbanas 3. Recetas Urbanas, Afeto como arquitetura subversiva – Entrada não autorizada permitida, cartaz da exposição, The Showroom (2020) | © Cortesia: The Showroom e Recetas Urbanas


“A questão é bastante urgente (...): quando entramos pela primeira vez no confinamento, quais eram as possibilidades de conexão à distância e como isso continuaria?” – Lily Hall

Coletividade e indivíduo

Imagens: 1. Recetas Urbanas – Você está aqui, 2018. Vista da instalação, MUSAC (Museu de Arte Contemporânea de Castela e Leão) © Recetas Urbanas e MUSAC 2. Recetas Urbanas, House of Words – HoW (Casa das Palavras, 2015). Formulário de registro, Bienal Internacional de Arte Contemporânea de Gotemburgo (GIBCA) © Recetas Urbanas e GIBCA

“Há algo maior, que é... Quão radical pode ser uma instituição cultural?”” – Raúl Muñoz de la Vega 

Política e dinâmicas da cidade

 
Imagem: Navine G. Khan-Dossos, Não há alternativa, Painel de discussão: Bem-estar e liberdade de expressão em uma cultura do Prevent, com Lisa Downing, Shazad Amin, Jonathan Hurlow e Basia Spalek, The Showroom (julho de 2019) | Foto (detalhe): © Navine G. Khan-Dossos, The Showroom e Dan Weill Photography


“Como podemos causar um impacto duradouro no tecido da cidade?” – Elvira Dyangani Ose

A conscientização é suficiente?

 
Imagens: 1. Navine G. Khan-Dossos, Não há alternativa, workshop realizado no espaço The Showroom, no dia 13 de julho de 2019, com o Fórum da Juventude Duchamp & Sons, da Galeria Whitechapel, um programa colaborativo para jovens de 15 a 24 anos em preparação para o evento Criaturas noturnas. Fotos: cortesia do espaço The Showroom 2. Navine G. Khan-Dossos, Não há alternativa, “Zines Versus the State” (Zines versus o Estado), workshop de zines coordenado por Hamja Ahsan e Khan-Dossos, The Showroom, 27 de julho de 2019. Foto: cortesia do espaço The Showroom


“Eu me pergunto: como se sustenta o afeto e o cuidado? O que pode ser fornecido, em longo prazo, através de uma estrutura?” – Elvira Dyangani Ose

O corpo e a cidade

Imagens: Blanca Pujals, Bodily Cartographies: Pathologizing the Body and the City (Cartografias corporais: patologizando o corpo e a cidade), na edição “Health Struggles” da revista The Funambulist Magazine, número 7, setembro – outubro de 2016, páginas 22-23


“O que significa para certos corpos estar na cidade e, ainda assim, carregar uma sensação de deslocamento, uma sensação de que determinado tipo de espectador os acha ‘abjetos’?” – Elvira Dyangani Ose 

Contexto e intenção

Originário de um diálogo contínuo entre o historiador Vijay Prashad, diretor do Tricontinental: Instituto de Pesquisa Social, e Jan Goossens, diretor artístico do Festival de Marselha e do Dream City, Festival d’Arts Dans La Citè, na Tunísia, esse projeto considerou como ponto de partida uma continuidade e uma ruptura da noção de espaço diferencial do filósofo Henri Lefebvre. Uma das declarações mais ativistas de Lefebvre, a noção de diferencial sugere que a urbanidade de um morador da cidade é a condição única e necessária para a mudança. Lefebvre acredita que há uma necessidade de reformar, de apropriar o espaço e de consumi-lo de forma diferente. O espaço urbano – com sua mistura de classes, suas dualidades e alterações – proporciona ao filósofo de A vida cotidiana no mundo moderno uma arena onde os cidadãs e cidadãos, com seu desejo de mudança, são capazes de subverter poderes homogêneos em causa própria.

Rumo ao projeto “Cidadania radical”

Reflexões sobre Lefebvre e a produção de espaço

Lefebvre explora as possibilidades potenciais para que as comunidades subvertam o poder oficial e criem um espaço – um espaço social – que impacte o espaço físico da cidade de acordo com seus desejos. Essa reivindicação, propõe Lefebvre, “se manifesta como uma forma superior dos direitos: o direito à liberdade, à individualização na socialização, ao habitat e ao habitar. O direito à obra, à atividade participante e o direito à apropriação (bem distinto do direito à propriedade) estão implicados no direito à cidade” (Henri Lefebvre: O direito à cidade).
 
Lefebvre percebe que a cidade – para ele, a Paris das manifestações de maio de 1968 – perdeu, em essência, sua identidade. Como sujeito, ele vê que ela está desmoronando: não mais vivenciada, não mais compreendida em termos práticos. A fim de compreender essa perda e buscar outros meios de abordagem do tema, Lefebvre propõe uma nova ciência analítica da cidade, que inclui conceitos e teorias que só podem avançar com a realidade urbana em construção, com a práxis, ou prática social, da sociedade urbana. Uma ciência que aborde os aspectos fragmentados de outras ciências, a partir de inúmeras perspectivas, para explorar um novo “sujeito virtual”. Lefebvre reivindica um novo humanismo, que seria forçosamente necessário para ir além das decisões individuais dos tecnocratas e para incluir, no lugar delas, a voz do coletivo dentro de uma nova formulação da cidade – uma questão que ele explora profundamente em sua obra seminal A produção do espaço, de 1974. Além disso, o projeto também apontou uma limitação inequívoca das expectativas de Lefebvre – talvez devido às contingências de seu tempo, que o tornaram incapaz de reconhecer que certos aspectos e tendências das modernidades poderiam ser descobertos além de sua compreensão da cidade como moradia. A história provou que as teorias de Lefebvre estavam erradas a esse respeito.

Cidadania radical – O encontro de cúpula do espaço The Showroom teve como objetivo convidar um renomado grupo de líderes comunitários, agentes culturais e produtores. Seus trabalhos e trajetórias formulam uma ação que ultrapassa os limites da crítica canônica, para se empenhar em processos sociopolíticos, teóricos, artísticos e culturais que visam a reinvenção da autogovernança dentro do ambiente existente das nossas cidades contemporâneas. Eles encarnam o “novo sujeito virtual” proposto por Lefebvre, levando a definição adiante para um imaginário futurista.
 
Uma constelação de conversas foi iniciada, no decorrer de 2018 a 2021, com artistas, coletivos de artistas, curadores, escritores, economistas e pensadores políticos. Ao longo desse período, um programa “simpoético” interseccional foi sendo mapeado: com novos diálogos desenvolvidos à luz do momento presente e outros construindo novos capítulos sobre trajetórias de longo prazo, impregnadas de uma prática curatorial transnacional. O fluxo que perpassa cada uma dessas conversas cruzando os continentes tem sido o cerne da intenção de reunir novas abordagens artísticas, culturais, sociopolíticas e teóricas para a promulgação de uma política de cuidado, abordando ingerência e governança em um espaço que excede as estruturas normativas.
 
Escrevemos esse texto de dentro do segundo lockdown nacional do Reino Unido, na sequência de uma janela de oportunidade que tivemos para reabrir nosso prédio por um mês, em outubro. Isso aconteceu depois de quase 200 dias de fechamento, que se iniciou em meados de março de 2020, e, sendo uma pequena equipe colaborativa, nós nos dispersamos, trabalhando individualmente de nossas casas. No entanto, embora as portas do espaço The Showroom estejam temporariamente fechadas, mais uma vez, esse tempo tem sido fundamental para um produtivo e rigoroso processo de reflexão, através do qual pensamos nossa resposta institucional às condições do “novo normal”. E, em solidariedade com tantas outras pessoas, isso nos possibilitou reconsiderar as prioridades em relação às nossas estratégias de programação curatorial e artística em função da paisagem em transformação que habitamos.
 
Vertentes novas e experimentais do nosso programa migraram para o ambiente digital e, nesse contexto, questionamos que condições culturais, estruturas de apoio e modos de acolhimento somos capazes de fomentar, seja agora ou no futuro. Com isso em mente, a noção do Cidadania radical através de comunidades intangíveis vem à tona, enquadrando nossa resposta contínua às urgências da colaboração local e transnacional, abordando as complexidades que cercam uma política de cuidado, oferecendo, ao mesmo tempo, ferramentas e propondo possibilidades para que alternativas ao status quo sejam concebidas e promulgadas coletivamente.

O realizado e o ainda por realizar

Devido às contingências causadas pela Covid-19, grande parte da nossa programação do Cidadania radical continua a ser gerada. Os diálogos foram estendidos e permanecem em um processo contínuo, com muito a ser ainda realizado. No entanto, o espaço proporcionado pela plataforma digital Ecos do Atlântico Sul neste momento crítico nos permite introduzir e compartilhar esses projetos em andamento como um espaço virtual de exploração, um museu de projetos realizados e não realizados, nos possibilitando também articular aspectos da prática experimental que emoldura fundamentalmente essas iniciativas.  
Recetas Urbanas – Você está aqui (2018), vista da instalação, MUSAC (Museu de Arte Contemporânea de Castela e Leão) Recetas Urbanas – Você está aqui (2018), vista da instalação, MUSAC (Museu de Arte Contemporânea de Castela e Leão) | © Recetas Urbanas and MUSAC

Recetas Urbanas

Afeto como arquitetura subversiva
Recetas Urbanas, Afeto como arquitetura subversiva – Entrada não autorizada permitida, vista da instalação, The Showroom (2020) Recetas Urbanas, Afeto como arquitetura subversiva – Entrada não autorizada permitida, vista da instalação, The Showroom (2020) | © Cortesia: The Showroom e Recetas Urbanas. A primeira grande comissão a se concretizar no contexto do Cidadania radical: o encontro de cúpula do espaço The Showroom, uma colaboração de um ano com o estúdio de arquitetura espanhol Recetas Urbanas. Afeto como arquitetura subversiva teve como objetivo explorar as possibilidades de criação de espaços arquitetônicos e educacionais alternativos por meio de métodos de construção participativa e cidadania ativa. Ao desestabilizar as premissas sobre as estruturas públicas e seus quadros legislativos, o projeto propôs estratégias arquitetônicas potencialmente utilizáveis por escolas, centros comunitários e plataformas de ensino superior, com o intuito de priorizar o engajamento em prol da natureza e a construção de comunidades sustentáveis.
 
Originalmente, o espaço The Showroom havia planejado funcionar, durante os meses de março e abril de 2020, como um laboratório onde membros do Recetas Urbanas, a arquiteta  e teórica cultural Blanca Pujals e outros colaboradores compartilhariam suas pesquisas através de uma série de workshops, e facilitariam sessões de autoconstrução e diálogos com moradores locais e coletivos de arte sediados em Londres.
 
No segundo semestre de 2019, o Recetas Urbanas começou a trabalhar com um grupo de pais na esperança de criar um espaço comum compartilhado como parte de uma forest school em Biggin Wood, uma área com uma floresta de carvalhos em Croydon, no sul de Londres. No intuito de expandir essa pesquisa, a ideia era que The Showroom se tornasse um ambiente dinâmico de aprendizagem comunitária, um espaço multiuso capaz de combinar as formas e funções de um arquivo vivo dos projetos anteriores do Recetas Urbanas, um fórum social e um ateliê de trabalho.
 
No entanto, após o primeiro confinamento causado pela Covid-19 em março de 2020, o espaço permaneceu fechado por mais de seis meses e só veio a ser reaberto em 30 de setembro do mesmo ano, com uma segunda versão de Afeto como arquitetura subversiva – entrada não autorizada permitida, tendo o evento sido planejado em colaboração com Blanca Pujals e já adaptado às condições decorrentes da pandemia. O projeto convidou indivíduos, grupos locais e pesquisadores a se envolverem com um arquivo de “receitas urbanas”, produzido pelo Recetas Urbanas em uma trajetória de mais de 20 anos.
 
Para esse projeto, algumas questões têm sido fundamentais: “Quão públicos são os espaços públicos?” E, além disso: “Quais são as possibilidades de subverter o espaço público, seu uso e adaptação, quando esse espaço público é um prédio?”
  
Como conceito, Afeto como arquitetura subversiva – entrada não autorizada permitida teve por meta abrir o pensamento coletivo em torno dos modos de organização espacial e da formação de novas relações sociais dentro e fora das instituições culturais públicas.
Recetas Urbanas, Afeto como arquitetura subversiva – entrada não autorizada permitida, vista da instalação, The Showroom (2020) Recetas Urbanas, Afeto como arquitetura subversiva – entrada não autorizada permitida, vista da instalação, The Showroom (2020) | © Courtesy of The Showroom and Recetas Urbanas O projeto existiu como uma exibição de arquivos na galeria do piso térreo do espaço The Showroom. Esses arquivos incluem vídeos documentais que contam sobre antigos projetos do Recetas Urbanas e uma seleção de material impresso disponível para leitura in loco. Uma série de oficinas discursivas e participativas foi planejada para acontecer durante os meses de inverno (europeu) de 2020-2021em formato online e em pequenos grupos.
 
Entre os meses de outubro e dezembro de 2020, The Showroom, em colaboração com Blanca Pujals, convidou pessoas que vivem e trabalham na Church Street para participar de uma série de grupos de discussão focados em experiências que surgiram desde o início da pandemia de Covid-19, com interesse particular nos espaços que habitamos diariamente e nas novas necessidades espaciais que surgiram devido à crise. Essas conversas tinham como objetivo analisar as soluções que o Recetas Urbanas tem desenvolvido para construir novas infraestruturas em conjunto com coletivos e grupos comunitários de toda a Espanha e também grupos de diversas regiões do mundo em contextos urbanos diversos. Essas oficinas não puderam acontecer devido aos impactos da pandemia, mas as metodologias foram encaminhadas para uma nova comissão da Câmara Municipal de Westminster, que visa mapear a vida cultural do bairro em 2021.
 
A contextualização e o enquadramento do conteúdo dos arquivos no espaço da galeria, incluindo pinturas de parede com as agendas pessoais do arquiteto Santiago Cirugeda (entre janeiro e fevereiro de 2020), traçam o início da primeira interação do projeto em Londres. Essas reproduções ampliadas dos cadernos idiossincráticos de Cirugeda representam os cronogramas e as flutuações da rede transnacional de colaboradores de seu ateliê, mostrando como elas se cruzavam e tomavam forma em meio ao fluxo da vida cotidiana entre as esferas pública, privada, cultural e social.
Recetas Urbanas, Afeto como arquitetura subversiva – entrada não autorizada permitida, vista da instalação, The Showroom (2020) Recetas Urbanas, Afeto como arquitetura subversiva – entrada não autorizada permitida, vista da instalação, The Showroom (2020) | © Cortesia: The Showroom e Recetas Urbanas. A reabertura do projeto, em setembro de 2020, foi marcada por uma nova seção do diário de Cirugeda, relativa ao período entre março e abril de 2020, que convidava o público a refletir sobre as lacunas que se abriram e as transformações de nossas vidas diárias desde o início da pandemia. Para Cirugeda, corretivos líquidos de texto apagaram planos anteriormente concretos, e o movimento entre as geografias globais foi restrito. Seu diário mostra a “terceira semana de confinamento”. Apesar disso, a comunicação continua para permitir conversas localizadas, como as que estavam programadas para acontecer na vizinhança da Church Street.
 
Pontos de aprendizado a partir do acervo do Recetas Urbanas

Superando identidades políticas


Convidando pessoas de todas os setores para construir em conjunto, independentemente de sua origem, filiação ou status legal, os processos arquitetônicos do Recetas Urbanas conseguem superar a política identitária. Ao contrário do que acontece nos processos de construção profissionalizados, eles reúnem os participantes por meio de chamadas abertas, fazendo com que seus canteiros de obras se tornem um espaço onde todos estão habilitados a interagir fora de uma estrutura identitária socialmente imposta. Nesse sentido, as pessoas se reúnem independentemente de raça, classe social, identidade e orientação sexual, capacidade física ou idade, e isso cria a possibilidade de não apenas gerar configurações sociais alternativas, mas também novas subjetividades.
 
A participação nos projetos do Recetas Urbanas proporciona aos colaboradores uma posição inédita: a de intervir em espaços públicos por meio de uma assembleia horizontal. A tomada de decisão coletiva é parte fundamental de sua prática e, ao fazê-lo, seus projetos repensam o espaço público, contornando a abordagem hegemônica e normativa das administrações públicas, na medida em que cada decisão é fundamentada em uma miríade de perspectivas reunidas a partir de um nível básico. Nesse sentido, sua metodologia se alinha ao trabalho de teóricos ou especialistas que, ao sinalizarem as estratégias e mecanismos de normalização por trás do projeto do espaço público, visam desmascarar os sistemas binários de validação e exclusão que tantas vezes moldam nossos ambientes urbanos.
 
Habitar el gesto, Cuba, 2019-2020

Por volta do final de 2019 e início de 2020, e ao mesmo tempo em que Afeto como arquitetura subversiva estava sendo desenvolvido conosco no espaço The Showroom, em Londres, o Recetas Urbanas desenvolveu o Habitar el gesto (Habitar o gesto), em Havana, Cuba. Este projeto envolveu a reforma da casa da falecida poeta Dulce Maria Loynaz. Esta antiga mansão havia sido ocupada por diferentes famílias nas últimas décadas e, devido à deterioração gradual da estrutura, corria o risco de ser demolida e reconstruída pelo poder público. Juntamente com os atuais moradores, vizinhos, estudantes e um grupo de outros profissionais interessados, iniciou-se um processo de reforma com o Recetas Urbanas. O local será transformado em residência e centro cultural, com um programa concebido, discutido e implementado coletivamente durante o processo de construção. Para esse projeto, foi instalada uma estrutura especial de andaimes, com largura de até cinco metros em algumas partes, para incentivar a troca e a interação durante o processo de construção. Esse é um gesto que exemplifica como aquilo que ocorre durante os processos de construção do Recetas Urbanas é tão importante – se não mais – quanto o produto arquitetônico final.
 
Pedagogia experimental: Dos Hermanas, Sevilha

Independentemente de se tratar da construção de uma sala de aula de convívio em uma escola com as famílias dos alunos em Dos Hermanas, em Sevilha, um centro comunitário com vizinhos, detentos e estudantes nos arredores de Madri, ou um anfiteatro em praça pública, mobilizando um grande número de voluntários internacionais na Basileia (Suíça), cada um dos projetos do Recetas Urbanas responde a múltiplas consultas: legal, política, administrativa ou social. Discussão e resolução, envolvendo todos os participantes, são elementos inerentes a cada projeto. Por meio de sua prática de código aberto, o Recetas Urbanas fornece aos participantes não apenas novas habilidades de construção, mas também ferramentas administrativas, legais e políticas que defendem sua cidadania ativa em um exercício contínuo de pedagogia experimental. 

Workshops discursivos no espaço The Showroom, 2021, em andamento

A criação de um fórum para debate de questões urgentes, seja na vizinhança do espaço The Showroom ou em outros lugares, é uma das possibilidades previstas para nossas próximas discussões e workshops. O objetivo é explorar possibilidades de criação de ambientes de aprendizagem comunitária, compartilhando pesquisas por meio de pequenos encontros presenciais ou online. As perguntas devem abordar ideias sobre como trabalhar no âmbito da crise atual, tanto para estabelecer novos esquemas de colaboração quanto para fazer uso de nossos espaços públicos, buscando melhor compreender e pensar a fundo soluções para as necessidades espaciais que surgiram devido às atuais condições desde o confinamento. Dessa forma, nosso programa considera o social como parte do âmbito cultural, questionando como os espaços culturais podem facilitar o intercâmbio e a colaboração.
 
Em última análise, o Afeto como arquitetura subversiva – entrada não autorizada permitida tem ajudado a reconfigurar nossa compreensão dos espaços sociais e da ética do cuidado, ao facilitar o surgimento de novas formas de autogovernança e de pedagogias alternativas, proporcionando aos cidadãos a possibilidade de participar da construção da esfera pública. Além disso, o projeto pretende criar uma economia circular, na qual o ethos da aprendizagem coletiva cria comunidades autoempoderadas. Esse gesto poético de coletividade radical visa desafiar nossa compreensão a respeito das formas como as instituições culturais, como o próprio espaço The Showroom, são concebidas.

Capa do livro Tools for Conviviality (Ferramentas para o convívio), escrito por Ivan Illich, editado por Ruth Nanda Anshen e publicado pela Harper & Row, 1973 Capa do livro Tools for Conviviality (Ferramentas para o convívio), escrito por Ivan Illich, editado por Ruth Nanda Anshen e publicado pela Harper & Row, 1973 | © Harper & Row

Nao há alternativa

Navine G. Khan-Dossos

No centro do nosso pensamento rumo ao projeto Cidadania radical encontra-se uma prática de pedagogia experimental fundamentada na experiência vivida através da implementação de novas formas alternativas de pensar e trabalhar de maneira profundamente engajada, localizada, colaborativa e contextualmente sensível. Isso conecta nosso trabalho de longo prazo com o Recetas Urbanas e com a artista Navine G. Khan-Dossos. Noções de convívio em torno da prática do Recetas Urbanas têm interseção com o texto pioneiro de Ivan Illich no livro Tools for Conviviality (Ferramentas para o convívio), que se tornou referência de pesquisa no desenvolvimento de oficinas participativas conduzidas por Khan-Dossos, durante o verão de 2019.

Navine G. Khan-Dossos, There is No Alternative (Não há alternativa), painel de discussão: Wellbeing and Freedom of Expression in a Prevent Culture (Bem-estar e liberdade de expressão em uma cultura do Prevent), com Lisa Downing, Shazad Amin, Jonathan Hurlow e Basia Spalek, The Showroom (julho de 2019) Navine G. Khan-Dossos, There is No Alternative (Não há alternativa), painel de discussão: Wellbeing and Freedom of Expression in a Prevent Culture (Bem-estar e liberdade de expressão em uma cultura do Prevent), com Lisa Downing, Shazad Amin, Jonathan Hurlow e Basia Spalek, The Showroom (julho de 2019) | © Navine G. Khan-Dossos, The Showroom e Dan Weill Photography O segundo projeto a ser realizado no âmbito do Cidadania radical é There Is No Alternative (Não há alternativa), uma publicação que se baseia na exposição homônima ocorrida no The Showroom, em Londres, entre 5 de junho e 17 de julho de 2019 – a primeira individual comissionada da artista Navine G. Khan-Dosso no Reino Unido. Esta publicação, fruto de uma parceria entre The Showroom e, toma como ponto de partida a pesquisa atual de Khan-Dossos sobre o complexo contexto do desenvolvimento, por parte do governo do Reino Unido, de políticas “pré-crime” e de vigilância, particularmente o programa Prevent, questionando a política de representação e o posicionamento do cuidado, que geram as estratégias em torno dessas políticas.

Navine G. Khan-Dossos, <i>TINA</i>, Digital Edition, April 2021 Navine G. Khan-Dossos, TINA, edição digital, abril de 2021, publicado por The Showroom e Chateau International. Design: Mark Hurrell. Processo Editorial Reflexivo aberto entre 1° de abril e 30 de maio de 2021 | © Navine G. Khan-Dossos | © Navine G. Khan-Dossos Entre abril e maio de 2021, ao mesmo tempo em que a Independent Review of Prevent (Revisão Independente do Programa Prevent) é realizada dentro do Governo do Reino Unido, a primeira edição digital  dessa publicação está sendo divulgada online. No contexto do Cidadania radical, isso atua como uma ferramenta para solicitar reações ao público através de um processo “editorial reflexivo” que amplia a prática participativa integrada ao projeto para além dos muros do nosso prédio, possibilitando a incorporação de novas perspectivas dentro da publicação do livro final, prevista para agosto de 2021. A nova publicação e a plataforma editorial digital vêm sendo elaboradas e editadas em parceria com a Chateau International.

Navine G. Khan-Dossos, <i>TINA</i>, Digital Edition, April 2021 Navine G. Khan-Dossos, TINA, edição digital, abril de 2021, publicado por The Showroom e Chateau International. Design: Mark Hurrell. Processo Editorial Reflexivo aberto entre 1° de abril e 30 de maio de 2021 | © Navine G. Khan-Dossos | © Navine G. Khan-Dossos




Navine G. Khan-Dossos, <i>There Is No Alternative</i>, publication draft layout Navine G. Khan-Dossos, There Is No Alternative, publication draft layout. Design by Mark Hurrell, 2020 | Foto: © Dan Weill Navine G. Khan-Dossos, <i>There Is No Alternative</i>, archive  installation  view  Navine G. Khan-Dossos, Não há alternativa, vista da instalação-arquivo (detalhe), The Showroom, 2019 | Foto: © Dan Weill
Os textos do livro incluirão um prefácio de Elvira Dyangani Ose, diretora do espaço The Showroom, juntamente com um novo ensaio da curadora Lily Hall, que posiciona o TINA – Não há alternativa em relação à especificidade do programa do espaço The Showroom, no âmbito do Cidadania radical e da política de cuidado. O pesquisador Rob Faure Walker introduz uma história do Prevent, ao mesmo tempo em que situa as condições discursivas que permitiram que a estratégia antiterrorismo do Reino Unido se concentrasse na “radicalização” e no “extremismo”. Um ensaio de Khan-Dossos contextualiza e traça as raízes de sua pesquisa para a exposição e este livro em relação ao seu longo envolvimento crítico com a “Guerra ao Terror” e com a linguagem visual usada para representar o Prevent em todo o Reino Unido.
 
Alexander Massouras enquadra a prática de Khan-Dossos através de uma lente histórica da arte, com um foco particular no TINA, através da análise da grade de Rosalind Kraus, ao mesmo tempo em que considera a visualidade do Prevent em uma linhagem de escudos que o conecta às cruzadas, questionando as histórias culturais visuais desta política controversa.

Navine G. Khan-Dossos, Não há alternativa, vista da instalação-arquivo (detalhe), The Showroom, 2019 Navine G. Khan-Dossos, Não há alternativa, vista da instalação-arquivo (detalhe), The Showroom, 2019 | Foto: © Dan Weill
Imagens em cores da exposição no espaço The Showroom documentam seu desenvolvimento como um processo de feedback ao vivo entre as pinturas multicamadas de Khan-Dossos nas paredes – que preencheram as paredes principais da galeria, do chão ao teto –, bem como uma série de painéis móveis e modulares – relacionados aos arquivos de pesquisa sobre o Prevent, e ao programa público integral de oficinas, palestras e painéis.

Também foram incluídos trechos selecionados de documentos do Prevent, originalmente apresentados no espaço The Showroom. Este arquivo de pesquisa em expansão dá uma visão geral histórica do Prevent, tendo sido organizado por Khan-Dossos em diálogo com a equipe curatorial do espaço The Showroom e com uma rede de colaboradores de longa data que foram afetados pela política do programa e desenvolvem respostas críticas em todo o país.

Três diálogos aprofundados exploram a solidariedade interseccional entre os impactados pela política do Prevent – desde as artes visuais e a museologia até a educação, a tecnologia, a saúde pública e o movimento ambientalista –, ao mesmo tempo em que respondem à Revisão Independente (2019-2021). Assim, a publicação trata tanto do que pode ser possível no futuro quanto do que já aconteceu: um requisito urgente para todas as comunidades afetadas pelo Prevent em todo o Reino Unido.

Navine G. Khan-Dossos, Não há alternativa, vista da instalação (detalhe), The Showroom (2019) Navine G. Khan-Dossos, Não há alternativa, vista da instalação (detalhe), The Showroom (2019) | Foto: © Dan Weill Photography

Sadia Habib, autora de Learning and Teaching British Values: Policies and Perspectives on British Identities (Aprendendo e ensinando valores britânicos: políticas e perspectivas sobre identidades britânicas), conduz uma reflexão junto com Hassan Vawda, que atualmente desenvolve um doutorado colaborativo entre a Tate e a Universidade Goldsmiths, sobre as ressonâncias do TINA através da pedagogia ou prática crítica de Paulo Freire, e o potencial transformador de praticantes de artes, educadores e instituições para desafiar as desigualdades.

Rachel Coldicutt e Tarek Younis, psicólogo clínico, crítico e professor de psicologia na Universidade de Middlesex, discutem o impacto social de tecnologias novas e emergentes em relação ao capitalismo de vigilância e às condições que surgiram em torno da Covid-19.

Shezana Hafiz e Azfar Shafi, da organização de advocacia CAGE, juntamente com o estrategista do Extinction Rebellion, William Skeaping, discutem a solidariedade entre os movimentos de base que resistem à política do Prevent no que se refere à justiça climática.
 
Basicamente, no contexto do Cidadania radical, este volume editado convida cidadãos, pesquisadores e partes interessadas na estratégia Prevent do Governo do Reino Unido e nas relações comunitárias a se envolverem em novos diálogos sobre o Prevent, no contexto da prática da arte contemporânea e das pedagogias alternativas na Grã-Bretanha de hoje. O livro aborda criticamente as estratégias governamentais atualmente desenvolvidas para a proteção da sociedade civil, e questiona o futuro dessas políticas em relação ao big data e à análise algorítmica. Essas considerações são exploradas através dos campos da prática da arte contemporânea e da produção de exposições – alguns dos últimos espaços que permanecem não vigiados e, portanto, capazes de sediar tais discussões e sugerir novos resultados tangíveis e imaginários radicais.


Créditos de financiamento 


A participação do Recetas Urbanas no espaço The Showroom foi apoiada pelo projeto Ecos do Atlântico Sul, do Goethe-Institut, e pela Acción Cultural Española (AC/E), através de uma bolsa de mobilidade que é parte do Programa de Internacionalização da Cultura Espanhola (PICE). O projeto também utiliza recursos públicos britânicos cedidos pela National Lottery através do Arts Council England e pelo Chelsea Arts Club Trust.
 
A exposição There Is No Alternative (Não há alternativa), de Navine G. Khan-Dossos, também foi financiada pelo círculo de apoiadores da artista e pela National Lottery através do Arts Council England.