Arte colonial Ao sul das “Brasilianas” europeias

Brasil exótico sob a ótica de viajantes do passado
Brasil exótico sob a ótica de viajantes do passado | Foto (detalhe): akg-images © picture alliance

Como os artistas do Sul Global podem contribuir para chamar a atenção para um passado empalidecido e às vezes aparentemente fadado ao esquecimento, articulando e redefinindo a visão cultural, política, social e econômica das regiões de onde vêm?

Chamam-se “Brasilianas” a série de trabalhos que viajantes europeus fizeram no Brasil, sobretudo, no século 19, com vistas a retratar o país para o resto do mundo. Com diversos fins, as “Brasilianas” eram vendidas na Europa, mas também foram utilizadas para estudos que fomentaram o racismo científico. Essas produções artísticas, principalmente gravuras e fotografias, permeiam ainda hoje os imaginários sobre o Brasil, porque são tomadas como produções que, supostamente, trazem em suas composições os detalhes e minúcias de um Brasil colonial e imperial – caracterizados pela escravização das pessoas negras e exploração desenfreada do território nacional.

Apesar desse uso constante como um dado etnográfico, é necessário estranhar a lógica que colocou as “Brasilianas” como um retrato ipsis litteris da realidade colonial deste país. Através de um exercício analítico e também de comparação entre documentações e as imagens artísticas em si, há uma imensa contradição: os corpos de pessoas negras representadas sempre estão saudáveis e bem dispostos ao trabalho, mesmo com as condições de violência física e privação de alimentos; a realidade social é posta sempre de forma muito plácida, sem conflitos ou qualquer dúvida sobre as mazelas da escravidão racista colonial; as cenas sempre estão muito organizadas, sem sobreposições de pessoas e sem qualquer vestígio de rebeliões. 

As “Brasilianas” são um bom exemplo de como a arte pode ser utilizada para cristalizar uma imagem sobre um lugar ou uma determinada situação social e histórica, reforçando uma norma social. No caso do Brasil, artistas europeus, como o francês Jean Baptiste Debret e o alemão Johann Moritz Rugendas, foram responsáveis pela criação de um imaginário colonial brasileiro que perdura até a atualidade. Seus registros são impressos em livros didáticos e estão na maioria das exposições sobre a história do Brasil.

O olhar eurocêntrico sempre foi tomado como o “olhar de Deus”, ou seja, algo imparcial, visto de uma posição privilegiada e distanciada da realidade.

Somente muito recentemente essas imagens começam a ser estranhadas por um grupo de artistas, sobretudo sob influência das perspectivas decoloniais e dos ativismos e pensamentos negros. Essas pessoas artistas trazem em suas obras as contradições do olhar eurocêntrico sobre a realidade histórica brasileira, propondo como ainda na contemporaneidade essas cenas se repetem no Brasil por meio de uma atualização e refinamento dos dispositivos coloniais, ressaltando que essa ferida ainda está aberta. É uma mirada diametralmente insubmissa ao que foi produzido, tentando compor uma linha de fuga às fantasias coloniais eurocêntricas sobre o Brasil. 

Moçambicanos: de "Viagem pitoresca pelo Brasil", de Johann Moritz Rugendas, 1830–1835, Coleção da Biblioteca Nacional, Brasil Moçambicanos: de "Viagem pitoresca pelo Brasil", de Johann Moritz Rugendas, 1830–1835, Coleção da Biblioteca Nacional, Brasil | Foto (detalhe): Fine Art Images/Heritage © picture-alliance

Pesa sobre essa prática de revisão artística uma tarefa contínua e complexa. É uma tentativa de disputa de narrativa e um enfrentamento com a máquina colonial europeia que sempre deteve um poder de legitimação estético dentro de uma tradição artística. Mas, além disso, é uma máquina que também possui a capacidade de determinar e cristalizar representações e conhecimentos – haja vista que o olhar eurocêntrico sempre foi tomado como o “olhar de Deus”, ou seja, algo imparcial, visto de uma posição privilegiada e distanciada da realidade.
A tarefa de artistas do Sul Global é falar sobre suas realidades locais, em muitos casos arruinadas pela colonização, mas também ressaltar que esses assuntos deveriam dizer respeito não somente ao Sul, mas à toda comunidade global.

Quando se fala em decolonial, não é um dado parado lá atrás na história, mas é algo que acontece agora e no futuro. Com o advento, sistematização e difusão das perspectivas decolonais, é impossível, por exemplo, que as nações que barganharam o Sul Global com seus acordos se eximam dessa discussão.

Papel de parede ilustrado com a paisagem brasileira de Jean-Jacques Deltil a partir de um motivo de Johann Moritz Rugendas Papel de parede ilustrado com a paisagem brasileira de Jean-Jacques Deltil a partir de um motivo de Johann Moritz Rugendas | Foto (detalhe): akg-images © picture alliance Portanto, uma das possíveis estratégias das pessoas artistas do Sul é realizar uma análise sistemática de como cinicamente há uma (re)utilização do “outro” (Sul) como algo local, ou seja, que só diz respeito a nós do Sul Global, enquanto as perspectivas eurocêntricas continuam a falar de si como algo “global”, como se também ao falar e compor seus trabalhos não emitissem suas ideias a partir de um olhar localizado. Mesmo quando ressaltamos a problemática da colonização do Sul Global, esse assunto não diz respeito somente a nós. Porque, historicamente, como no caso das “Brasilianas”, o olhar sobre nós foi construído por um ponto de vista eurocêntrico.