Sobre ser excluído Uma lacuna de diversidade na literatura infantil?

Crianças da turma escolar 3bi participam no dia 1° de junho de 2017 de uma oficina sobre “profissões” organizada pelo programa de integração interativa “WerteRaum", na Escola de Ensino Fundamental I Eduard Spranger, em Munique (Baviera). No projeto, voltado a crianças com histórico migratório, as crianças envolvem-se ludicamente com temas como comunidade, igualdade, educação e profissões. Cerca de 80% das crianças da Escola Eduard Spranger, em Munique, têm histórico migratório.
Crianças da turma escolar 3bi participam no dia 1° de junho de 2017 de uma oficina sobre “profissões” organizada pelo programa de integração interativa “WerteRaum", na Escola de Ensino Fundamental I Eduard Spranger, em Munique (Baviera). No projeto, voltado a crianças com histórico migratório, as crianças envolvem-se ludicamente com temas como comunidade, igualdade, educação e profissões. Cerca de 80% das crianças da Escola Eduard Spranger, em Munique, têm histórico migratório. | Foto (detalhe): Matthias Balk © picture alliance / dpa

Crianças e sociedades BIPoC (negras, indígenas ou de outras origens não brancas) são sistematicamente retratadas como risíveis, cômicas, bárbaras, ingênuas ou imorais, como sendo mais próximas da natureza que da cultura, como seres dependentes do conhecimento e da benevolência dos brancos, escreve Maisha M. Auma.

“Histórias importam. Histórias múltiplas importam. Histórias têm sido usadas para desapropriar e difamar, mas histórias também podem ser usadas para empoderar e humanizar.”

Chimamanda Ngozi Adichie em ‘The Danger of a Single Story’ (O perigo de uma história única)

Quando as crianças começam a explorar os universos literários, elas são confrontadas com uma realidade de profundas desigualdades. Escrever sobre as experiências interseccionais múltiplas de “ausência na literatura” e sobre a falta de representação de realidades hiperdiversas em livros infantis, a partir da minha localização em Berlim, Alemanha, inclui olhar para o contexto da literatura infantil em países de língua alemã. Trata-se também de olhar para fora, para um contexto europeu mais amplo. Além disso, também é necessário olhar para contextos geopolíticos sub-representados, como sociedades africanas, asiáticas e sul-americanas, bem como para as realidades vividas por povos originários (sociedades indígenas), cujas experiências diárias e territórios foram apagados das narrativas de realidades sociais. E, por fim, a atividade inclui olhar para o contexto estadunidense como um contexto a partir do qual o domínio global é implantado na narrativa de realidades sociais, enquanto o mesmo contexto funciona como um espaço de criatividade e resistência para deflagrar e reivindicar mais diversidade, inclusão, justiça social e antirracismo nos livros infantis.
  • Menino em uma manifestação antirracismo em Frankfurt, na Alemanha, no dia 6 de junho de 2020. Bernd Kammerer © picture alliance
    Menino em uma manifestação antirracismo em Frankfurt, na Alemanha, no dia 6 de junho de 2020.
  • Munique: alunas e alunos de escola de ensino fundamental I com histórico migratório, fotografados no pátio da escola em 16 de maio de 2019. Sven Simon © picture alliance
    Munique: alunas e alunos de escola de ensino fundamental I com histórico migratório, fotografados no pátio da escola em 16 de maio de 2019.
  • Nomes abaixo dos desenhos infantis em uma creche de Berlim-Neukölln (5 de fevereiro de 2015). Também nas prateleiras e nos cabideiros estão escritos os nomes de crianças originárias de muitos países e diferentes nacionalidades. Volkmar Heinz © picture alliance / zb
    Nomes abaixo dos desenhos infantis em uma creche de Berlim-Neukölln (5 de fevereiro de 2015). Também nas prateleiras e nos cabideiros estão escritos os nomes de crianças originárias de muitos países e diferentes nacionalidades.
  • Crianças filhas de famílias refugiadas fotografadas em Halle (Saxônia-Anhalt) em 29 de agosto de 2015, durante a celebração da matrícula na Escola de Ensino Fundamental I Kastanienallee. No início do novo ano letivo, haverá em todo o país aulas de idiomas e grupos de aprendizagem para crianças com histórico migratório na Saxônia-Anhalt. © FRM/dpa
    Crianças filhas de famílias refugiadas fotografadas em Halle (Saxônia-Anhalt) em 29 de agosto de 2015, durante a celebração da matrícula na Escola de Ensino Fundamental I Kastanienallee. No início do novo ano letivo, haverá em todo o país aulas de idiomas e grupos de aprendizagem para crianças com histórico migratório na Saxônia-Anhalt.
  • Crianças migrantes em uma aula de boas-vindas na Escola de Ensino Fundamental I Weidenhof, em Potsdam (Brandemburgo). Além das aulas regulares, crianças filhas de requerentes de asilo e refugiados recebem até cinco aulas adicionais por semana. Em 2015, cerca de 320 crianças, das quais 137 tinham histórico migratório, estavam matriculadas na escola. Há um alojamento para requerentes de asilo na área de abrangência da escola. Ralf Hirschberger © picture alliance / dpa
    Crianças migrantes em uma aula de boas-vindas na Escola de Ensino Fundamental I Weidenhof, em Potsdam (Brandemburgo). Além das aulas regulares, crianças filhas de requerentes de asilo e refugiados recebem até cinco aulas adicionais por semana. Em 2015, cerca de 320 crianças, das quais 137 tinham histórico migratório, estavam matriculadas na escola. Há um alojamento para requerentes de asilo na área de abrangência da escola.
  • Manifestação “Black Lives Matter” (Vidas negras importam) contra o racismo e em memória da morte de George Floyd, no Deutzer Werft, em Colônia, no dia 6 de junho de 2020. Jens Krick © picture alliance / Flashpic
    Manifestação “Black Lives Matter” (Vidas negras importam) contra o racismo e em memória da morte de George Floyd, no Deutzer Werft, em Colônia, no dia 6 de junho de 2020.
A autora feminista nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie alerta para os perigos de uma “história única”, baseada na hegemonia geopolítica das narrativas centradas no Ocidente branco. Essa crítica questiona histórias que generalizam as experiências de pessoas brancas, masculinas, aptas, “brancas-cristãs”, heterossexuais, de identificação masculina e de classe média. A centralização dessas perspectivas é implantada às custas de pessoas negras, indígenas, não brancas, Sinti e Roma, que se identificam como muçulmanas ou judias, que não praticam nenhuma religião, pessoas com necessidades especiais de diferentes condições, operárias ou trabalhadoras pobres que se identificam como mulheres, queer, inter* e trans*.

“O volume de crianças ‘não brancas’ representadas tinha agora chegado abaixo daquele dos animais representados. Não há dificuldade em representar animais, animais imaginários e figuras inanimadas. Parece haver resistência é em representar crianças ‘não brancas’ e suas realidades.”

 
A singularidade escrita nas histórias dos livros infantis contém normalizações problemáticas. O estudo mais abrangente sobre livros infantis publicados nos Estados Unidos no século 20, Gender in Twentieth-Century Children's Books: Patterns of Disparity in Titles and Central Characters (Gênero nos livros infantis do século 20: padrões de disparidade em títulos e personagens centrais),  analisou 6 mil livros publicados entre 1900 e 2000. O estudo foi realizado por sociólogos especializados em gênero na Universidade da Flórida (McCabe, Fairchild, Grauerholz, Pescosolido e Tope, 2011). A descoberta mais importante foi que, quando machos adultos e animais machos contavam em uma categoria de representação, eles eram representados como personagens principais em 100% de todos os livros infantis analisados. Fêmeas adultas e animais fêmeas só foram representadas como personagens principais em 33% dos livros analisados. A marginalização racializada nas publicações infantis mostra um padrão semelhante de desigualdade: com base em estatísticas descritivas coletadas em Madison/Wisconsin (Diversity Gap Studies) desde 1985 pelo Centro Cooperativo do Livro Infantil (CCBC, na sigla em inglês), David Huyck e Sarah Park Dahlen encontraram enormes disparidades na representação de crianças BIPoC – BIPoC é uma abreviação de black, indigenous, people of color (“pessoas negras, indígenas, não brancas”) em comparação com figuras animais e personagens brancos em livros infantis (Stechyson, 2019). Em cerca de 3 mil novas publicações infantis lançadas no ano de 2015, 73,3% dos personagens principais eram crianças brancas e 12,5% dos personagens principais eram animais (incluindo figuras de fantasia e objetos inanimados), deixando apenas 14,2% para a representação do conjunto de todos os grupos racialmente marginalizados. Esse quadro mudou um pouco e, em 2018, cerca de 50% de todos os personagens principais eram brancos, 27% eram animais, incluindo figuras de fantasia, e apenas 23% de todos os personagens principais eram oriundos de grupos racialmente marginalizados.“O volume de crianças ‘não brancas’ representadas tinha agora chegado abaixo daquele dos animais representados. Não há dificuldade em representar animais, animais imaginários e figuras inanimadas. Parece haver resistência é em representar crianças ‘não brancas’ e suas realidades.”

Ficções danosas

As representações do mundo social na literatura infantil são na maioria fictícias. No entanto, elas provaram ser sistematicamente excludentes. Nos casos em que as crianças não brancas estão presentes como personagens, suas representações, assim como as representações dos territórios geopolíticos associados às suas vidas, tendem a ser estereotipadas, estigmatizantes ou desumanizantes. Muitos livros alemães ilustrados e de histórias infantis normalizam o “aventureiro branco”. A marca alemã de sapatos Salamander publica desde 1937, e até hoje, um livreto de quadrinhos (com seu mascote, uma salamandra macho chamada ‘Lurchi’, que é derivada da palavra alemã para salamandra, Lurch). Na 4ª edição de Lurchi bei den Wilden (Lurchi na terra dos bárbaros), de 2019, Lurchi se pinta de preto (o que, na verdade, é um blackface). Isso é acompanhado por uma afirmação racista sobre Lurchi ter se tornado um “negrinho”. Lurchi faz isso para não ser cozido e comido (Bochmann e Staufer, 2013, p. 7). O contexto geopolítico de sua “aventura” é uma sociedade BIPoC. Outros exemplos alemães/europeus do aventureiro branco são Die kleine Hexe (A pequena bruxa) e Pippi Langstrumpf in Taka-Tuka-Land (Píppi Meialonga nos mares do sul), além de As aventuras de Tintim, para citar apenas alguns. Crianças e sociedades BIPoC (negras, indígenas ou de outras origens não brancas) são sistematicamente retratadas como risíveis, cômicas, bárbaras, ingênuas ou imorais, como sendo mais próximas da natureza que da cultura e como seres dependentes do conhecimento e da benevolência dos brancos (Auma, 2018). Tais representações não são apenas fictícias, mas também danosas! Elas não apenas privam os leitores BIPoC muito jovens de uma autoimagem positiva e de imagens positivas de seus universos sociais, mas também os forçam a lidar com a normalização de sua desvalorização, da negligência em relação a eles e de sua desumanização. Os jovens leitores são forçados a ‘ler entre o racismo e o mal’ (Masad, 2016). Esses padrões de descapacitação não são deturpações. São representações tóxicas, porque causam danos à autoestima de crianças racialmente marginalizadas. A regularidade com que os contextos geopolíticos associados ao BIPoC e suas vidas sociais são representados é uma forma de violência cultural.

Leitores poderosos

Gostaria de fechar o texto com algumas considerações sobre iniciativas que trabalham por mais igualdade, interseccionalidade crítica racial e normativa, e inclusão social, econômica e política na literatura infantil. Essas iniciativas querem promover a representação de mundos diversificados em livros e outras mídias infantis dirigidas a sociedades plurais e hiperdiversas e às suas minorias. Um objetivo comum de duas iniciativas europeias, DRIN  (Diversidade, Representação, Inclusão e Crítica à Norma, na sigla em inglês) e  Powervolle Lesende  (Leitores Poderosos) é reunir atores-chave na arena de produção, circulação e consumo de livros infantis, especialmente com o objetivo de concentrar as vozes e as perspectivas de grupos sociais marginalizados. Quatro iniciativas estadunidenses –  WNDB #WeNeedDiverseBooks, Disability in Kid Lit, Young, Black and Lit  e I Am Here, I Am Queer, What the Hell Do I Read?  servem de inspiração para os tipos de abordagens interseccionais justas que se fazem necessárias e para o trabalho de capacitação consistente de jovens leitores diversos e marginalizados. Todas essas iniciativas baseiam-se no apelo de Rudine Sims Bishop pela criação e normalização de “janelas e espelhos” que busquem alcançar jovens leitores racialmente marginalizados. “Espelhos” servem para capacitar jovens leitores BIPoC a verem a si próprios, e também suas vidas sociais e as regiões geopolíticas associadas às suas realidades diaspóricas hiperdiversas, representados como elementos normais das narrativas diárias. “Janelas” servem para fechar a “lacuna da empatia” em relação aos grupos marginalizados, normalizando a maneira como eles negociam as barreiras e as condições de sua desumanização. “Janelas” fornecem uma visão crucial da vida de todos os nossos “vizinhos marginalizados”, pois lidam com realidades que raramente são representadas na mídia infantil. Nas palavras de Chimamanda Adichie, essas abordagens ampliam o escopo das histórias que contamos e lemos. Reconectam todos nós em nossa luta diária pela afirmação recíproca de nossa humanidade. 

Bibliografia / links:
 
Adichie, Chimamanda Ngozi (2009). The Danger of A Single Story (TED-Talk). 
 
Auma, Maureen Maisha (2018). Kulturelle Bildung in pluralen Gesellschaften: Diversität von Anfang an! Diskriminierungskritik von Anfang an! Em:  KULTURELLE BILDUNG.
 
Bishop, Rudine Sims (1990). Mirrors, Windows and Sliding Doors. Perspectives: Choosing and Using Books for the Classroom, 6(3). 
 
Bochmann, Corinna/Staufer, Walter (2013). „Vom „N*-könig“ zum „Südseekönig“ zum...? Politische Korrektheit in Kinderbüchern. Das Spannungsfeld zwischen diskriminierungsfreier Sprache und Werktreue und die Bedeutung des Jugendschutzes“. Em: BPJM-Aktuell (Bundesprüfstelle für jugendgefährdende Medien) (2/2013).
 
Decke-Cornill, Helene (2007). „Literaturdidaktik in einer „Pädagogik der Anerkennung“: Gender and other suspects”. Em: Hallet, Wolfgang/Nünning, Ansgar (Hrsg.), Neue Ansätze und Konzepte der Literatur- und Kulturdidaktik (S. 239–258). Trier: WVT Wissenschaftlicher Verlag Trier.
 
Masad, Ilana (2016). Read Between the Racism: The Serious Lack of Diversity in Book Publishing.
 
McCabe, Janice/Fairchild, Emily/Grauerholz, Liz/Pescosolido, Bernice A./Tope, Daniel (2011). „Gender in Twentieth-Century Children’s Books: Patterns of Disparity in Titles and Central Characters“. Gender & Society 25(2): 197–226.
 
Sociologists for Women in Society (2011). Gender bias uncovered in children’s books with male characters, including male animals, leading the fictional pack. Science Daily, 4. Mai 2011.