Migração pós-colonial De onde você vem (realmente)?

Ferdinand Wieland em sua fazenda Constancia, em La Libertad, no norte do Peru.
Ferdinand Wieland em sua fazenda Constancia, em La Libertad, no norte do Peru. | Foto (detalhe) © Patricia Wieland Conroy

A migração peruana para a Alemanha está ligada à história e às consequências das estruturas coloniais alemãs no Peru? O que levou meu bisavô alemão, Otto Elsner, a migrar para o Peru? Muitos outros alemães também viviam no país por volta de 1925 ou antes? Como eles viviam?

Por Helga Elsner Torres

Procuro questionar a historiografia dominante do passado e do presente através da genealogia e da troca de material de arquivo com peruanas e peruanos de ascendência alemã que residem hoje em Berlim.

Neste projeto de arte e arquivo, financiado pela Secretaria de Cultura e da Europa de Berlim, criarei obras de arte com o material recebido. Elas, por sua vez, servirão de ponto de partida para as discussões sobre as ondas migratórias pós-coloniais na Berlim de hoje.
Desenho de um passaporte alemão da rota Bremen-Lima. Desenho de um passaporte alemão da rota Bremen-Lima. | © Helga Elsner Torres A migração alemã para o Peru aconteceu a partir de meados do século 19 e se intensificou na primeira metade do século 20. Na época, havia duas maneiras de deixar a Alemanha em direção ao Peru. Uma das rotas partia de Bremen. Diante do número de partidas devido às facilidades que o governo peruano concedeu aos alemães, mais portos peruanos passaram a permitir a chegada direta de Bremen.  Desenho baseado em peça publicitária da Hamburg-Südamerikanische Dampfschifffahrts-Gesellschaft para a rota Hamburgo-Brasil, no ano de 1910. Desenho baseado em peça publicitária da Hamburg-Südamerikanische Dampfschifffahrts-Gesellschaft para a rota Hamburgo-Brasil, no ano de 1910. | © Helga Elsner Torres A outra rota era através de Hamburgo, com várias escalas. Primeiro no Brasil, depois contornando o Cabo Horn e, finalmente, passando pelo Chile até chegar ao Peru. Os anúncios eram muito coloridos e mostravam a América do Sul como um lugar acima de tudo exótico, com natureza muito diversa e riquezas ainda não descobertas.
Otto Elsner (descendente peruano) em sua visita à Alemanha, Colônia. Otto Elsner (descendente peruano) em sua visita à Alemanha, Colônia. | © Família Elsner O projeto De dónde vienes (realmente)? começa com a busca de arquivos e documentos familiares oficiais. No ano de 1996, meu avô, filho de um alemão, viajou pela primeira e única vez para a Europa, com passaporte peruano e visto de turista.

Slide fotográfico antigo do ano 1956. Registro familiar em Huaraz, capital do departamento de Ancash e residência principal de meu avô, Otto Elsner. Autor desconhecido.  Slide fotográfico antigo do ano 1956. Registro familiar em Huaraz, capital do departamento de Ancash e residência principal de meu avô, Otto Elsner. Autor desconhecido.  | © Família Elsner Durante o projeto, são compartilhadas histórias e fotos de família, mitos migratórios, arquivos, cartas e qualquer objeto ou ideia material que nos faça reconstruir a história desses ancestrais.
Obituário do jornal de Bremen do ano 1918, onde são mencionados os negócios de Gildemeister no Peru e no Chile. Obituário do jornal de Bremen do ano 1918, onde são mencionados os negócios de Gildemeister no Peru e no Chile. | © Die MAUS Bremen: Gesellschaft für Familienforschung e. V. Embora o Peru não fosse uma colônia alemã, implementaram-se estruturas coloniais que costumavam colocar os alemães em uma convivência privilegiada com a elite política peruana da época. Essa é a história de muitos comerciantes alemães que, com a exportação de matérias-primas e produtos nativos, foram capazes de expandir rapidamente seu capital e seus investimentos, adquirir vastas áreas de terra (principalmente na costa central e no norte do Peru, bem como na selva) e cada vez mais propriedades, para então formar grupos econômicos poderosos e influentes. É o caso da família Gildemeister, de Bremen, com a exportação e venda de salitre e a produção de açúcar. Habitação de um trabalhador alemão no distrito 3 de outubro, próximo à fazenda Casa Grande da família Gildemeister, Peru. Habitação de um trabalhador alemão no distrito 3 de outubro, próximo à fazenda Casa Grande da família Gildemeister, Peru. | © Helga Elsner Torres Essa família levou, durante seu crescimento e apogeu, um número cada vez maior de funcionários alemães para trabalhar no Peru, incluindo administradores e técnicos agrícolas. Principalmente sua extensa fazenda Casa Grande, localizada no norte do país, recebeu um grande número de trabalhadores alemães. Registros migratórios de alemães no Peru, com datas e informações sobre portos e ingresso. Detalhe de Hermann Hebel, colega de Otto Elsner na fazenda Barbacay.  Registros migratórios de alemães no Peru, com datas e informações sobre portos e ingresso. Detalhe de Hermann Hebel, colega de Otto Elsner na fazenda Barbacay.  | © Archivo General de la Nación, Peru Seus centros de produção (chamados de fazendas) estenderam-se ao longo da extensa e produtiva costa norte do Peru e no centro do país. Um desses centros foi a fazenda Barbacay, em Huarmey, onde meu bisavô foi contratado. Manteiga Luxus, produzida na fazenda Constancia, com uma embalagem disponível em espanhol, inglês e alemão.  Manteiga Luxus, produzida na fazenda Constancia, com uma embalagem disponível em espanhol, inglês e alemão.  | © Patricia Wieland Conroy Através dessa pesquisa e da troca de informações, pode-se perceber os privilégios que os migrantes alemães tinham no país: a alguns o governo peruano prometeu propriedades para que emigrassem para o Peru, o que ele nem sempre cumpriu; os mais abastados tinham suas próprias fazendas e portos exclusivos para exportação; outros se dedicavam à agricultura e ajudavam outros alemães a colecionar objetos que poderiam ser escassos ou difíceis de encontrar em seu país de origem, como cerâmica, tecidos e fardos funerários pré-colombianos, entre outros.
Enrique Böttger, fundador de Oxapampa e dono de uma propriedade no distrito de Chontabamba. Autor desconhecido.  Enrique Böttger, fundador de Oxapampa e dono de uma propriedade no distrito de Chontabamba. Autor desconhecido.  | © Janeth Schipper Böttger Enrique Böttger, fundador da Oxapampa e dono de uma propriedade no distrito de Chontabamba, usava objetos que levava da Alemanha, por exemplo espelhos, para negociar com indígenas da comunidade Amuesha. Estes, em troca, lhes davam suas pinturas, ou ensinavam-lhe as técnicas de cultivo de mandioca. Enrique emigou para o Peru junto com seu irmão, Pablo, mas este último ficou em Yanachaga. Atualmente essa localidade, situada na selva central peruana, registra uma importante presença de descendentes de colonos alemães. Desenho baseado em uma fotografia da família Böttger em sua propriedade em Yanachaga, no distrito de Huancabamba, no centro do Peru. Na fotografia original estavam presentes Pablo Böttger Treu, sua esposa Mina Nissen e sua família. Autor desconhecido.  Desenho baseado em uma fotografia da família Böttger em sua propriedade em Yanachaga, no distrito de Huancabamba, no centro do Peru. Na fotografia original estavam presentes Pablo Böttger Treu, sua esposa Mina Nissen e sua família. Autor desconhecido.  | © Helga Elsner Torres O que motivou essa população a migrar para o Peru? Enquanto muitos migrantes vieram de uma Alemanha empobrecida, em busca de um horizonte melhor, outros foram capazes de se estabelecer rápida e definitivamente, devido à fartura de recursos naturais, às grandes áreas de um território despovoado e às facilidades proporcionadas pelo governo peruano para que permanecessem no país. Desenho baseado em uma fotografia familiar pertencente à família Cossio Tidow. Ulrich Tidow e seus pais, Hans e Therese Tidow, na Campina de Arequipa, no sul do Peru. Hans Tidow trabalhou na Cervejaria Alemã Günther & Tidow S.A.  Desenho baseado em uma fotografia familiar pertencente à família Cossio Tidow. Ulrich Tidow e seus pais, Hans e Therese Tidow, na Campina de Arequipa, no sul do Peru. Hans Tidow trabalhou na Cervejaria Alemã Günther & Tidow S.A.  | © Helga Elsner Torres Muitos só se uniam familiarmente a outros alemães de maneira oficial, tinham descendentes que eram criados sob as regras alemãs e frequentavam exclusivamente esses círculos. Alguns tinham famílias paralelas com peruanas. Ferdinand Wieland em sua fazenda  Constancia, em La Libertad, norte do Peru.  Ferdinand Wieland em sua fazenda Constancia, em La Libertad, norte do Peru.  | © Patricia Wieland Conroy No entanto, embora fosse menos frequente, alguns alemães também estabeleceram relações familiares abertas e duradouras com peruanas e peruanos. A fazenda Constancia, em La Libertad, no norte do Peru. A fazenda Constancia, em La Libertad, no norte do Peru. | © Patricia Wieland Conroy Várias gerações nasceram e foram criadas nas propriedades pertencentes aos primeiros imigrantes alemães.
As seis irmãs Schipper Böttger, em Prenzlauer Berg, Berlim.  As seis irmãs Schipper Böttger, em Prenzlauer Berg, Berlim.  | © Familia Schipper Böttger Hoje, depois de várias décadas, esses descendentes decidiram retornar à Alemanha, por razões diferentes, mas a busca continua a mesma: novas oportunidades. Eles geralmente fazem isso devido às facilidades para estudar em uma universidade ou melhorar sua qualidade de vida em um lugar mais estável do que o Peru atual. Marlene Gildemeister na Coluna da Vitória em Berlim. Marlene Gildemeister na Coluna da Vitória em Berlim. | © Marlene Gildemeister É assim que vemos hoje uma migração pós-colonial para um país que já foi uma força colonial e que acumulou recursos. Esta é uma razão óbvia para as ondas contemporâneas de migração para a Alemanha e para a Europa em geral.
Visto alemão de Helga Elsner Torres.  Visto alemão de Helga Elsner Torres.  | © Helga Elsner Torres Essas possibilidades de migração de peruanos para a Alemanha são igualmente justas? E as consequências do colonialismo estão relacionadas com os movimentos migratórios contemporâneos entre a Alemanha e o Peru? Abordarei essas e outras questões de maneira pessoal e artística a partir de 5 de novembro em uma exposição no KulturMarktHalle e.V., em Berlim.
 
Alguns descendentes de alemães enfrentam o problema de não dispor de passaporte alemão, por não saberem ou por não poderem provar sua origem. Desta forma estão, como qualquer migrante não europeu na Alemanha, condicionados a solicitar autorizações temporárias de residência.