Discurso autorizado sobre a herança Questionando a narrativa colonial alemã na Namíbia

Silent Remembrance (Lembrança silenciosa)
Silent Remembrance (Lembrança silenciosa) | Foto (detalhe): Fabian von Poser © picture alliance/imageBROKER

O cenário da memória e da herança cultural de hoje na Namíbia remete visivelmente ao período colonial alemão, com muitas de suas construções salvaguardadas como monumentos nacionais.

Por Gina Paula Figueira

Os legados do colonialismo ainda são fortemente sentidos nos dias de hoje em todo o mundo. As sociedades pós-coloniais continuam a conviver com uma distribuição desigual de riquezas e terras resultante de muitos anos de opressão sistêmica de comunidades nativas. Pode-se dizer que, junto com esse legado, herdamos frequentemente o que Laurajane Smith, pesquisadora sobre temas ligados ao legado cultural, chama de “discurso autorizado sobre a herança” (DAH) referente à história do colonialismo, particularmente em sociedades pós-coloniais. 

Memória seletiva

A memória e a herança cultural presentes na paisagem da Namíbia de hoje remetem visivelmente ao período colonial alemão, com muitos de seus mais conhecidos monumentos e edifícios salvaguardados com o status de monumentos nacionais – uma condição que foi atribuída a eles sob o regime do Apartheid sul-africano, que administrou o país depois que as colônias alemãs foram excluídas de seu império em 1919 (George Steinmetz: “Harrowed Landscapes: White Ruingazers in Namibia and Detroit and the Cultivation of Memory”, em  Visual Studies 23/3, 2008).


Esses monumentos formam pilares tangíveis de um DAH que privilegia a ideia da história colonial alemã como uma influência positiva na antiga colônia. Smith descreve o DAH como “um discurso hegemônico sobre a herança, que atua para constituir a forma como pensamos, falamos e escrevemos sobre o legado”. Esse discurso gira em torno da monumentalidade e dos chamados “especialistas”, que atuam como guardiões e narradores do que passa a ser visto como uma herança cultural valiosa e digna. No caso do colonialismo alemão na Namíbia, o persistente DAH sobre essa era e suas relíquias tem seu enfoque nas conquistas dos soldados coloniais alemães, a Schutztruppe (tropa de proteção), bem como dos colonos alemães pioneiros. 

Woermann Haus: edifício colonial alemão histórico em Swakopmund, na Namíbia Woermann Haus: edifício colonial alemão histórico em Swakopmund, na Namíbia | Foto: Egmund Strigl © picture alliance/imageBROKER

Ao destacar os supostos aspectos positivos proporcionados pelo colonialismo alemão, como por exemplo a frequentemente elogiada infraestrutura do país, os descendentes de soldados do período colonial e de colonos alemães “justificam seus atos e... apagam toda a memória de seus crimes”, escreve Reinhardt Kössler (“Namibia and Germany: Negotiating the Past” in: Windhoek: University of Namibia Press, 2015).

História de quem?

Entre 1904 e 1908, um genocídio foi cometido pelas forças coloniais alemãs, sob as ordens do General Lothar von Trotha, contra os povos Herero e Nama, originários da Namíbia.  Isso resultou no extermínio de aproximadamente metade da população Nama e de mais de dois terços da população Herero. Próximo ao primeiro campo de concentração em Windhoek foi erguido um monumento em homenagem aos soldados coloniais alemães que morreram naquela época.
O monumento “Reiterdenkmal“ em Windhoek, na Namíbia, fotografia de 2008 O monumento “Reiterdenkmal“ em Windhoek, na Namíbia, fotografia de 2008 | Foto (detalhe): © Leo Koolhoven

O monumento Reiterdenkmal (literalmente Monumento ao Cavaleiro) permaneceu por mais de um século como símbolo da dominação e herança colonial alemã, às custas de milhares de vidas de habitantes originários da Namíbia. Em 2009, quando esse monumento foi deslocado pela primeira vez para dar lugar ao novo Museu Memorial da Independência, ficou evidente o quão essencial ele era para o DAH do colonialismo alemão na Namíbia. Alguns anos depois, em 2013, ele foi deslocado novamente, desta vez para dentro do pátio do vizinho Alte Feste, o antigo quartel-general da Schutztruppe.

Muitos namíbios, particularmente aqueles que falam alemão, argumentaram que a estátua não deveria ser deslocada de forma alguma devido à sua significância histórica e cultural. O historiador namíbio de origem alemã Andreas Vogt sustentou que os falantes de alemão, nascidos na Namíbia, têm o direito de “exigir a preservação de sua herança cultural no contexto da consagrada garantia constitucional dos direitos culturais e das minorias” („To Move or Not to Move: On the Relocation of the Equestrian Monument in Windhoek“, in The Namibian Newspaper, 2008).

Destituir o Reiterdenkmal da condição de monumento nacional em 2013 permitiu ao governo namíbio removê-lo de sua proeminente posição no topo de uma elevação, iniciando um desafio sancionado pelo Estado frente a esse status quo.



Se é verdade que os namíbios de origem alemã formam uma minoria em termos numéricos, é também fato que seus direitos culturais vêm sendo veementemente protegidos por um DAH que serve para centralizar e validar sua herança e sua história. A Comissão de Monumentos Históricos do Sudoeste Africano foi formada em 1948 e a maioria de seus membros era composta por colonos alemães. Como resultado, entre os anos de 1950 e 1990, um total de 77 dos 117 sítios declarados monumentos nacionais eram construções alemãs anteriores a 1918 o que, de acordo com Steinmetz, mostrava a importância atribuída à preservação de relíquias da era colonial. Esse é apenas um exemplo do quão sistêmica e duradoura tem sido a preservação da herança colonial alemã. 
 
Destituir o Reiterdenkmal da condição de monumento nacional em 2013 permitiu ao governo namíbio removê-lo de sua proeminente posição no topo de uma elevação, iniciando um desafio sancionado pelo Estado frente a esse status quo. Apesar desse movimento assertivo, ou talvez em resposta a ele, em fevereiro de 2019 o dono de um restaurante na cidade costeira de Swakopmund, também conhecida como “Pequena Alemanha” devido à sua arraigada herança alemã, instalou uma réplica do Reiterdenkmal em seu pátio.
Réplica do monumento no restaurante "Die Altstadt", em Swakopmund, na Namíbia, em registro de 2019 Réplica do monumento no restaurante "Die Altstadt", em Swakopmund, na Namíbia, em registro de 2019 | Foto (detalhe): © Helen Harris

Quando questionado sobre sua atitude, o proprietário do restaurante declarou que estava “planejando exibir toda a história da Namíbia, começando pelo antigo Sudoeste Africano, como forma de preservação e para educar aqueles que vierem a esse restaurante” (Eveline de Klerk: "Swakopmund Restaurateur Stirs up Emotions with Reiterdenkmal Replica" no New Era, 2019). No momento da visita ao restaurante, nenhuma outra relíquia de nenhuma outra parte da “história namíbia”, parecia estar em exibição. O significado oculto de seu depoimento era, portanto, que a história alemã era a história namíbia. Todas as outras histórias, ou na verdade versões da história, não apenas são esquecidas, mas também são conscientemente negligenciadas. 


Apesar dos desafios a esse DAH sobre o colonialismo alemão, “o DAH valida um grupo de práticas e ações… e sabota ideias alternativas e subalternas sobre 'herança cultural'”, conclui Smith. Dessa forma, o DAH é tão facilmente replicado e perpetuado que se torna hegemônico por natureza. Para começar a questionar as relações pós-coloniais de poder na sociedade namíbia contemporânea, as narrativas que destacam as realizações do colonialismo alemão, ao mesmo tempo em que omitem a brutalidade e a violência com que essas conquistas foram obtidas, precisam ser compreendidas pelas formas através das quais elas compõem parte desse DAH.
 

Esse artigo é baseado em uma pesquisa realizada no ano de 2019 durante os estudos de mestrado da autora na Universidade de Leeds, possibilitada pelo Prêmio Chevening por ela recebido.