Rememorar através de sons e imagens “Eu aceito o desafio”

Foto (detalhe): Fradique © Associação Tchiweka de Documentação 
Foto (detalhe): Fradique © Associação Tchiweka de Documentação  | Foto (detalhe): Fradique © Associação Tchiweka de Documentação 

O documentário “Independência” (2015), do cineasta Fradique, conta a longa luta de Angola pela liberdade a partir da perspectiva da primeira pessoa do plural. O filme revela material histórico marcante dos combatentes pela liberdade e cria um espaço para testemunhos orais, expondo, em desenhos animados, eventos nunca gravados. A obra proporciona um desmantelamento avassalador da presunção colonial hedionda de que Angola não pertenceria aos angolanos. A lembrança através dos sons e das imagens – aqui Fradique ilustra seu método através de quatro imagens de seus filmes.


Foto (detalhe): Fradique © Associação Tchiweka de Documentação  Foto (detalhe): Fradique © Associação Tchiweka de Documentação  Quando, em março de 1961, a guerra começou em Angola, o governo português enviou milhares de soldados ao país. Simultaneamente, o governo colonial lançou o hino Angola é nossa, uma canção de propaganda que abria e fechava transmissões de rádio. Crianças em escolas de todo o país eram obrigadas a cantá-la.

Angola é nossa foi veiculada em muitos filmes de propaganda da época que o governo português produziu a fim de exibir seu poderoso exército e com o propósito de sugerir como as pessoas em Angola estavam felizes sob o domínio português. Criei uma montagem ligando a canção às habituais representações propagandísticas, mas adicionei imagens da dura realidade que se escondia sob essas falsas alegações de bem-estar: trabalho forçado e segregação espacial dos angolanos em seu próprio país, além do racismo que sofreram nas mãos dos portugueses.

A montagem termina com imagens de arquivo de numerosos angolanos olhando para a câmera, juntamente com os combatentes pela liberdade – que entrevistamos no presente –, e que também olhavam para a câmera enquanto ouviam Angola é nossa. A canção permanece abominável para muitos angolanos que foram submetidos à exploração, ocupação e opressão por parte de Portugal.

Foto (detalhe): Fradique © Associação Tchiweka de Documentação  Foto (detalhe): Fradique © Associação Tchiweka de Documentação  Um interrogatório policial ou uma emboscada – para retratar momentos como esses, que não dispõem de imagens de arquivo, meu filme usa animações, juntamente com testemunhos em primeira mão de combatentes pela liberdade angolana.

O filme é feito a partir do ponto de vista da geração que participou da luta pela independência: são eles que compartilham suas memórias. O ponto de vista da animação segue a mesma lógica. Quis mostrar um interrogatório a partir da perspectiva e no mesmo patamar de um prisioneiro político.

Nesse momento do filme, Frederico Luís Colombo, um preso político angolano que a PIDE manteve em cativeiro entre 1961 e 1969, detalha como os agentes da polícia o interrogaram. Só ouvimos a versão de Colombo do interrogatório. A PIDE não tem mais nenhuma agência, nem uma voz própria. Mesmo quando o interrogam, só ouvimos Colombo citar as perguntas, sua voz e sua lembrança do que aconteceu naquela sala.

Foto (detalhe): Fradique © Associação Tchiweka de Documentação  Foto (detalhe): Fradique © Associação Tchiweka de Documentação  A narrativa e a estética do filme se baseiam muito na minha experiência durante anos de pesquisa no arquivo do Centro de Documentação Tchiweka (Associação Tchiweka de Documentação), em Luanda. Depois de viver em meio aos materiais de arquivo e às memórias de quem prestou depoimento, decidi combinar todos os formatos de arquivo possíveis para trazer o público para mais perto da nossa história encoberta.

A captura de tela é tirada de uma sequência onde a voz de Ernesto “Che” Guevara, gravada em 2 de janeiro de 1965, ressoa em Brazzaville, quando ele se encontrou com combatentes pela liberdade angolana. Essa gravação é uma fonte histórica única, que digitalizamos, restauramos e disponibilizamos a um público mais amplo pela primeira vez em Independência.

Os combatentes pela liberdade na parte oriental de Angola documentaram, em fotografia, os tempos mais difíceis da guerra, quando comida, roupas e armas eram escassos. Ainda assim, jovens homens e mulheres se adaptaram a esse ambiente e continuaram com a luta.

Foto (detalhe): Fradique © Associação Tchiweka de Documentação  Foto (detalhe): Fradique © Associação Tchiweka de Documentação  O depoimento de Deolinda Rodrigues é no meu filme o único que foi escrito em pleno período de luta. Ela foi uma combatente do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), mas não viveu para ver Angola ganhar a independência. No entanto, ela deixou seus diários e cartas pessoais e brutalmente honestos.

"Gosto de dificuldades. Sem momentos como este, a vida se torna insípida e paramos de pensar. A vida é uma luta. Ou você aceita o desafio e segue em frente, ou sente pena de si mesmo a vida toda e não faz nada. Eu aceito o desafio.”

Deolinda, também conhecida como Langidila (“Seja vigilante”, em Kimbundu)

Pedimos a uma jovem artista angolana que lesse trechos do diário para dar vida à personagem de Deolinda. Ao mesmo tempo, usamos animação, imagens de televisão e inúmeras fotografias para tornar acessíveis as experiências dessa jovem que lutou por seu país.

Essas são as últimas fotografias conhecidas de Deolinda antes de sua morte nas mãos de um grupo rival. As imagens foram registradas quando ela retornou a Angola para se juntar à luta armada, depois de ter lutado como líder revolucionária a partir do vizinho Congo. Esse rolo de filme estava bastante danificado quando o encontramos e, como ocorreu com muitos outros materiais de arquivo no filme, restauramos as imagens e as digitalizamos pela primeira vez.