Uma entrevista com o compositor Klaus Schedl e o diretor musical Heinz Friedl
Num prédio de fundos em Munique, não distante do Rio Isar, começa a surgir a música para a primeira parte de ‘Amazônia – Teatro música em três partes’. Sob temperaturas gélidas, o compositor Klaus Schedl e o diretor musical da Ópera Amazônia, Heinz Friedl, explicam como expressar musicalmente a destruição, por que não se deve sacudir com muita força uma máquina de fliperama e o que Walter Raleigh foi procurar na Amazônia – a quase 10.000 km de distância de Munique - onde os termômetros marcam 30 graus por esses dias.
Senhor Schedl, por que escolheu a ópera para encenar o tema ‘Amazônia’? Por que não uma peça de teatro, ou um concerto?
Klaus Schedl: Num concerto, não se consegue transmitir adequadamente o conteúdo textual e cênico. E, numa peça de teatro, fala-se. Não se faz música. E a palavra escrita, assim como a falada, sempre estão direcionadas para o passado, ou para o futuro. Só quando ouvimos música é que nos sentimos plenamente no presente. E porque sentimos uma forte nostalgia do presente, só a música é capaz de liberar as emoções que irão expressar de forma ideal o tema da ópera.
Em Amazônia – teatro música, também há personagens, ou a floresta tropical ameaçada é a sua única protagonista?
Schedl: Também trabalhamos com personagens. Nossa parte da ópera se baseia em um relatório de pesquisa de Walter Raleigh, que, em 1595, partiu em viagem de exploração para o Orenoco, pois acreditava que encontraria aí o Eldorado. Na ópera há três personagens, e todas elas representam Raleigh.

Como será o palco? A encenação segue a linha da ópera clássica?
Schedl: Ao contrário da ópera clássica, nós trabalhamos muito com elementos de filme e vídeo.
Friedl: As personagens nunca aparecerão no palco como pessoas atuantes – elas só serão vistas em projeções. Frequentemente – como acontece nos filmes – só sua cabeça será mostrada. Essas tomadas em close serão então contrapostas a sequências, em que as pessoas aparecem em seu tamanho normal, mas como silhuetas.
O título da sua parte é “Tilt”. O que significa esta palavra?
Friedl: “Tilt” é uma palavra tirada da linguagem do fliperama. Toda máquina de fliperama é equipada com um sensor de movimento. Se você a chuta com força e a balança, tentando influenciar a bola, ela se desliga automaticamente. Isto se chama “Tilt”, ou seja, uma parada abrupta bem no meio de um acontecimento.
“Tilt” seria então uma metáfora para o que pode acontecer com a floresta tropical, uma metáfora para a destruição causada pelos brancos na região amazônica?
Schedl: De forma concreta, eu não relacionaria isso unicamente ao que os brancos fizeram à região amazônica. O que me interessa é o mecanismo da destruição de um modo geral. Nós escolhemos conscientemente o relatório de Raleigh, que não pertence à era dos conquistadores. Ele é de uma época anterior – a era dos descobridores. A idéia fixa de encontrar um dia a Pedra Filosofal nos incita permanentemente, mas conduz, inevitavelmente, à destruição.Friedl: Os primeiros descobridores, como Raleigh, chegaram à Amazônia com a melhor das intenções. Totalmente surpresos, eles apenas observaram e cartografaram. Porém, o descobrimento já contém em si a destruição. É como na teoria quântica: a simples observação de um objeto, já transforma esse objeto.
Senhor Schedl, o senhor explicou o seu método de composição da seguinte forma: para expressar musicalmente a destruição, o senhor constrói “grandes montes sonoros de lixo”, que então trabalha – à semelhança de um escultor – extraindo certas partes.
Schedl: Quando digo “lixo”, refiro-me a “lixo cultural”. O material que utilizo como base para minha composição é um material musical totalmente diferente. Pode ser música de Mozart, por exemplo, ou qualquer outra coisa. Inicialmente, fabrico um bloco sonoro, que não consigo penetrar. Se o ouço por um longo tempo, começo a reconhecer certas estruturas. E então tiro um pouco daqui e dali, ou de lá. E pode acontecer que, no final, a não ser por um “bum bum bum”, não sobre nada desse monte de lixo. Com essa técnica, procuro evitar conscientemente uma forma de composição construtiva, que justapõe sons isolados.

Ensaio de som da composição de Klaus Schedl para a primeira parte de ‘Amazônia – Teatro música’ (MP3, 01:38 minutos)
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E como se dirige algo assim?
Friedl: Dirigir é relativamente simples. O ensaio é o problema. Os “montes de lixo” são, na verdade, superfícies sonoras bastante complexas, surgidas de muito trabalho e de ouvir muito no computador. Pela sua complexidade, elas não podem ser registradas da forma tradicional. Como se poderia anotar, por exemplo, o som “Brrrrrrrrr-ssekk”? Assim, sons isolados da partitura recebem um sample adicional. Durante os ensaios, nós ouvimos esses arquivos de sons e tentamos reproduzi-los o mais precisamente possível. Em certas partes, quase todas as notas recebem um sample como esse. Isso só pode ser realizado com músicos como os do Piano Possibile Ensemble.
Que instrumentos serão utilizados?
Friedl: Temos um trompetista e um tubista, uma guitarra elétrica, um baixo elétrico, contrabaixo, bateria, um flautista e um violoncelista. Todos têm à sua disposição uma eletrônica muito refinada. O violoncelo jamais soa como violoncelo. Seu som é amplificado, distorcido e deformado. Algumas passagens são tão complexas, que, simplesmente, não se consegue reproduzi-las com um instrumento – essas partes saem então do arquivo gravado e são acionadas pressionando-se um botão.

Senhor Friedl, sua tarefa será dirigir três partes bem diferentes que, no final, deverão constituir uma unidade. Como irá interligar as três partes?
Friedl: As três partes são fechadas em si. Entre elas, haverá duas pausas para mudança de cenário. A unidade entre as partes deverá resultar da temática comum, que foi escolhida com muito cuidado e que estava associada a pesquisas de campo de longo prazo. Esta é a tentativa em seu todo.
Vocês temem o público de Munique, que tem a fama de conservador?
Schedl: O público de Munique nem é tão ruim. Sua fama é pior.
Friedl: Só precisamos nos preocupar em fazer nosso trabalho da melhor forma e do modo mais conseqüente possível. O resto, a gente vê depois.
Schedl: Um certo medo de que dê tudo errado, sempre se tem. Mas isso é normal.
Klaus Schedl, nascido em 1966, estudou com Hans-Jürgen von Bose em Munique. Compôs obras solo, música de câmara, música vocal e orquestral e obras para o teatro música. O co-fundador e, por longos anos, diretor artístico do Ensemble de Música Nova de Munique, Piano Possibile, foi agraciado com várias distinções, dentre as quais o Prêmio de Composição, da cidade de Detmold, e o Prêmio de Fomento à Música, da cidade de Munique. De 1997 a 1999, Schedl lecionou nos conservatórios de Coimbra e Viseu, em Portugal. Depois, viveu em Londres e Paris, antes de retornar a Munique.
Heinz Friedl, nascido em 1965, estudou na Escola Superior de Música e Teatro de Hannover e vive desde 1993 em Munique, onde atua como maestro free-lancer, instrumentista e professor de pedagogia instrumental. Ele dirigiu diversas óperas e encenações de teatro música, como “Die Nacht des Brokers” de Christoph Reiserer, em 2010, e “Regen aus der Erde” de Klaus Schedl, em 2009. Junto com Klaus Schedl e Philipp Kolb, também dirigiu o Ensemble Piano Possibile. Heinz Friedl atua ainda no âmbito do projeto de música para escolas “Música para se pegar”, que divulga Nova Música para crianças e adolescentes.Entrevista dada a Verena Hütter.
Fevereiro de 2010
Fevereiro de 2010








