Nairobi

Uma entrevista com o realizador Jim Chuchu

© The Cave O filme Regresso a casa, a contribuição do realizador queniano Jim Chuchu no Metrópole africana, foi selecionado para o Festival Internacional de Cinema de Toronto. Ele fala-nos sobre esta notícia emocionante, dos filmes de ficção científica africanos e como as suas outras atividades artísticas influenciam a realização dos seus filmes.

O filme Regresso a casa, a sua contribuição no Metrópole africana, é, em parte, ficção científica, bem como o seu próximo livro de fotografia, que define uma
África pós-apocalíptica. Qual é o seu fascínio pelos cenários apocalípticos?

Eu gosto dos cenários apocalípticos, porque eles testam tudo o que os seres humanos tomam por um fato adquirido. Eles lembram-nos da nossa mortalidade, de quão pouco tempo nos resta neste planeta, de como somos pequenos e como abstratas e vazias são realmente as coisas que nós achamos importantes (como o dinheiro e o poder), quando comparadas com coisas fúteis como a boa comida ou os banhos de sol.

Gostaria de ver mais filmes de ficção científica feitos em África?

Sim, gostaria – mas não de uma forma que se perde em efeitos especiais e magia técnica, seria ótimo ver filmes que simplesmente imaginassem como
as escolhas que estamos a fazer agora seriam quando extrapoladas daqui a milhões de anos.

Você produz principalmente filmes para uma audiência africana, ou para os espectadores fora de África?

Eu não acho que imagino muito um público ao fazer as minhas criações – quem pode dizer o que os seres humanos gostam, ou não gostam? Eu faço as coisas do jeito que eu as vejo na minha cabeça, e quando as criações acabadas saem, é muito gratificante quando as pessoas entendem o que eu
estava a tentar fazer. Às vezes as pessoas veem a obra consumada de maneiras completamente diferentes, e isso também é interessante.

O seu filme foi selecionado para ser exibido no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Como se sente acerca disso, e se ficou surpreso?

É fantástico! Intimidante e emocionante ao mesmo tempo. Intimidante porque acho que é difícil assistir a qualquer coisa que eu tenha feito com o
público, e emocionante porque é a minha primeira vez a participar num festival de cinema como realizador. Não pude estar presente na estreia de Metrópole africana em Durban.

Na sua opinião, o que é necessário para levar o cinema africano a um nível superior?

Este foi o meu primeiro filme, por isso ainda não tenho experiência suficiente (e/ou a audácia) para fazer comentários acerca do cinema africano.

Que realizador africano, ou outro, admira mais e porquê?

Há um jovem realizador queniano conhecido por Abstract Omega cujas imagens me fazem sempre parar por um minuto. Eu acho as histórias em que ele está interessado perturbadoras, mas o seu imaginário é sempre muito bem construído.

Noutros lugares, acabei de descobrir a obra de Kahlil Joseph. Ele é incrível – os seus filmes são como sonhos; como gatafunhos visuais, fragmentos, memórias nebulosas. Eles são construídos de forma muito estranha, os detalhes são impenetráveis, mas eu sempre obtenho uma reação
extremamente emocional ao observá-los. Eu quero fazer filmes assim quando crescer, filmes que dizem muito sem dizer uma palavra.

Acha que os filmes têm o poder de mudar as perceções sobre África noutros continentes?

Sim, mais do que as imagens estáticas que já fizeram tanto para criar perceções preocupantes acerca da África noutros continentes. As perceções que
eu acho que são mais importantes são as perceções internas, como os africanos se veem a si próprios e aos outros, o que acreditamos ser africano,
é ou não é.

Como é que a sua experiência como fotógrafo, artista de vídeo e músico influenciam a sua maneira de realizar?

Acho que ter experiência em fotografia e arte de vídeo às vezes me dá a vontade de explorar imagens em movimento, simplesmente pelo seu interesse visual, do que pelo seu impacto narrativo. Essa vontade é algo que eu tive de aprender a controlar quando estou a filmar narrativas, como é o caso de Regresso a casa. A música sempre anda de mãos dadas como a maior parte da minha realização – muitas histórias foram inspiradas ao ouvir música e
eu ouço música na minha cabeça quando estou a dirigir alguns momentos particulares.

Você é o fundador e o realizador da “NEST” um espaço colaborativo de artistas em Nairobi, onde regularmente também têm lugar exibições de filmes. Por favor, fale-nos mais acerca desse projeto.

Sou o co-fundador da NEST, juntamente com os amigos George Gachara, Njoki Ngumi e Sunny Dolat – todos com quem trabalhei durante alguns anos
em diferentes projetos.

As artes e a cultura quenianas podem ser muito uniformes a seu tempo, e os artistas que trabalham muito longe do mainstream, por vezes, são desencorajados por essa força de homogeneidade. A NEST é um espaço de arte colaborativo e multi-disciplinar, estamos muito interessados em
descobrir e trabalhar com artistas emergentes, cuja obra achamos diferente do que vemos no Quénia. Também estamos muito interessados em
cultivar um público que esteja aberto a diferentes vozes, daí as exibições regulares de filmes. Até agora estamos muito felizes e surpresos de quão
aberta a audiência da NEST é a novas experiências, e nós também encontrámos algumas muito interessantes, novos artistas peculiares, cujo trabalho
nos emociona.

Eu li numa entrevista sua que a sua banda, Just a band, criou uma regra de nunca aparecer nos seus próprios vídeos musicais. Isso também se aplica aos seus filmes? Será que nunca consideraria fazer uma aparição curta à frente das câmaras, como o faz, digamos, Quentin Tarantino, nos seus filmes?

É verdade! Nunca fui um grande fã dos cameos de Quentin Tarantino – acho-os muito perturbadores. Digamos que me sinto muito desconfortável do
outro lado da câmara, por isso é muito provável que eu nunca faça uma participação breve, em lado nenhum!

 

Miriam Daepp do Goethe-Institut entrevistou Jim Chuchu no âmbito do Festival Internacional de Cinema de Toronto.

Goethe film talk on African Metropolis at the Goethe-Institut de Toronto (Watch video on YouTube)

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